Artigo de José Feijó: Belo Monte Virou “Geni”

 

         N O RE S T E                                                                                                                                 

                  BELO MONTE VIROU “GENI”

                                

                                Eng. José Antonio Feijó de Melo              

                                    Recife, 31 de agosto de 2010

 

Falar mal do aproveitamento hidrelétrico de Belo Monte virou moda. Parece até que todos acham que devem “jogar uma pedrinha na Geni”. Sem dúvida, isto faz parte do equivocado processo de demonização das hidrelétricas brasileiras, que se instaurou no País a partir do final dos anos 70 do século passado, como mostrado em artigo de minha autoria publicado em junho de 2008.[1]

Atualmente, as críticas a Belo Monte têm-se dirigido mais diretamente à concepção do projeto, mas na verdade elas traduzem uma aversão ao empreendimento em si, qualquer que fosse o projeto adotado, porque os autores dessas críticas, gratuitamente e de forma equivocada, assumem a premissa errada de que as hidrelétricas se constituem no maior agressor do meio ambiente, o que não é verdade! Quem assume tal opinião está na obrigação de apontar os desastres ambientais que eventualmente tenham sido provocados ao longo dos mais de 500 anos de história da construção de barragens para diversos fins, em todo mundo, e em mais de 120 anos de construções específicas para hidrelétricas. Não encontrarão.

Agora mesmo, acabo de tomar conhecimento de um artigo (?) assinado pelo Jornalista Washington Novais, intitulado Belo Monte será ‘uma vergonha’?, que me foi enviado por um amigo e, ao lê-lo, confesso que fiquei estarrecido e, como engenheiro e cidadão, indignado, pois não recordo de ter visto tantas bobagens técnicas e absurdos escritos juntos e com tanta convicção. Por isso, senti-me na obrigação de contestá-lo. É o que faço na seqüência.

Considerações Iniciais

Diria eu que a única observação correta e justa contida no citado artigo é a crítica apresentada logo de início, que segue transcrita na íntegra, quanto à “indiferença, surdez mesmo, com que os órgãos do governo federal envolvidos no projeto recebem as numerosas exigências de esclarecimentos que a sociedade tem feito”(sic). Endosso esta reclamação.

O Ministério das Minas e Energia, a Eletrobrás, a EPE e demais empresas e entidades responsáveis pelo projeto estavam e estão na obrigação de oferecer ao público todas as informações a respeito, incluindo a divulgação dos dados técnicos em toda a sua amplitude, mesmo porque, assim fazendo, eliminariam a possibilidade de questionamentos tolos, sem base ou fundamento técnico, como os que têm surgido com freqüência e repetem-se agora no artigo em questão.

Não posso falar em nome dos responsáveis pelo projeto de Belo Monte, porque não tenho qualquer vinculação com nenhuma entidade, pública ou privada, que esteja direta ou indiretamente envolvida com tal projeto. Desde que me aposentei, faz vários anos, a única atividade técnica que tenho exercido é a participação no Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético – ILUMINA, organização não governamental absolutamente independente, da qual sou um dos diretores. E aí, como engenheiro eletricista com muitos anos de experiência no setor elétrico nacional, tendo também atuado como Professor da Escola de Engenharia da UFPE na área de Conversão Eletromecânica de Energia por quase 30 anos, julgo-me em condições de colocar alguma luz neste debate, procurando esclarecer tecnicamente os equivocados questionamentos apresentados no artigo ora em análise.

Desde já, porém, faço questão de explicitar com a devida clareza que não estou aqui assumindo a defesa da concepção atual do projeto Belo Monte, mesmo porque não a conheço no nível de detalhes que seriam necessários para tal posicionamento. No entanto, não me furto de defender o projeto Belo Monte como opção pela fonte hidráulica para garantir as necessidades de energia elétrica que o desenvolvimento do Brasil reclama, por ser a alternativa mais conveniente para o nosso País. E estou certo que o atual projeto poderia ter sido bastante melhorado se a ele não tivessem sido impostas as equivocadas restrições que obrigaram a eliminação de um reservatório de regularização.  

