Não dá para não pasmar!

Liberou geral (Folha de SP – 27/11)


Clóvis Rossi


SÃO PAULO – Por muito acostumado que esteja com o cinismo dos políticos (seria mais certo dizer farto), não consegui deixar de me surpreender com a aparição de José Borba, líder do PMDB na Câmara, em pleno “Jornal Nacional”, para dizer que tipo de ministério ele gostaria de ter para seu partido: “Um ministério que conte com estrutura orçamentária e financeira, caneta e tinta”.
Não é que a frase seja novidade. A maneira como foi pronunciada e o sorriso cínico que a acompanhava é que surpreendeu. Esse tipo de, digamos, confissão aparecia antes nos conchavos de bastidores, jamais no “Jornal Nacional”.
Fica a sensação de que os últimos resquícios de pudor foram abandonados, talvez porque o vigilante da moralidade pública nos últimos muitos anos, que foi o PT, mudou de lado no balcão de negócios que é a política brasileira. Agora, é o comprador. E quem compra não denuncia.
É eloqüente a respeito o desterro dos dois policiais federais responsáveis pela prisão do marqueteiro presidencial Duda Mendonça quando participava de uma rinha de galos no Rio de Janeiro.
Sempre haverá algum petista, já devidamente adaptado à nova moralidade do partido, que dirá que a rinha existia há muito tempo e que, portanto, a prisão de Duda foi manobra “tucana” às vésperas da eleição paulistana (da qual, aliás, o marqueteiro já estava desencanado). Pode até ser verdade, mas o pecado não foi ter investido contra a rinha quando Duda estava lá, mas não tê-lo feito também antes. A remoção dos policiais agora envia uma mensagem claríssima: quem mexer com os amigos do rei vai trabalhar no raio que o parta.
Não sei se o autor da novela “Senhora do Destino” fez de propósito ou não, mas é muito sintomático que, na era PT, supostamente do restabelecimento da moralidade, os dois únicos políticos da trama sejam crápulas. É igualmente sintomático que o sitcom “Os Aspones” retrate Brasília como perfeita esbórnia.

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