Apesar das declarações otimistas das autoridades do setor, a situação é grave. A crise está apenas diminuída com a volta do período chuvoso. Temos dito…. Leia sobre as causa dos …

Apesar das declarações otimistas das autoridades do setor, a situação é grave. A crise está apenas diminuída com a volta do período chuvoso. Temos dito…. Leia sobre as causa dos apagões


Globo 16/12/2000

Apagão IV


Quarto blecaute apaga o Leme Jorge Martins e Selma Schmidt


RIO e BRASÍLIA. Depois da infeliz coincidência, a infelicidade completa. O gerente-regional da Divisão Litorânea da Light, Mário Sérgio Coutinho, classificou como "uma infelicidade" o novo apagão – o quarto em quatro dias – que deixou ontem duas mil residências de 13 ruas do Leme às escuras das 2h48m às 3h36m da madrugada. Anteontem, o assistente-executivo de Operações da Light, José Márcio Ribeiro, tratara os três sucessivos apagões anteriores como "uma infeliz coincidência".


Mário Sérgio atribuiu o problema na subestação do Leme a dois eventos simultâneos: um curto-circuito num cabo de média tensão e um defeito no disjuntor desse cabo, que alimenta vários transformadores do bairro. Um sistema de proteção, explicou ele, provocou o desligamento de outros cinco cabos, que são interligados ao avariado.


– Trabalho na Light há mais de 20 anos (antes da privatização) e não me lembro de que tenha ocorrido um acidente simultâneo de cabo e disjuntor. Foi uma infelicidade – afirmou Mário Sérgio, garantindo que os cabos do Leme foram testados há cinco meses.


A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ameaçou ontem realizar uma fiscalização emergencial, semelhante à que foi feita no verão de 98 – que ficou conhecido como "o verão do apagão" – caso as quedas de energia voltem a acontecer em série.


– Esse desligamento não é mais um caso de advertência – disse o superintendente de Fiscalização de Energia da Aneel, Manoel Eduardo Miranda Negrisoli, referindo-se ao caso de ontem.


Procon: processo contra Furnas


Negrisoli disse que no caso do Leme havia energia suficiente para atender aos usuários porque o desligamento aconteceu de madrugada, quando é menor o consumo.


– Não foi sobrecarga do sistema. Foi uma falha no equipamento da Light – disse o superintendente, acrescentando que no regulamento da Aneel estão previstas penalidades para as empresas que não realizarem obras de melhoria do sistema e não mantiverem o equipamento operando satisfatoriamente.


O Procon-RJ instaurou ontem processo administrativo contra Furnas Centrais Elétricas, por entender que a empresa é a grande responsável pelos apagões dos últimos dias, por gerar e distribuir em atacado energia elétrica para o Estado do Rio. Furnas não quis se pronunciar sobre a decisão do Procon, informando apenas que enviará à Aneel, em até 15 dias, o relatório sobre os apagões de terça e quinta-feira.


A Aneel notificará a Light na próxima segunda-feira, dando início ao processo administrativo contra a empresa. Ele disse que em janeiro 12 técnicos da Aneel estiveram na Light e na Cerj para uma fiscalização preventiva e não encontraram sinais de problemas.


O apagão trouxe transtornos e prejuízos aos bares e às casas noturnas do Leme. Um único prédio se destacava na escuridão: o do Hotel Méridien com sua fachada iluminada pelas lâmpadas da ornamentação de Natal. A gerência explicou que a rede de sistema de abastecimento do prédio é outra, da subestação de Botafogo.


Com o ar-condicionado subitamente desligado, moradores acordaram com o forte calor e foram para as janelas. Na Gustavo Sampaio, alguns chegaram a descer à rua. Foi o caso dos amigos Alberto Otero Porto Alegre, de 33 anos, e Elton de Souza Lima, de 27, que não pouparam críticas à Light. O fotógrafo Antônio Kampffe, de 41 anos, morador Edifício Porto Sol, trabalhava em seu laboratório quando a luz faltou.


– Agora só nos resta torcer para que não aconteça um novo apagão durante o réveillon, que poderá provocar pânico entre as pessoas que vierem à Avenida Atlântica para assistir à queima de fogos – disse, resignado.


O governador Anthony Garotinho reafirmou ontem que sugeriu ao Governo federal, no ano passado, um plano de emergência para evitar possíveis quedas no abastecimento. Ele enfatizou que é preciso mais rapidez nas ações de Brasília:


– Esperamos que o Governo federal, que é responsável por isso (os apagões), adote medidas emergenciais para evitar problemas no verão – disse Garotinho.


O coordenador do Conselho da Zona Sul da Federação das Associações de Moradores do Município do Rio e presidente da Associação dos Moradores do Jardim Botânico, Sérgio Feijó, entrou na discussão para cobrar da Aneel resposta a um ofício que enviou em 1º de dezembro. No documento, Feijó pede que a agência concorde com a alteração do Programa de Combate ao Desperdício de Energia Elétrica da Light, no qual a empresa tem de investir um percentual de seu faturamento. A mudança – com a qual a Light concorda – permitiria que a empresa incluísse no programa a instalação de capacitores para reduzir a chamada energia reativa (produzida por motores, como os de elevadores e condicionadores de ar).


– Não podemos dizer que a medida impediria novos apagões. Mas ela reduziria o consumo de energia e, conseqüentemente, deixaria o sistema menos vulnerável.


A Light afirma, no entanto, que o sistema está trabalhando abaixo de sua capacidade. A empresa informou que há dois anos começou a cobrar pela energia reativa (acima de mil KWs) de menos de oito mil do universo de seus três milhões de clientes – aqueles que não instalaram capacitores.


Tarifa do Rio é uma das mais caras do mundo

Carla Rocha

Para a Light, pode ter sido uma tremenda infelicidade os últimos quatro apagões, mas a empresa, segundo especialistas, não tem como reclamar da tarifa – uma das mais caras do mundo – que garante margem de lucro capaz de fazer qualquer empresário feliz. De acordo com o engenheiro Roberto D’Araúj o , da ONG Ilumina, o carioca desembolsa US$ 120 por megawatt/hora pela energia residencial contra US$ 70 pagos pelos americanos em Nova York, por exemplo. Em estados como o Tennessee, que tem sistema estatal, o preço cai para US$ 60, mesma tarifa do Canadá.


– A margem de lucro de uma empresa como a Light, por exemplo, é recorde. A empresa alega azar, coincidências. Mas eu diria que tantas coincidências são um desafio às leis da probabilidade. Aposto mais na tese de que a privatização acabou com o planejamento do setor elétrico – afirma D’Araújo.


Não bastasse vender caro, segundo ele, a Light paga US$ 20 pelo megawatt/hora gerado por Furnas.


– Sendo que o custo da distribuição é muito inferior ao da geração – assinala.


Por isso, especialistas acham improvável que concessionárias como a Light façam investimentos em geração. Não fariam, eles explicam, porque teriam mais despesa do que atualmente têm comprando a energia a baixo custo.


Outro crítico é o físico Luís Pinguelli Rosa, da Coppe/UFRJ:


– Pagamos muito caro pela tarifa para nos preocuparmos com estas infelicidades. Como consumidor, só me interessa o serviço prestado. Cabe à Light fazer com que infelicidades não aconteçam. Se ela investiu errado ou se o fio esquentou, não é problema meu. Será que puseram uma fogueira embaixo do fio? – diz Pinguelli que, durante um apagão ocorrido há uma semana no Leblon, desceu 15 andares com o filho no colo. Pior foi ter energia para subir ao voltar uma hora depois e encontrar o prédio ainda sem luz.


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