< />2375 km DE RONDÔNIA A SÃO PAULO – 890 km DE ITAIPU A SÃO PAULO
Numa certa manhã de 1978 entrei na minha sala em Furnas Centrais Elétricas – Rua Rela Grandeza, 219 – 6º. andar (ou seria o 5º. ?) – Bloco A. Mostraram – me o JB que não tinha lido em casa. O Ministro Ueki tinha decidido que a construção do tronco de transmissão de Itaipu-São Paulo iniciar-se-ia pela transmissão em corrente contínua, isto é, pela transmissão da energia dos geradores paraguaios em 50 Hz, que seriam os primeiros a serem postos em operação. Em Furnas, responsável pela implementação de toda a transmissão, todo o corpo técnico imaginava o óbvio. Começaríamos construindo e pondo em operação os três circuitos e subestações de Itaipu e Tijuco Preto (nas proximidades Mogi) e as duas subestações intermediárias de 750 kV, que transmitiriam a energia dos geradores brasileiros (60 Hz) da grande usina.
Palavrões encheram o ar daquela sala de Furnas em relação a referido Ministro de Minas e Energia. Os ávidos fornecedores de estações conversoras CC/CA tinham conseguido antecipar o investimento brasileiro, naquele momento o maior da história do planeta em sistemas de corrente continua. Os quatro candidatos que seriam convidados a participar da grande licitação – ASEA, Brown Boveri, General Electric (EUA) e GEC (Reino Unido) – tinham conseguido influenciar o Ministro e, quem sabe, os níveis gerenciais da Eletrobrás.
Hoje, olhando aqueles tempos, diria que aquela antecipação amaldiçoada até resultou em vantagens. Afinal, o espírito nacionalizante majoritário em Furnas e fontes de financiamento em moeda nacional resultou em participação substancial de sistemas, equipamentos e sistemas fabricados no país, bem como um enorme sucesso na transferência de tecnologia exigida nos documentos de licitação. Nessa área havia terreno fértil nas ainda jovens equipes de Furnas, da Eletrobrás, do CEPEL e da empresa de engenharia PROMON consorciada da ASEA, vencedora da licitação.
No sistema híbrido de transmissão de Itaipu aconteceu uma coincidência. O custo total do sistema de corrente alternada em 750 kV foi aproximadamente o mesmo do sistema de corrente contínua. Em outras palavras: para uma transmissão de ponta de 6400 MW de cada uma das metades brasileiras e paraguaias – 890 km – o investimento direto em cada um dos trocos em corrente continua, 600 kV, e corrente alternada, 750 kV, empataram em torno de US$ 1,1 bilhões a valores médios do segundo qüinqüênio da década de oitenta.
Às novas gerações relembramos que uma transmissão em corrente contínua, da metade da potência da usina, tornou-se necessária no momento em que o Paraguai negou-se a mudar a freqüência do seu sistema para 60 Hz. A coincidência foi, pelo menos, um consolo.
O tronco de transmissão das usinas do Rio Madeira até Araraquara (SP)terá 2375 km (166% maior que os troncos de Itaipu) e deverá transmitir, no mínimo, uma potência aproximadamente igual à metade da capacidade instalada total de Itaipu. Assim, ressalvados meus (des)conhecimentos causados pela longa ausência da ativa do setor, diria que a escolha de corrente continua é óbvia por ser muito mais econômica. Entretanto, ainda em função dessa ausência de 18 anos do setor, questiono com muito cuidado se não poderiam ter sido consideradas nos estudos alternativas com tecnologias mais avançadas em corrente alternada de meia onda, por exemplo. Mesmo porque, de repente, nos deparamos com um cronograma bastante apertado para sistemas desse porte, sobretudo na situação de risco energético com que se defronta o sistema interligado nesse final de primeira década, inicio de segunda década do século XXI. Escolhas tecnológicas inéditas não seriam arriscadas? Adicionem-se os seguintes dados: a débâcle forçado a partir dos anos finais do século XX das equipes gerenciais e técnicas de alto nível das empresas públicas do setor formadas com tanto empenho a partir de meados dos anos sessenta; o extermínio das empresas de engenharia brasileiras; a redução do espírito nacionalizante mencionado acima.
Por outro lado, aparentemente, os recursos financeiros não faltarão como faltaram ao longo dos anos oitenta, tornando necessários vários adiamentos nos cronogramas dos troncos de corrente contínua e alternada de Itaipu, com óbvias repercussões nos custos finais e no estado de espírito dos gerentes e engenheiros. Se bem que num cenário de risco de suprimento muito inferior ao dos anos presentes. Vivíamos então a famosa década perdida ou a primeira de duas décadas perdidas.
Olavo Cabral Ramos Filho
9/04/2009