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Eletrobras sacrifica a Chesf. De novo
Publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 21.05.2010
Comandada pelo PMDB de José Sarney, holding obriga empresa nordestina a se desfazer de uma parcela de sua participação no projeto de Belo Monte
Angela Fernanda Belfort
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) perdeu participação no consórcio que vai construir a usina de Belo Monte, no Pará, a terceira maior hidrelétrica do mundo. Para disputar o leilão, a Chesf entrou com uma participação de 49,98% no Consórcio Norte Energia, que venceu a licitação. Mas o governo federal, via Eletrobras, definiu uma nova composição acionária para o empreendimento, deixando a Chesf com 15%. A participação da Chesf como líder na obra era o principal argumento daqueles que diziam que a empresa está sendo fortalecida e não esvaziada pelo governo. Agora, este discurso caiu por terra.
Comandada por José Antônio Muniz, apadrinhado do senador José Sarney (PMDB), a Eletrobras controla a Chesf e agora ficará com 15% de Belo Monte. A Eletronorte, presidida por José Antônio durante o governo FHC, ficará com 19,9% e, desta forma, será a líder do grupo e operadora da usina. Com forte influência do grupo de Sarney, a Eletronorte sempre foi considerada o patinho feio do Sistema Eletrobras pelos grandes prejuízos que registrou (passivo de R$ 8 bilhões) e os altos custos para manter o serviço de geração e distribuição de energia elétrica no Norte do País.
A perda da participação e da liderança da Chesf foi mais um capítulo no processo de perda de autonomia da estatal nordestina para fortalecer a Eletrobras. “A diminuição da participação da Chesf mostra que ela está perdendo poder e isso é uma política do governo federal, que pretende esvaziar as subsidiárias da Eletrobras – como Furnas e Chesf – para fazer da Eletrobras uma grande empresa”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), uma instituição independente que faz estudos sobre o setor elétrico.
“No Sistema Eletrobras, Furnas e Chesf se destacaram e sempre foram lucrativas. A Eletrobras quer meter a mão no dinheiro das duas para se tornar uma grande empresa. Essa história de transformá-la numa estrutura parecida com a Petrobras mostra que o governo não entende de petróleo nem do setor elétrico”, conclui Adriano Pires.
Empresa foi chamada às pressas para o leilão
Publicado no JC, em 21.05.2010
Localizada no Rio Xingu, no Pará, Belo Monte vai demandar um investimento estimado em R$ 19 bilhões e terá uma capacidade para gerar 11,2 mil megawatts (MW). Todo o parque elétrico da Chesf, só para se ter uma ideia, tem a capacidade de gerar 10 mil MW. A empresa nordestina foi chamada a participar da licitação de última hora quando companhias privadas desistiram da empreitada.
Desde antes do leilão, o governo federal informou que a Eletronorte seria uma parceira estratégica, independentemente do vencedor. “Pela lógica, a Chesf deveria entrar com uma participação igual a da Eletronorte”, comentou o diretor do Instituto Ilumina, Antonio Feijó, argumentando que a Chesf tem melhor condição financeira para liderar o grupo, embora a Eletronorte tenha o conhecimento da área.
Nos bastidores, técnicos do setor informaram que a diretoria da Chesf não gostou da diminuição da participação em Belo Monte. A reportagem do JC tentou, por telefone, falar com dois diretores da empresa, que não retornaram à ligação. O presidente da companhia, Dilton da Conti, também preferiu o silêncio.
O esvaziamento da Chesf foi iniciado em 2008, quando foram mudados os estatutos da empresa retirando a sua autonomia. Até agora, o governo federal não tomou qualquer posição concreta para devolver a autonomia à estatal, embora o presidente Lula tenha prometido parar este processo.
O senador Marco Maciel (DEM) afirmou ontem que o processo de perda da autonomia da Chesf continua com a diminuição da participação da estatal no consórcio que vai construir a hidrelétrica de Belo Monte. “Precisamos retomar a mobilização, pois, ao contrário do que foi anunciado, o governo prossegue com o esvaziamento da Chesf”, disse.