Visando a oferecer a todos que me derem a honra da leitura uma maior facilidade para compreensão dos variados aspectos da questão, apresentarei as minhas contra-argumentações de forma seqüenciada, ponto por ponto, sobre cada um dos parágrafos constantes do artigo.

Contra-Argumentação

1 – Quais os acadêmicos que afirmam que o projeto de Belo Monte “não é necessário nem mesmo em termos de energia”(sic)? Reconheço que qualquer cidadão, acadêmico ou não, tem o direito de ser contra ou a favor do projeto de Belo Monte, ou de qualquer outro. Mas, ao manifestar sua opinião de forma pública, podendo influenciar outras pessoas, tem a obrigação de falar de forma fundamentada. Se é contra, dizer e justificar o porquê. Simplesmente afirmar de maneira gratuita que o Brasil não precisa da energia a ser gerada em Belo Monte é uma bobagem inadmissível. Quem diz isto demonstra que não entende nada de energia elétrica. Os técnicos competentes do setor elétrico nacional, ativos ou aposentados, sabem que o Brasil precisa dessa energia. E se ela não puder ser gerada em Belo Monte terá de ser em qualquer outro projeto.

Será que os acadêmicos da Universidade do Pará, citados no artigo, estão sabendo que hoje, 31/08/2010, toda a área do sistema alimentado pela usina de Tucurui, incluindo a capital Belém, não está sob regime de racionamento de energia elétrica porque está recebendo uma forte complementação do sistema Sudeste/Centro-Oeste? Para ser preciso, ontem, 30/08/2010, para suprir a carga total da área denominada Subsistema Norte, que atingiu 3.927 MW médios, a usina de Tucurui somente pôde gerar 3.371 MW médios, sendo os outros 556 MW médios (14,2 % do total) enviados do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste. Do contrário, teria havido racionamento com provável corte de carga. Cabe acrescentar que até a semana anterior esta transferência de energia era superior aos 1.000 MW médios e tudo faz crer que deva voltar a este patamar nos próximos dias.

Por que essas pessoas, ao invés de só se oporem às hidrelétricas, uma forma de energia limpa, renovável e barata, não se colocam contrárias à construção das térmicas a carvão mineral importado, em Fortaleza e São Luiz do Maranhão, ou ao monte de usinas a óleo combustível ou diesel, essas sim sujas, poluidoras, de fontes não renováveis e produzindo energia cara?

2 – Qualquer técnico, seja da Unicamp, do WWF ou de qualquer outra instituição que afirmar que “o Brasil pode ganhar metade da energia que consome hoje se fizer programas de conservação e eficiência energética, redução de perdas nas linhas de transmissão e repotenciação de geradores antigos” (sic) estará dizendo bobagem, falando sobre o que não entende. Deveria ter mais humildade e procurar se informar melhor sobre o assunto, para não passar recibo de incompetência. Os verdadeiros técnicos conhecedores do assunto, da Unicamp, do WWF ou seja lá de onde forem sabem que tais propostas não são exeqüíveis e não passam de sonhos.

2.1 – Conservação e eficiência energética são medidas importantes que devem estar presente no dia a dia do uso de qualquer fonte de energia. Mas não é na área elétrica onde elas são mais efetivas. Como nós técnicos sabemos, os processos físicos elétricos são aqueles que se realizam normalmente com os índices mais altos de eficiência, quando comparados a outros como, por exemplo, os processos de conversão térmica. Foi exatamente por isto que, logo após as crises do petróleo dos anos 70 do século passado, os programas de conservação e eficientização do uso da energia implantados em vários países desaguaram no aumento do consumo de eletricidade. Isto porque, em muitos processos produtivos, buscando-se fazer conservação e eficientização, promoveram-se mudanças para um maior uso da energia sob a forma elétrica.

Não é por acaso que hoje se pretende produzir automóveis com motores elétricos para substituir os tradicionais motores a explosão, cuja eficiência energética não chega a 50%, que utilizam os combustíveis fósseis poluidores e não renováveis, ou mesmo os que usam o etanol, enquanto os motores elétricos não poluidores possuem eficiência superior a 90%. Mas note-se, esta providência provocará certamente um grande aumento do consumo de energia sob a forma elétrica, não apenas no Brasil como em todo mundo. No entanto, com certeza ocorrerá um ganho significativo na conservação e eficientização energética global, desde que o volume adicional da energia elétrica a ser gerada não se faça a partir de carvão, óleo combustível, diesel ou mesmo gás.

