Estado de S.P. – 06/04 Projetos param e turbinas a gás encalham Só a Petrobrás tem seis equipamentos armazenados, por falta de demanda NICOLA PAMPLONA RIO – Dois anos depois da corrida por turbinas a gá …

Estado de S.P. – 06/04


Projetos param e turbinas a gás encalham


Só a Petrobrás tem seis equipamentos armazenados, por falta de demanda

NICOLA PAMPLONA




RIO – Dois anos depois da corrida por turbinas a gás para reforçar a produção de eletricidade em meio ao racionamento de energia, a iniciativa mostrou-se precipitada e resultou num encalhe de equipamentos de alta tecnologia. Somente a Petrobrás – que liderou o esforço do governo de evitar possíveis blecautes – tem seis turbinas, de cerca de US$ 20 milhões cada, que ficarão ociosas por falta de demanda.

O presidente da Eletrobrás, Luiz Pinguelli Rosa, inclui na lista os equipamentos comprados há 20 anos para a usina nuclear de Angra 3 e uma térmica a carvão encalhada no Sul para concluir que o Brasil tornou-se "o maior encaixotador de turbinas do mundo".


O gerente de Geração de Energia da Petrobrás, Rafael Comino, acha exagerada a conclusão de Pinguelli, mas confirma que a empresa tem duas turbinas encaixotadas em Cubatão e mais duas a caminho do Brasil, que terão o mesmo destino das primeiras. Outras duas, que também não terão utilidade por enquanto, já estão sendo fabricadas na Europa. "Em razão da situação do setor, os projetos foram suspensos e estão sendo reavaliados. Enquanto isso, os equipamentos terão de ficar armazenados", diz.


As turbinas de Cubatão seriam utilizadas na térmica projetada para a refinaria local. "A licença ambiental demorou tanto que, quando saiu, já havíamos suspendido o projeto", conta Comino. São duas unidades de 165 megawatts (MW) cada, mais uma série de equipamentos periféricos que ficam armazenados na refinaria em constante manutenção para não se deteriorarem.


As outras duas que estão a caminho seriam instaladas na térmica de Piratininga, cuja ampliação também está sendo revista pela empresa.


O encalhe de turbinas não é exclusividade da Petrobrás, segundo informações do mercado. Grandes investidores do setor elétrico, como El Paso, Intergen, Enron e AES também participaram da corrida para compra de turbinas no início da década e também viram seus projetos de geração no País minguarem com o excesso de oferta de energia e a crise do setor. Na época, acreditava-se que o Brasil teria mercado para uma expansão no seu parque gerador em pelo menos 15 mil MW, que seriam fornecidos por 49 usinas a gás natural.


Mundial – Era um momento de grande demanda por turbinas no mercado mundial. Os Estados Unidos estavam precisando ampliar sua capacidade de geração e os três únicos fabricantes deste tipo de equipamento – GE, Siemens e Alstom – não davam conta da procura. Uma vaga na dianteira da fila para comprar turbina virou negócio e havia quem abrisse mão de projetos em outros países para vender seu lugar.


"Ninguém esperava que o racionamento provocasse um sumiço do consumo", diz Comino. "Hoje, o consumo de energia está no mesmo nível de 2000, quando houve a explosão dos projetos de geração", completa o presidente da Associação Brasileira de Indústria de Base (Abdib), José Augusto Marques. A queda do consumo frustrou todas as expectativas de investimentos no setor.


De fato, segundo o acompanhamento mensal da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), dos 79 projetos de térmicas autorizados, 51 estão com o cronograma atrasado. Destes, 39 sequer tiveram as obras iniciadas – e não se espera que venham a ser desenvolvidos. "Hoje já se trabalha com uma lista bem menor que a da Aneel", aponta Comino.


"As térmicas foram planejadas sob o pressuposto de que haveria crescimento na demanda e estabilidade cambial. Nenhum dos dois fatores se confirmou", afirma o consultor Roberto Araújo, da ONG Ilumina, que participa da elaboração do novo modelo do setor junto ao governo.


"Essa história da fila para comprar turbinas é a mesma loucura que aconteceu na década de 70, quando pensaram que o Brasil teria uma imensa quantidade de usinas nucleares", compara Araújo. É justamente no programa nuclear brasileiro que se encontra um dos maiores desperdícios de dinheiro do setor:


US$ 750 milhões em equipamentos estão armazenados há 20 anos em Angra dos Reis à espera de uma definição sobre a conclusão da usina Angra 3.


Na época, o governo brasileiro fez um acordo com a Alemanha para a construção de oito usinas nucelares no País. Duas estão operando e a terceira encaixotada, consumindo US$ 20 milhões por ano em custos de armazenagem, manutenção e seguro.


"Tenho 25 pessoas dedicadas apenas à manutenção dos equipamentos", informa o gerente de obras do complexo nuclear de Angra dos Reis, Engo Costa Matos. Os equipamentos ficam em galpões no entorno das usinas ou na fábrica da Nuclep, empresa criada para a construção do complexo, na Zona Oeste do Rio. Matos garante que o material está em perfeito estado e tem condições de ser posto em operação com apenas alguns ajustes.




Estado de SP – 06/04


Medidas vão mexer no valor das tarifas


Revisão periódica deve elevar algumas delas em 25%, em média

RENÉE PEREIRA


Duas importantes medidas do governo esta semana deverão mexer com o bolso do consumidor de energia elétrica. Primeiro virão os aumentos decorrentes da revisão tarifária periódica, que elevará em média em 25% as tarifas das distribuidoras CPFL (SP), Cemig (MG), Enersul (RS) e Cemat (MT), a partir de terça-feira. Depois, o Ministério de Minas e Energia apresentará uma proposta de realinhamento tarifário, para tentar amenizar os reajustes aos consumidores residenciais, que nos últimos anos vêm sendo os mais prejudicados com os elevados aumentos autorizados às concessionárias. O objetivo do governo é reduzir os subsídios cruzados existentes no setor.


