A volta da falida Eletronet

Reproduzimos abaixo a matéria publicada no jornal Valor Econômico:


Capital da Eletrobrás pode ser usado para ressuscitar Eletronet



Heloisa Magalhães e Claudia Schüffner, Valor, 5/4/07







A retirada da Eletronet do processo de falência utilizando capital da Eletrobrás é apenas um capítulo do grandioso projeto do governo que vem sendo acalentado pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff e pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da Presidência da República. O plano é atribuir a uma única empresa pública a gestão de toda a infra-estrutura de fibras ópticas que hoje pertence às estatais, entre elas do setor elétrico e a Eletronet.







Em 2003 sob a coordenação do então ministro das Comunicações, Luis Gushiken, foi estudada a possibilidade de a Petrobras comprar a Eletronet com deságio mínimo de 70%, para então utilizar a infra-estrutura como rede básica para atender empresas do governo. Mas a estrutura da época era comercial. E quando souberam do interesse governamental, Furukawa e Lucent fizeram pressão para receber e a idéia não prosperou.






Agora, o projeto parece ter sido retomado. A proposta apresentada em 2006 prevê que por esse grande backbone trafegariam todas as redes do governo como a do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Dataprev, Datasus, Ministério da Educação, Mistério da Defesa e Rede Nacional de Pesquisa, entre outros. A idéia é prever recursos no Orçamento da União, do Plano Plurianual (PPA) entre 2008 e 2012.






O plano quase foi incluído no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) mas havia indefinições em relação à disponibilidade das redes das estatais e a questões envolvendo o processo de falência da Eletronet. O plano é usar a infra-estrutura para desenvolver amplo projeto de inclusão digital, fazendo com que a banda larga chegue às escolas de todo o país de forma a melhorar a qualidade da educação básica.






O projeto foi apresentado à indústria de telecomunicações no ano passado, em encontro em hotel no Rio. Pelo governo, compareceu o então secretário do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (NAE), Luiz Gushiken. Com sua saída da equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ficou à frente do NAE e do projeto o coronel Oswaldo Oliva Neto, que é irmão do senador Aloizio Mercadante. A indústria está agora preparando contribuições para apresentar ao governo. Está especialmente interessada pois teme a criação de uma nova Telebras – empresa que formalmente ainda existe. E está atenta a até que ponto essa estratégia pode interferir nas novas regras de universalização para as concessionárias de telefonia que vêm sendo desenhas no Ministério das Comunicações onde a idéia é casar as exigências com o projeto de inclusão digital.






Pela proposta do NAE, caberia ao Estado a oferta da banda larga nas regiões onde não houver interesse do mercado e nem competitividade. É onde entra a Eletronet, que tem uma rede de 16 mil quilômetros de fibras ópticas instaladas ao longo das linhas de transmissão de quatro controladas da Eletrobrás: Furnas, Eletrosul, Chesf e a Eletronorte. A empresa era controlada pela AES Bandeirante com 51% e pela LightPar, da Eletrobrás, com 49%. Mas a AES foi afastada da gestão em 2002, quando deixou de pagar fornecedores. Em seguida a LightPar assumiu a gestão, mas não as dívidas, e em abril de 2003 entrou com pedido de falência da Eletronet em que requeria também autorização para que ela continuasse operando. As dívidas somavam cerca de R$ 600 milhões em valores de 2003. Os maiores credores são a japonesa Furukawa (controlada pela Mitsui) e a Alcatel, fornecedores dos equipamentos utilizados na implantação da rede.






A estratégia do projeto do NAE na educação é interligar todas as escolas públicas e além disso levar infra-estrutura digital para os mais de três mil municípios que não têm acesso a internet, TV a cabo e a tecnologias como a de voz sobre protocolo de internet (Voip). Outros 300 municípios não têm sequer acesso à banda larga. Para o governo, a única maneira de contornar esses problemas, que são agravados pela dimensão geográfica do país, é através da inclusão digital e uso da banda larga. Mas a avaliação é de que implantar essa infra-estrutura no atual modelo de telecomunicações, construído com base na lógica de mercado, não é tarefa rápida. E propõe uma parceria com a iniciativa privada.






Assim, se pretende implementar um modelo onde o Estado assuma os serviços nas áreas menos concorridas, deixando as operadoras atuarem sob o modelo competitivo nos mercados onde apresentam equilíbrio financeiro. O setor, entretanto, questiona a não utilização dos recursos do Fundo de Universalização das Telecomunicações (Fust) para o qual as concessionárias vem contribuindo desde 2001. Foram arrecadados R$ 4,5 bilhões sendo que boa parte entrou no caixa do Tesouro para compor o superávit primário.

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