Madeira põe em xeque o mercado livre
Cláudia Schüffner, jornal Valor
O leilão da hidrelétrica Santo Antonio criou um impasse para os consumidores livres de energia, que agora precisam decidir sua estratégia de contratação a partir de 2013. Quem apostar em alta de preços tem três opções: ficar no mercado livre, mas tentar contratar agora energia ao menor preço que garanta seu suprimento; apostar numa queda da tarifa e continuar exposto ao mercado “spot”; ou migrar para o mercado cativo das distribuidoras, que é regulado pelo governo. Esta possibilidade de migração para o mercado cativo se torna um limitador na negociação do consórcio para vender os 30% da energia que será destinada ao mercado livre. |
| A aposta do presidente da Empresa de Pesquisa Energética ( |
| Luiz Fernando Vianna, da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine) também acredita que o leilão de Santo Antonio aponta para a modicidade tarifária tanto para o mercado regulado como para o livre. “O dilema é decidir comprar energia agora ou mais na frente”, admite. |
| O ano de 2013 é emblemático porque é quando já terão iniciado operação pelo menos duas duas máquinas de Santo Antônio, que só vai alcançar sua produção máxima de 2.218 megawatts (MW) de energia assegurada três anos depois. É quando também começam a vencer os contratos de venda da chamada “energia velha” leiloada em 2004 e 2005, já sob o novo modelo do setor elétrico e contratados na fase de transição dos dois modelos. |
| Trata-se da energia que foi leiloada em dezembro de 2004 em contratos com prazo de oito anos para entregas a partir de 2005, 2006 e 2007 e feitos na fase de transição do velho para o novo modelo do setor elétrico do país. Ao todo, serão 20 mil MW de energia disponível (16 mil MW nos primeiros anos) descontratada entre 2013 e 2015. Uma parte já começou a ser negociada antecipadamente e o restante – em volumes desconhecidos – estará disponível no mercado. |
| Uma parte dessa energia, hoje contratada pelo mercado cativo pode ser canalizada para o mercado livre. É energia gerada pelas usinas de |
| Quem decidir migrar para o mercado cativo e quiser estar nele em 2013 terá que informar no ano que vem a intenção de se tornar cliente de uma distribuidora de energia. Isso porque o modelo exige que essa informação seja dada com cinco anos de antecedência. Os consumidores cativos compram através de um pool, são regulados pelo governo e firmam contratos de compra de 30 anos no caso de novas hidrelétricas. Na avaliação de um experiente executivo do setor e presidente de uma distribuidora, se a energia “livre” de Santo Antonio for oferecida por um preço muito alto os consumidores vão migrar em massa para o mercado cativo. |
| A tarifa de R$ 78,87 da usina Santo Antonio (3.150 MW de potência instalada e 2.218 MW assegurados), deve servir de parâmetro para a construção dos grandes projetos estruturantes na Amazônia, como Jirau (3.300 MW) e Belo Monte (11.182 MW, dos quais 4.700 MW assegurados). Esse valor puxa para baixo o custo marginal da expansão do sistema elétrico no longo prazo. |
| Mas há no setor quem duvide que esse preço sirva de parâmetro para a energia futura, apesar da aposta de Tolmasquim, um dos formuladores do atual modelo elétrico. Até porque, em 2016, a hidrelétrica Santo Antônio vai atender apenas 7% da demanda por energia do país. |
| Um executivo de um dos dois consórcios que perderam a disputa pela hidrelétrica do rio madeira acha que o custo da energia no Brasil é crescente e que ninguém deve apostar em redução. “Não existem grandes projetos tão bons como os do rio Madeira. O preço vai continuar crescendo e volumes de energia como esse não aparecem a toda hora. Os projetos do Madeira são maravilhosos mas não suficientes para o que o Brasil precisa em termos de energia”, avalia. |
| O analista de um grande banco de investimentos lembra que o país precisa acrescentar anualmente cerca de 3 mil MW médios de energia se a demanda continuar crescendo 4,8% ao ano e o PIB outros 4%. Nesse ritmo, o país precisará adicionar 30 mil MW nos próximos 10 anos. Contudo, as hidrelétricas que estão em fase de estudo de viabilidade – incluindo Jirau e Belo Monte – somam juntas 16,6 mil MW. Outros 8,3 mil MW estão em com estudos em fase de desenvolvimento, mas a maioria é de projetos no rio Teles Pires (3 mil MW), no Mato Grosso, onde também existem problemas ambientais. A demanda adicional precisará ser atendida por usinas térmicas. |
| Considerando que haverá escassez de oferta, o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), vê o risco de tarifas muito baixas como as de Santo Antonio trazerem problemas estruturais para financiamento da hidrelétrica e das próximas obras, afastando investimento privado da Amazônia. “Quem no Brasil vai topar vender energia elétrica a R$ 50?”, questiona Pires. |
| Pelos cálculos do presidente da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee) , Luiz Carlos Guimarães, com a usina de Santo Antonio a tarifa média da energia no Brasil – contando as hidrelétricas baratas e térmicas caras – permanece em torno de R$ 100 para o cliente cativo (distribuidoras). Para os consumidores livres, ao qual se destinarão 30% da energia dessa usina, o preço deve ficar entre R$ 135 e R$ 140, mas o valor que será negociando de fato ainda é desconhecido. |
| Se o comprador for um auto-produtor, poderá obter descontos. O presidente de uma empresa que já manifestou interesse em comprar essa energia declara que não aceita pagar mais de R$ 125. “Só vamos comprar essa energia tomando como limite o preços de térmicas recentemente vendidas no Nordeste”, explica o executivo. |