Só com botas de aço!

Tiros no pé não são surpresa. Há muito estamos denunciando esse estranho comportamento do estado brasileiro pós transição FHC-Lula.


Alguém conhece algum exemplo internacional de um governo que, em nome de implantar a concorrência, aceite passivamente que energia elétrica em torno de R$ 68,30, US$ 23, seja substituida por outras que cobram US$ 40? E mais! A energia barata descontratada pertence a empresas onde o estado é o principal acionista?! E mais! Ainda argumentam que a situação é causada por uma certa “preguiça” das empresas em vender para consumidores livres, atitude que elas não podiam tomar, com a liberdade dos geradores privados, em função de regras criadas pelo próprio estado?! E mais! O estado acha muito bom ir “doando” essa vantagem tarifária para grandes consumidores deixando a ver navios o mercado cativo!


Espera-se que Furnas, a empresa que representa o próprio pé estraçalhado pelos tiros, defina o “centro de gravidade de preços” do próximo leilão. Ao invés de nivelar rentabilidades em torno de valores condizentes com o serviço público, o leilão vai desnivelá-las, por não reconhecer as diferentes realidades de amortização de investimentos de um país hidroelétrico. Empresas com ativos amortizados sairão como grandes heroínas da eficiência, quando, na realidade, tudo se resume as heranças que cada uma carrega.


Com um estado assim, só com botas de aço!



Ano ruim para geradoras estatais (Estado de SP – 29/11/04)
Apesar do aumento do consumo de energia no País, rentabilidade das empresas até setembro caiu



Alaor Barbosa


As grandes geradoras estatais federais de energia elétrica tiveram um desempenho fraco de janeiro a setembro, em termos de rentabilidade, mesmo com o aumento do consumo de energia elétrica no Brasil. Essas empresas representam cerca de metade da capacidade de geração no País e são decisivas para a fixação do nível de preços desse serviço.

O caso mais evidente foi Furnas, responsável pelo atendimento da Região Sudeste. A maior empresa do grupo Eletrobrás e, tradicionalmente, a mais rentável, viu seu lucro líquido cair para R$ 433 milhões, numa redução de 42% em relação a janeiro/setembro de 2003. Essa perda refletiu basicamente o impacto da política de descontratação vigente no setor, que resultou em perda de 50% dos contratos de fornecimento. As perdas só não foram maiores pelo aumento de 17,37% das tarifas no período, o que permitiu à empresa acumular vendas líquidas de R$ 3,367 bilhões, receita quase idêntica aos R$ 3,331 bilhões de janeiro/setembro de 2003.

Os fracos resultados têm sido utilizados pelos dirigentes das estatais como a demonstração de uma necessidade de reajuste das tarifas por parte das geradoras, até para viabilizar novos investimentos. O governo argumenta, no entanto, que boa parte da perda resulta da estratégia errada das estatais – especialmente de Furnas, que não disputou o mercado que se abriu no País com o crescimento dos consumidores livres.

Acostumada a ser procurada pelos compradores de energia, a empresa não se preparou para a disputa e praticamente não conseguiu substituir a perda de consumidores cativos por novos clientes livres. Tanto que, mesmo com a redução de 29,8% nos contratos iniciais (janeiro a setembro de 2004 sobre igual período de 2003), o mercado cativo ainda representa 92% da energia comercializada por Furnas. As vendas bilaterais e por meio de leilão respondem por menos de 8% das vendas.

Beneficiada pela seca no início deste ano, a Chesf conseguiu renovar seus contratos iniciais, sofrendo menos com a descontratação, enquanto a Eletronorte renegociou contratos com os grandes fabricantes de alumínio da região (Albras e Alumar), após uma dura queda-de-braço em torno dos preços das tarifas.

Para tentar evitar uma explosão da tarifa no leilão de energia existente (programado para 7 de dezembro), o governo conta com a possibilidade de recomposição do portfólio das estatais, especialmente Furnas. Ou seja, a empresa poderá praticar um preço agressivo (mais baixo) e conseguir escoar toda a produção.

Com maior volume vendido, a rentabilidade tende a ser maior, sem a necessidade de aumento forte na tarifa. É uma equação que os diretores de Furnas – e os concorrentes – estão tentando resolver. Ou seja, qual o ponto de equilíbrio entre o volume e o preço para recuperar a estabilidade financeira. Se vender 100% da sua energia, talvez a empresa possa praticar preços mais suaves, raciocinam fontes oficiais.

Pelos dados da Eletrobrás, mesmo mantendo a liderança em termos de faturamento dentre as controladas pela Eletrobrás, Furnas perdeu para a Chesf (que atua no Nordeste) a condição de mais rentável dentre as integrantes da holding estatal de energia elétrica. A Chesf viu a sua receita crescer 15,37% no período, atingindo R$ 2,542 bilhões, ante os R$ 2,203 bilhões nos nove primeiros meses de 2003, conseguindo lucro líquido de R$ 613 milhões, muito próximo dos R$ 627 milhões registrados entre janeiro e setembro de 2003. A Chesf, no entanto, foi uma exceção entre as grandes estatais federais.

A Eletronorte, que atende à Região Norte, viu o seu prejuízo crescer quase nove vezes, atingindo R$ 832 milhões até setembro (R$ 86 milhões de perdas no ano passado), apesar de a receita líquida ter registrado crescimento de 31%, somando R$ 2,099 bilhões este ano. A outra grande geradora federal, a Eletronuclear, registrou prejuízo de R$ 265 milhões, quase o dobro dos R$ 138 milhões de 2003, com aumento de 10,62% na receita líquida, que atingiu R$ 596 milhões (R$ 538 milhões de janeiro a setembro de 2003).

Com base nesses dados, as gigantes estatais estão tentando fechar os seus números, o que terá peso decisivo no leilão de 7 de dezembro. No trimestre passado, a tarifa média de Furnas ficou em torno de R$ 68,30, a da Chesf em R$ 60,39, a da Eletronorte em R$ 59,34 e a da Eletronuclear em R$ 72,28.

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