Apesar das declarações otimistas das autoridades do setor, a situação é grave. A crise está apenas diminuída com a volta do período chuvoso. Temos dito…. Leia sobre as causa dos apagões
GLOBO 20/12/2000
Mônica Tavares
BRASÍLIA
Reforçar em 30% as equipes de emergência, aumentar de seis para 11 o número de geradores móveis, pôr o serviço Disque-Light funcionando 24 horas por dia a partir de hoje, ampliar as linhas de transmissão e podar árvores são as medidas que a Light decidiu tomar, em reunião ontem com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), para evitar novos apagões no Rio. A empresa, que já tinha sido notificada pela Aneel por causa do desligamento da subestação Frei Caneca – que deixou o Centro da cidade sem energia no último dia 13 – vai ser notificada novamente hoje pela Aneel por causa do apagão de sexta-feira passada, que deixou sem luz cinco mil consumidores do Leme e de Copacabana. Na prática, a notificação é o início do processo de punição contra a empresa, que tem prazo de 15 dias para se explicar.
– A Light seria fiscalizada em março pela Aneel, mas o trabalho de fiscalização na empresa foi antecipado para janeiro – anunciou o diretor da Aneel Luciano Pacheco.
A direção da Aneel se reuniu com o presidente da Light, Michel Gaillard. Um técnico da Aneel explicou que, embora a Light venha fazendo investimentos na melhoria e na atualização da rede, existem alguns problemas porque os equipamentos são muito velhos. Em 1998, a empresa investiu R$ 446 milhões na modernização do sistema de distribuição de energia; no ano passado, R$ 307 milhões; e este ano, R$ 320 milhões.
A rede subterrânea de energia de Botafogo, por exemplo, disse o técnico, é muito antiga e mais vulnerável a problemas. Já a rede subterrânea do Centro foi toda renovada.
Furnas também vai ser notificada
Pacheco disse que a Aneel tem preocupação em acompanhar cada desligamento de energia, para verificar as razões e a extensão do problema. Além disso, a agência quer que as empresas adotem providências para evitar novos desligamentos. Pacheco lembrou que o número de horas que a Light ficou sem energia nos primeiros nove meses do ano, incluídos os desligamentos programados, foi de 4,87 horas, quando o limite era de 12 horas.
Furnas Centrais Elétricas também está sendo notificada pela Aneel por dois apagões, o primeiro ocorrido no dia 12, quando houve um desligamento das subestações São José e Adrianópolis. Outro problema foi na subestação de Ivaiporã (PR), que desligou quatro geradores de Itaipu, no dia 14, deixando sem luz 12 estados e o Distrito Federal.
O presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Mário Santos, garantiu ontem que a quantidade de energia disponível este ano e o sistema de transmissão estão muito melhores do que em 1999. Segundo ele, o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas do país está mais alto.
Rio vai exportar energia em 2004
Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde estão localizados os maiores e mais importantes reservatórios do país, todos terminarão o ano com 25% de sua capacidade preenchidos, contra 18% em 1999. Essa diferença significa mais 11 mil megawatts/médios de energia.
Além de o nível dos reservatórios estar mais alto, disse o presidente do ONS, aumentou a quantidade de energia disponível. O país também conta com mais mil megawatts/médios de energia importados da Argentina; 1.300 megawatts/médios da usina nuclear de Angra II; e outros 1.300 megawatts/médios de usinas hidrelétricas (Itá e Porto Primavera) e termelétricas (Uruguaiana).
O mercado consumidor de energia, segundo ele, deverá crescer em 2001 cerca de 5%, o equivalente a 2,1 mil megawatts/médios, abaixo do aumento da oferta de energia.
Nos Estado do Rio e no Espírito Santo existe uma sobra entre 8% e 10% de energia no horário de pico, entre 18h e 21h, afirmou Mário Santos. Ele disse que, para uma temperatura entre 39 e 40 graus durante os meses de dezembro a abril, o consumo no horário de pico é de 7.850 megawatts. No entanto, estão disponíveis cerca de 8.700 megawatts de energia na ponta.
Mário Santos acredita que a partir de 2004, com as usinas termelétricas que deverão entrar em operação no Rio de Janeiro, o estado poderá se tornar exportador de energia no horário de ponta.
O presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, disse que a usina nuclear de Angra II poderá ser desligada pelo prazo de dez a 12 dias, para que um transformador que tinha apresentado problemas em outubro possa ser reinstalado. Firmino disse que o transformador está saindo hoje de Porto Alegre e até o próximo dia 24 deverá estar no Rio. Caberá ao ONS definir quando a usina será desligada.
Carla Rocha e Dimmi Amora
Pela terceira vez em quatro dias, Botafogo voltou ontem a sofrer com a falta de luz. Só ontem, a interrupção do fornecimento de energia aconteceu três vezes: das 12h39m às 13h; das 14h48m às 15h03m; e das 22h12m às 23h15m. Após as primeiras interrupções, a Light informou que o problema foi causado por um defeito no isolador da Rua Cesário Alvim, na altura do número 8. A empresa anunciou que o aparelho apresentava "defeito intermitente" e foi responsável também pelos dois últimos apagões na região. À noite, os técnicos ainda tentavam identificar a causa do blecaute que atingiu dez ruas do bairro, entre elas a São Clemente. As ruas atingidas, a maioria em Botafogo e algumas no Humaitá, foram as mesmas das vezes anteriores: Voluntários da Pátria, Real Grandeza, Humaitá, Eduardo Guinle, Conde de Irajá e Praça Radial Sul, além da São Clemente. Foi o oitavo dia consecutivo com corte de energia no Rio.
Por causa do apagão à noite, o 2º BPM (Botafogo) – que também teve o fornecimento de energia interrompido – reforçou o patrulhamento nas ruas afetadas. Muitos moradores que chegavam do trabalho tiveram de esperar pela luz na calçada. A Light explicou que estava investigando a origem dos sucessivos problemas em Botafogo desde que aconteceu a primeira interrupção, sábado à noite. Na ocasião, a concessionária divulgou que o motivo do apagão teria sido defeito num dos cabos subterrâneos da Rua São Clemente.
Moradora de um prédio de 18 andares na Rua São Clemente, Belinda Conceição de Souza contou, no entanto, que a luz faltou pelo menos cinco vezes ao longo do dia. Ela disse que telefonou para a Light, que a manteve esperando por meia hora na linha sem informar o sobre o problema. Ela contou que uma vizinha de 76 anos ficou presa num elevador durante um dos apagões e teve de ser socorrida por bombeiros.