O INIMIGO ESTÁ EM TODO LUGAR
Na década de 1990 e até uns poucos anos atrás, a hidroeletricidade no BRASIL em particular e no mundo em geral, foi demonizada por ingênuos ambientalistas e ONG’s histéricas e não tanto ingênuas, tudo permeado por um forte lobby da ENRON – monopolizando gás até ser desmascarada como quadrilha de estelionatários – e da GE, interessada em vender as turbinas a serem movimentadas por esse gás da ENRON. Tudo muito edificante.
A ELETROBRÁS e as concessionárias regionais, responsáveis pela maioria absoluta da geração hidrelétrica no Brasil, não escaparam dos ataques que muitas vezes partiam de dentro de casa. Na nossa CHESF os hidrelétricos eram olhados com desprezo como inimigos da MÃE NATUREZA, predadores insensíveis e sádicos que maltratavam humildes comunidades relocadas para implantação dos empreendimentos e formação dos reservatórios.
Alguns “iluminados” ao se referirem ao parque hidrelétrico da CHESF, motivo de orgulho em qualquer país do mundo, o faziam envergonhados e ressalvando que os procedimentos ali adotados eram do passado e que agora tudo seria diferente.
Como orgulhoso predador e tendo por mais de 30 anos agido como ensinou o CHE – hay que endurecerse, pero sin perder La ternura jamás – tentava , sem sucesso colocar racionalidade no debate :
· Qualquer empreendimento (hidrelétricas, campus de universidades, rodovias portos etc, etc) provoca em famílias relocadas, em geral humildes e abandonadas pelo Poder Público, dois tipos de perdas:
I. Perdas materiais, possíveis de serem quantificadas, indenizadas ou compensadas;
II. Perdas sentimentais, impagáveis e inapagáveis: ninguém vai conseguir fazer com que o relocado esqueça a casa onde nasceu, o cemitério onde repousam os seus antepassados nem as referências atávicas de sua vida, sossegada até o ESTADO – que nunca lhe dera educação, saúde, financiamento, assistência técnica, lazer – chegar decretando: “ você tem de sair daqui, pois tudo vai ficar debaixo d’água !” E o mesmo se aplica na construção de uma estrada, de um campus universitário etc, etc . Não construir o Empreendimento é o único benefício desejado pela esmagadora maioria dos que serão relocados.
Os ingênuos e os aproveitadores sempre fizeram questão de ignorar essa realidade. Usaram, e ainda usam, as perdas sentimentais dos relocados para fazerem proselitismo, aparecerem na mídia ou freqüentarem seminários e assemelhados, de preferência no verão de FLORIPA ou na EUROPA.
Na ELETROBRÁS, no início do GOVERNO LULA, a presidência da holding procurou, de modo elogiável, aprofundar o conhecimento do problema para, a partir daí, definir política de atuação.
Foi contratado um professor doutor, oráculo que derramava sabedoria para uma maioria de tietes embevecidos com tanta ciência.
Representando a CHESF nesses encontros, tive de suportar alguns meses de demonização dos empreendimentos hidrelétricos e execração dos predadores por eles responsáveis.
Já que citei o CHE, vejo hoje numa visão extremada, que escapamos da sugestão de serem criados paredons para justiçar os “inimigos do povo”
No renascer das hidrelétricas brasileiras, é útil relembrar três exemplos da amplitude do conceito de ATINGIDOS, então proposto, e do poder de decisão de que se desejava dotá-los:
1 – Se, com a construção de uma hidrelétrica, o dono de um bar numa cidade próxima fechasse o seu estabelecimento para abrir um restaurante nas vizinhanças do canteiro de obras, os garçons que não fossem aproveitados no restaurante deveriam ser considerados ATINGIDOS, cabendo ao “dono” do empreendimento hidrelétrico assumir a alocação de mão de obra que ficara ociosa “por culpa da hidrelétrica”!
2 – Se a construção de uma usina hidrelétrica proporcionasse energia elétrica para comunidades que usavam lampiões de querosene, os artesãos que os fabricavam deveriam ser cadastrados como ATINGIDOS , e o “dono” do empreendimento hidrelétrico deveria assumir a requalificação e reentrada dos fabricantes de lampiões no marcado de trabalho !
3 – Uma hidrelétrica só poderia ser construída depois de aprovada e autorizada pelos ATINGIDOS!
E tudo isto era dito para uma platéia onde uma maioria embevecida lançava olhares de reprovação para os que ousavam questionar as besteiras do professor doutor.
Como já comentado, a grande maioria dos futuros relocados sempre considerará a não construção do Empreendimento o maior benefício que poderão receber.
Encaminhamentos chegaram a ser produzidos para apreciação do CONSELHO DE DIRETORES da holding e subsidiárias, mas o nível de incoerência era tal que o grupo morreu de inanição.
Embora ainda timidamente, a hidroeletricidade está voltando a ser vista como a melhor opção para geração de grandes blocos de energia elétrica no Brasil.
Seria bom distinguir as PERDAS MATERIAIS das PERDAS SENTIMENTAIS e, sem perder a ternura, o Brasil voltar a sentir orgulho de construí-las.
João Paulo Maranhão de Aguiar
Engenheiro