O Velho Chico em questão







ILUMINA esclarece,


Apresentamos abaixo as análises de2 professores sobre a Transposição, com posições diferentes, publicada no suplemento EU& n. 265, do jornal Valor.


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O projeto de transposição das águas do rio São Francisco é o assunto para a análise de Aldo Rebouças, geólogo, integrante do Instituto de Estudos Avançados da USP (à direita), e Uriel Duarte, professor titular de Recursos Hídricos e Geologia Ambiental













Valor: Qual sua posição em relação ao projeto de transposição das águas do rio São Francisco?


Aldo Rebouças: Sou contra. Apesar da escassez no Semi-Árido, o Nordeste é rico em água e sabendo usar não vai faltar. A solução não está em obras faraônicas, mas no cuidado e no aproveitamento racional da “gota disponível”, para que chegue a cada pessoa. É preciso, sim, revitalizar o rio São Francisco. Basta dizer o seguinte: dos municípios da bacia, nenhum tem tratamento de esgoto.


Uriel Duarte: Sou a favor, pela necessidade premente de a região ter um movimento sócio-econômico de desenvolvimento. Tecnicamente, o projeto de transposição é quase perfeito. Há poucas falhas para um projeto de tamanha importância e grandiosidade. Todo mundo fala em dinheiro, questiona o volume de recursos, mas pensa pouco no social. Mesmo que a água não chegue para todos, só com a perspectiva de ter água, de estar pela primeira vez no centro de uma discussão importante, já dá uma nova esperança ao povo do Nordeste.











Valor: O ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, disse que o governo faria de tudo para que o Congresso aprovasse a proposta de emenda constitucional que prevê o investimento, nas próximas duas décadas, de R$ 300 milhões por ano na revitalização e saneamento do rio São Francisco. Há alguma chance de o projeto ser aprovado ou se trata de pura retórica do governo?


Rebouças: É pura retórica. Não adianta o governo liberar recursos, prometer cesta básica, dizer que vai combater o trabalho infantil, se não tem condição nenhuma de entrar no modelo econômico da ação. Além disso, R$ 300 milhões por ano são insuficientes. Significa um dólar por quilômetro quadrado de recurso e isso é muito pouco. Era preciso, no mínimo, o investimento de R$ 1 bilhão.


Duarte: São projetos distintos, não podemos misturá-los. O projeto de revitalização começou a ser elaborado em 2001 e já começou a ser executado com ações isoladas. É lógico que há necessidade de um grande investimento do governo federal. Mas o governo da Bahia já podia ter ajudado, o governo de Minas, também. Mas ficam esperando o governo federal tomar providência. Sim, R$ 300 milhões é uma ninharia se levarmos em conta o tamanho do rio São Francisco e seus problemas, mas é um recurso que não pode ser desprezado.


Valor: Lula chegou a declarar que pretende fazer com o Semi-Árido nordestino o mesmo que o presidente Franklin Roosevelt fez no Vale do Tennessee, nos EUA, entre as décadas de 30 e 40 do século passado. Qual o peso que uma obra desse porte pode ter no processo da eleição presidencial de 2006?


Rebouças: Sem dúvida, o projeto de transposição tem um grande peso na ação política do governo. O Nordeste é tido como uma região pobre, carente de recursos e aparece um presidente da República prometendo R$ 4,5 bilhões de investimentos. É um grande ganho político. Na primeira fase, o projeto vai gerar, sem dúvida, um impacto na região, de geração de empregos, que vai coincidir com o período de campanha pela reeleição.


Duarte: Não dá para saber dizer se esta é mais uma bravata do Lula. Mas seria ótimo se fosse verdade. É lógico que a obra de transposição renderá dividendos políticos ao presidente. Agora, o pessoal da Bahia é contra a obra. O pessoal de Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte também. Nesses Estados, ele pode perder muitos votos.

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