Hoje a classe residencial paga mais pela energia elétrica para compensar a tarifa menor cobrada do industrial. Na Região Sudeste, por exemplo, a diferença entre o valor cobrado entre os dois consumidores é de 125% – sendo R$ 241,26, a tarifa do residencial, e R$ 107,29, a do industrial. Mas a diferença entre os valores chega a 201% em algumas regiões, como é o caso do Norte.


Mas a redução dos subsídios não será uma tarefa fácil. As maiores consumidoras de energia, representadas por grandes indústrias, já estão atualizando um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) no ano passado que mostra o impacto de um aumento nas tarifas de energia elétrica na economia nacional.


Segundo o vice-presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace), José Roberto Giannotti, essa é uma decisão que transcende o setor elétrico, pois tem impacto na inflação, no índice de desemprego e na balança comercial. "Do lado do consumidor, o impacto será por meio de inflação ou por falta de investimento", diz ele. Até o fim da semana, o documento estará pronto e a intenção é de apresentá-lo ao governo.


Reforma das agências deve levar tempo


Executivo mantém em sigilo as discussões sobre o assunto, para ‘afinar o discurso’

PRISCILLA MURPHY


BRASÍLIA – Num sinal de que espera um longo processo até que sejam implantadas as reformas nas agências reguladoras, o governo prorrogou até meados do ano que vem os contratos temporários de trabalho pelos quais é admitida a maior parte dos funcionários dessas autarquias. Na prática, a Medida Provisória 86, aprovada na terça-feira, que também recontratou os mata-mosquitos do Rio, tornou viável o funcionamento das agências por mais um ano, enquanto não se implementa a reforma.


No Executivo, as discussões sobre como serão aperfeiçoadas as agências que regulam os mercados de serviços públicos como energia, água e telecomunicações permanecem secretas. "A reforma das agências está sendo tratada de forma adequada e sigilosa", disse o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. A Casa Civil coordena as discussões que envolvem a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, o ministro das Comunicações, Miro Teixeira, e o da Fazenda, Antônio Palocci. Mas o rumo das conversas permanece guardado a sete chaves no primeiro escalão.


O sigilo foi adotado para que o primeiro escalão "afine o discurso", disse uma pessoa próxima das negociações. Enquanto isso, o Legislativo iniciou duas frentes de discussão sobre o tema. Uma delas é um projeto de lei apresentado pela deputada Telma de Souza (PT-SP) "para iniciar as discussões no Congresso" que, na prática, apenas determina que o Executivo é quem deve definir os parâmetros de cálculo das tarifas, mas não aborda problemas estruturais da regulação. Na outra frente, esta semana, a Comissão de Minas e Energia da Câmara começou a montar um cronograma de audiências para identificar os problemas do setor de energia, incluindo o papel da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).


No mês que vem, a reforma das agências será discutida no 3.º Congresso Brasileiro de Regulação de Serviços Públicos Concedidos, do dia 25 a 28 em Gramado (RS), evento organizado pela Associação Brasileira de Agências de Regulação (Abar).



Folha de SP – 06/04


Aperto recorde marca início da era Lula


DA REDAÇÃO


Para conquistar a confiança dos investidores nos cem primeiros dias de seu mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumentou a dose do remédio amargo de seu antecessor.

A taxa básica de juros da economia (a Selic) subiu de 25% para 26,5% ao ano, e o superávit primário -economia que o governo faz para pagar os juros de sua dívida- aumentou de 3,75% do PIB (Produto Interno Bruto) para 4,25%. Até fevereiro, o esforço fiscal do setor público superava os registrados, para o mesmo período, nos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso.


Essas medidas ajudaram o novo governo a reverter o descrédito do investidor estrangeiro. O risco-país, termômetro da confiança dos papéis brasileiros no exterior, caiu de 1.446 para 940 neste ano. O dólar acumula queda de 9,08% desde a posse de Lula.


No entanto, trabalhadores, consumidores, comércio e setores industriais que dependem do mercado interno saíram perdendo com o crédito ainda mais caro e a falta de investimentos. A inflação também ajudou a corroer a renda.


Segundo o IBGE, o rendimento médio do trabalhadores assalariado em seis regiões metropolitanas do país caiu de R$ 894,83, em dezembro, para R$ 849,50 em fevereiro. A expectativa é que tenha ocorrido uma nova retração no mês passado.


A queda da renda acabou se refletindo na inadimplência ao comércio, que cresceu 13% no primeiro trimestre. Já o número de falências decretadas subiu 3,05%.


Beneficiadas pela prioridade do governo de corrigir suas contas externas, as exportações brasileiras cresceram 26,5% no primeiro trimestre e atingiram US$ 15,04 bilhões. O superávit de US$ 3,76 bilhões na balança comercial no período é quase o mesmo alcançado em todo o primeiro semestre do ano passado.


"Ficou claro que, nesses primeiros cem dias, Lula fez o melhor que poderia fazer em tão curto prazo, que foi reconquistar a credibilidade do Brasil", disse o economista Antonio Barros de Castro, ex-presidente do BNDES. "Foi uma grata surpresa. Mas o governo tem revelado uma certa ausência de formulação, de alternativas. Ele ainda não disse a que veio em muitos campos."


O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), principal fonte de financiamento de longo prazo, está paralisado. A aprovação de novos projetos caiu 66%.

Para o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Otaviano Canuto, a política econômica de Lula está dando certo. "A palavra-chave é "delivery" [entrega", como bem empregou um analista de Wall Street. A gente está prometendo e a gente está entregando."

Categoria

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *