José Carlos Martins(www.desempregozero.org.br)
Não apenas a equipe econômica e a mídia estão dizendo que entramos em ritmo de retomada do crescimento sustentável, como grande parte da opinião pública, a dar crédito à pesquisa CNT/Sensus, também se convenceu disso nos últimos dois meses. Estaria o povo brasileiro sentindo os efeitos concretos da retomada do desenvolvimento, ou o povo está sob o efeito psicológico da propaganda da mídia de que a economia retomou? Tiremos a prova dos nove: Melhoraram as perspectivas de emprego e de renda do trabalho? As pessoas se sentem mais seguras andando ou dirigindo pelas ruas do Rio ou de São Paulo?
Como toda recuperação começa por pequenos movimentos, e como nem todos os pequenos movimentos se transformam em recuperação sustentável, há um razoável campo de dúvida sobre as nossas perspectivas reais. Que as exportações continuam crescendo em ritmo firme é verdade. Que isso tem efeito sobre o conjunto da economia é também verdade. Que o mercado dos ricos está se recuperando, é igualmente verdade. Contudo, os setores produtivos voltados para as grandes massas continuavam, em junho, num patamar inferior à média de 2002. Quando ao emprego, está virtualmente estagnado.
Por que, diante dessa ambiguidade conjuntural, economistas independentes como eu sustentam que essa retomada é pura ilusão? Sabemos que estamos indo contra a corrente, com o risco de colocar nossa reputação em jogo. Se a economia fechar com um crescimento, digamos, de 5% neste ano, teremos cometido um notável erro de previsão. Alguns membros do Governo haverão de nos acusar justificadamente de catastrofistas, e é possível que pelo menos alguns jornalistas deixem de nos levar a sério. Contudo, a não ser por isso, nada de grave terá acontecido no mundo real. Exceto as eleições.
O fato é que se a gente fala que a economia vai mal, e ela vai bem, ninguém, a não ser aqueles que se preocupam com nossa habilidade de previsores, vai sofrer qualquer consequência. Mas se a gente fala que a economia vai mal, o Governo que vai bem, e ela de fato vai mal, alguém deveria pagar as consequências. Contudo, o calendário eleitoral ajudou incrivelmente a equipe econômica, que é o setor do Governo mais vulnerável a uma eventual e reconhecida derrapada na economia. É possível que os dados que indiquem que a economia continua indo mal só apareçam depois das eleições.
O motivo é muito simples: até junho, inclusive, tivemos queda da produção no ano passado. A partir de julho começou uma recuperação. O Governo falou em espetáculo de crescimento. Era uma flutuação, que entrou pelo primeiro trimestre deste ano. Nada de exagerado: estávamos apenas recuperando o nível perdido de produção, e acrescentando um pouco por conta das exportações e do agronegócio, cuja influência no conjunto do PIB é limitada (15%). No segundo trimestre, a produção industrial de certos setores entrou num -ritmo de crescimento mais elevado. Ao longo do atual semestre, porém, ela vai se confrontar com a base mais alta do segundo semestre do no ano passado.
Temos, pois, na extrapolação dos dados da indústria ao longo do primeiro semestre deste ano, um claro truque de euforia pré-eleitoral. No fim deste mês, saem os dados do PIB relativos ao segundo trimestre. Certamente indicarão crescimento, mas nada de espetacular. Entretanto, com uma imprensa tão amigável, isso será suficiente para a equipe econômica continuar alimentando a euforia. Os dados do terceiro trimestre, que começarão a indicar o desempenho real do ano sem viés estatístico, só sairão em novembro. Se forem bons, sairá reforçada a linha Palocci. Se forem ruins, já não prejudicarão Marta Suplicy.
Para os economistas independentes, contudo, é uma obrigação moral pôr em dúvida a sustentabilidade deste crescimento. São duas as razões. Primeiro, é necessário reconhecer que, tendo realmente havido algum pequeno crescimento, ele se deu contra a política econômica em curso, e não por força dela. Segundo, se estivéssemos realmente num momento de crescimento sustentável, toda teoria econômica estaria subvertida: crescer de forma sustentável com 10% de taxas básicas reais de juros e superávit primário de mais de 4,25% do PIB é um fato tão extraordinário que tornaria irrelevante nossas críticas, mas não só elas. Tornaria irrelevantes os nossos próprios diplomas de graduação e pós-graduação em economia, elevando o dos médicos à categoria do Prêmio Nobel.