No particular, pode-se ainda acrescentar que, em virtude do grande racionamento de 2001/2002, a população brasileira e também os grandes consumidores industriais promoveram de forma espontânea uma importante ação de racionalização do consumo, de modo que hoje restaria pouca margem para obtenção de novas reduções significativas.

2.2 – Por outro lado, como nós técnicos sabemos, o Sistema Interligado Nacional (SIN) é robusto, bem planejado e eficiente. Ao contrário do que dizem aqueles que não entendem do assunto, a perda global da rede básica (linhas de transmissão e subestações de alta tensão), decorrente dos processos físicos, é inferior a 2,5% da energia total que circula. Portanto, também por aí não haveria margem para milagres energéticos.

No entanto, algumas pessoas às vezes ouvem falar em perdas na distribuição da ordem de 20%, 30% ou até mais em alguns casos. E então pensam que se poderia recuperar toda essa energia, ou pelo menos grande parte dela. Mas aí está o equívoco dos não iniciados. A rigor, esses altos percentuais não traduzem perdas energéticas verdadeiras, mas sim perdas de faturamento. Ou seja, a maior parcela dessas ditas “perdas” não foi energia desperdiçada como pode parecer. Foi realmente de energia útil, consumida de fato em atividades úteis, porém “desviada” dos respectivos medidores não podendo assim ser faturada. Denominam-se “perdas comerciais”. Coibi-las não significaria economizá-las, mas sim faturá-las, a menos de uma parcela residual.

Uma menor parcela das perdas globais de distribuição, as chamadas “perdas técnicas”, decorrentes dos processos físicos da circulação da energia, na grande maioria das empresas distribuidoras não são elevadas, estão dentro dos padrões técnicos aceitáveis. Assim, também não seria pelo caminho da recuperação de tais perdas que se iria obter a energia elétrica que o Brasil precisa para alimentar o seu desenvolvimento.

2.3 – Quanto à “repotenciação de geradores antigos”, trata-se de outra balela. Antes de tudo, nós técnicos sabemos que a questão real não seria de “repotenciação” (aumento de potência), pois o que se precisa não é de potência. As nossas hidrelétricas já são “super-motorizadas” por filosofia de planejamento e de projeto. A nossa necessidade é de energia, isto é, da fonte primária de energia a ser convertida, seja ela o binômio água/queda, o vento, a queima de combustíveis, a fissão nuclear, ou seja lá o que for.

Talvez os especialistas citados queiram dizer que não estavam se referindo a “repotenciação” como aumento de potência das usinas, mas sim à possibilidade de melhorar o rendimento dos conjuntos “turbina/gerador” de usinas hidrelétricas antigas, de modo que elas pudessem gerar mais energia elétrica com as mesmas vazões e quedas. Ora, nós sabemos que teoricamente isto é possível. Mas alguém já se debruçou sobre a questão para verificar qual o ganho real de energia que tal providência poderia produzir de fato nas hidrelétricas brasileiras? E em que condições e a que custos? Não. Sabe-se apenas de um estudo acadêmico realizado sobre uma velha PCH, que certamente não constitui elemento suficiente para se tirar conclusões práticas sobre o todo.

Na verdade, constitui um equívoco supor que as usinas hidrelétricas antigas do sistema brasileiro estariam com os seus equipamentos parados no tempo, do mesmo jeito como foram instalados originalmente. Isto não é verdade. Primeiro, nem todas as nossas hidrelétricas são tão antigas quanto à PCH antes citada. Além disso, em geral, já quando construídas as nossas usinas utilizaram equipamentos com os mais altos rendimentos disponíveis. E mais, todas sempre tiveram seus programas de operação e manutenção elaborados e executados por equipes profissionalmente preparadas e competentes, de modo que ao longo do tempo as nossas hidrelétricas foram sempre incorporando as tecnologias mais modernas, incluindo-se a substituição de partes e componentes que na grande maioria as mantém operando com altos índices de eficiência energética. Um exemplo claro disso foi a implantação do sistema de supervisão, comando, e controle hoje operado pelo ONS, que engloba todas as nossas usinas, de Norte a Sul, Leste a Oeste, cuja instalação exigiu adaptações e modernizações em todas as usinas então existentes e particularmente em cada um dos seus geradores.

Eventuais ganhos que se pudessem acrescentar agora numa ou noutra usina provavelmente seriam pouco significativos e não compensariam a energia “não gerada” durante o tempo de paralisação para realização dos serviços. Em resumo, também não seria por aí que se poderia viabilizar as necessidades energéticas que o desenvolvimento nacional reclama.

3 – Não seria demais perguntar. Em que se baseiam os 38 especialistas que afirmam que houve “superestimação do potencial da usina onde a produção poderá cair para apenas 1 mil MW na estiagem” (sic)? Se eles estão certos disso, são eles que precisam provar os seus pontos de vista e não os engenheiros experientes que planejaram e projetaram a usina. Também não venham com esta história de politizarem uma questão técnica, afirmando que a definição do projeto da usina é uma determinação do governo. Não é! O projeto de Belo Monte, bom ou ruim, é um trabalho de engenheiros experientes que sabem o que fazem e não iriam cometer o absurdo que se supõem. A participação do governo é a decisão de fazer a obra, mas não o projeto. Os respectivos CREA’s e Clubes de Engenharia, ou os próprios autores do projeto, deveriam interpelar esses especialistas para que assumissem as suas acusações em debate aberto.

E quem são os técnicos que afirmam que praticamente toda essa energia de Belo Monte destina-se ao setor de eletrointensivos a serem exportados? Eles estão bem informados a respeito? Será que eles sabem que a própria região Norte do SIN carece de energia elétrica garantida para o seu consumo atual? Sabem que hoje, 31/08/2010, conforme antes mencionado, somente não estão sofrendo racionamento porque estão sendo socorridos com transferência de energia da região Sudeste/Centro-Oeste, uma vez que neste momento a usina de Tucurui não está em condições de garantir o abastecimento da região? Duvidam? Deem uma olhada no site do ONS.

4 – Quanto à eventual existência de divergências entre órgãos públicos sobre o projeto Belo Monte, todos sabem que o “governo”, como entidade global, não constitui um ente único, onde todos estariam obrigados a seguir monoliticamente as definições que emanariam de um núcleo central específico. Assim, não surpreende que existam divergências aqui e ali, alguns às vezes falando coisas certas, enquanto outras vezes se equivocando, como nas afirmativas que vão abaixo  transcritas, atribuídas pelo artigo a um órgão ligado ao governo: – “projetos como esse, que não contribuem para reduzir desigualdades regionais e sociais, não internalizam todos os custos, contribuem para o inchaço de cidades desprovidas de infraestruturas, para o desflorestamento, para perdas de diversidade biológica e cultural, para redução do fluxo hídrico, para geração de contaminação do solo, da água e do ar”(sic).

Seria mesmo possível uma simples usina hidrelétrica provocar tantos malefícios como os que foram listados? Não haveria algum exagero? Caso positivo, será que já foram avaliados os efeitos “nefastos” que teriam sido produzidos pelos milhares de hidrelétricas que já foram construídas no Brasil e no mundo, tanto em países pobres como nos mais desenvolvidos? E se forem barragens construídas para outras finalidades, sem inclusão de casa de força, também provocariam os mesmos efeitos negativos?

4.1 – A verdade é que tudo isto não procede. Os projetos hidrelétricos são exatamente aqueles que mais benefícios locais podem promover. São eles cuja maior parcela dos investimentos globais é destinada para obras locais, com uso intensivo de mão de obra e materiais da própria área e do seu entorno. Todo ciclo de construção de uma grande barragem pode efetivamente ser transformado num meio de se promover desenvolvimento local. Assim, a construção de uma hidrelétrica pode contribuir de fato para reduzir desigualdades regionais e sociais, ao contrário do que afirma o artigo. Isto está provado pela experiência brasileira em centenas de casos. Ao que se sabe, no próprio caso de Belo Monte o projeto inclui importantes obras de infraestrutura nas cidades de sua área de influência, envolvendo habitação, saneamento e abastecimento d’água, entre várias outras que certamente representarão grandes melhorias para a população.

4.2 – Quanto à questão de “desflorestamento e perda de diversidade biológica e cultural”, tratam-se igualmente de afirmativas sem base, gratuitas. Como qualquer coisa que o homem realiza sobre a face da terra, a construção de uma hidrelétrica causa um impacto local sobre o meio ambiente que, entretanto, não tem de ser obrigatoriamente negativo. Com a sua inteligência, o ser humano pode perfeitamente transformar este impacto para produzir melhorias. Assim, um projeto como Belo Monte pode muito bem criar meios, inclusive financeiros, para que se possa implantar e manter programas de proteção à floresta e às suas diversidades biológicas e culturais. É só uma questão de querer, planejar e executar seguindo padrões adequados e socialmente justos. Por acaso, o correto seria não construir a usina e deixar que nas cidades da sua área de influência as coisas continuem acontecendo do jeito que têm acontecido até hoje? Naquela área a floresta tem sido protegida adequadamente? As diversidades biológicas e culturais também? E as populações dispõem de serviços públicos de abastecimento d’água e saneamento, de educação e de saúde satisfatórios?

Não seria mais adequado que os especialistas que defendem a manutenção do status-quo e do imobilismo, ao invés de se colocarem contra o projeto, assumissem uma posição pró-ativa procurando interferir junto aos responsáveis para que as coisas sejam feitas corretamente, de forma a produzir benefícios para todos?

4.3 – Por outro lado, qual a base técnica de que se dispõe para se afirmar que uma barragem como a de Belo Monte, que nem sequer pretende acumular água, vai contribuir “para a redução do fluxo hídrico do rio (e) para a geração de contaminantes do solo, da água e do ar”(sic)? Parece surrealismo. Trata-se evidentemente de uma afirmação vazia, sem sustentação. O fluxo d’água do rio Xingu, no seu regime hidrológico natural, continuará a ser determinado pelo regime de chuvas na sua bacia hidrográfica, determinado pela Mãe Natureza independentemente da presença ou não desta barragem/usina de Belo Monte. Como já mencionado, não vai haver sequer acumulação para formação de grande espelho d’água e a água que vier no fluxo natural do rio simplesmente passará pela área do projeto, por dentro das turbinas ou não, e seguirá seu curso. Por que então iria haver contaminação (de que?) da água, do solo e muito menos do ar? Não se vislumbra razão para isto.

5 – Não é verdade que algum técnico do setor elétrico nacional tenha afirmado que o Brasil “precisa agregar 63 mil MW à sua potência instalada, em cinco anos” (sic), conforme explicitado no artigo. Mas se alguém falou, errou, pois este número é fantasioso. Para tirar qualquer dúvida, está aí o chamado Plano 2030, publicado pela EPE/MME, que fixa como meta para aquele ano a potência instalada total de 225 mil MW, portanto 115 mil MW a mais do que os 110 mil MW hoje (2010) existentes. Isto significa dizer que a previsão é de que nos próximos 20 anos será necessário agregar a cada cinco anos, em média, apenas 28 mil MW e não o número exagerado de 63 mil que foi afirmado no artigo sem qualquer fundamento.

Além disso, não creio que o ex-ministro da Agricultura tenha dito “que o Brasil ‘desperdiça’ energia equivalente a três usinas de Belo Monte com o não aproveitamento do bagaço de cana” (sic), como está expresso no artigo. Se disse, errou. Acredito que tenha falado algo parecido, mas exatamente isto, não. Com efeito, o Brasil nunca desperdiçou o bagaço da cana moída nas usinas e destilarias. Quem conhece o processo produtivo do açúcar e do álcool no Brasil, de longa data, sabe muito bem que o bagaço sempre foi utilizado para produzir energia dentro das usinas. Queimado, sua primeira função era e é produzir vapor para o processo industrial e através de turbo-geradores produzirem energia elétrica para as próprias instalações industriais e seus anexos. Como dizíamos antigamente aqui no Nordeste, uma usina bem “apontada” dispensava  fornecimento externo de energia elétrica, a não ser para começar a moagem. Era auto-suficiente. Mas este não era o caso mais comum, tendo em vista a baixa eficiência dos equipamentos então utilizados. Com o avanço da tecnologia e a crescente utilização de equipamentos mais modernos, com melhores rendimentos, o bagaço disponível passou a ser suficiente para suprir as necessidades energéticas próprias e ainda gerar excedentes para complementar o sistema nacional de energia elétrica. Esta é a palavra chave – complementar – e os técnicos do setor sucro-alcooleiro têm plena consciência desse importante papel da biomassa do bagaço da cana no sistema. O de complementar e não de substituir a fonte hidráulica. Aliás, é justamente por essa função de complementar o sistema hidrelétrico, que a energia oriunda do bagaço da cana encontra  maior viabilidade técnico-econômica. Os especialistas não deveriam esquecer que o bagaço representa uma disponibilidade energética sazonal, que por isso não pode assumir um papel autônomo, mas que se torna muito bem vindo como complementar.

Além do mais, não seria impróprio lembrar que o bagaço de cana poderá eventualmente ser usado em outras aplicações, digamos assim, mais nobres do que simplesmente ser queimado para conversão em energia. Entre as várias possibilidades, que os especialistas devem conhecer muito bem, vale a pena citar uma que está surgindo com forte expectativa, que seria a produção do chamado “álcool celulósico”, obtido do bagaço através da sua transformação intermediária em celulose.

6 – Outra impropriedade que tem sido recorrente no caso de Belo Monte, tal como repetido no artigo ora em discussão, é a afirmação de que o projeto não é bom e “está longe de ser do interesse nacional” por que as vazões do rio em anos de hidrologia desfavorável, em determinados meses, podem ficar muito baixas, pouco superiores a 400 m3/s. Existem até engenheiros que têm se pronunciado neste sentido, mas isto é pura bobagem. Nem todo engenheiro entende suficientemente de energia e particularmente de aproveitamentos hidrelétricos, que envolvem múltiplos aspectos, e mais especificamente desses aproveitamentos operando dentro de um grande sistema de energia elétrica como é o nosso sistema interligado. Isto é assunto para profissionais especializados.

Portanto, as tentativas de examinar esses valores de vazões isoladamente e daí opinar sobre as condições energéticas do aproveitamento são simplesmente ridículas. Os engenheiros que estudaram essa usina não são imbecis nem desonestos. Digo isto mesmo sem os conhecer, porque sei dos envolvimentos técnicos e da complexidade que constituem tais cálculos. A determinação da “energia firme” de uma hidrelétrica envolve muito mais complexidade do que imagina a “vã filosofia” daqueles que pretendem falar sobre o que não conhecem.

Para resumir, em linhas gerais, a energia firme de Belo Monte foi determinada por meio de complexos cálculos matemáticos, envolvendo modelos estocásticos probabilísticos que levam em consideração não apenas os dados sobre as séries históricas de vazões do rio, como também a inserção da usina dentro do sistema interligado considerando-se o correspondente período hidrológico crítico, sendo a capacidade a ser instalada (11.233 MW) estabelecida de forma a otimizar tecnicamente todo o processo. A energia firme da usina será então o valor médio da geração ao longo do período hidrológico crítico do sistema, absolutamente garantida dentro de uma margem de segurança probabilística previamente fixada. Sem dúvida, haverá meses em que a geração possível será bem menor (quando as vazões forem muito baixas), mas em outros será maior, de modo que na média vão ocorrer os 4.571 MW médios calculados, aprovados pela ANEEL, constantes do Edital de Licitação e correspondentes a 40.041.960 MWh anuais.

Para quem não é do ramo, cabe ainda informar que a capacidade instalada, além de garantir a geração maior do que a energia firme nos meses de melhores vazões, ainda pode aproveitar os picos de vazões que não podem ser garantidos nos limites dos critérios utilizados, mas que certamente vão ocorrer com maior freqüência do que as vazões mais baixas, criando assim aquilo que se chama de “energia secundária”, não garantida, mas existente de fato na maior parte do tempo.

Aliás, não seria demais lembrar que tem sido justamente essa energia secundária do nosso sistema hidrelétrico atual que tem garantido o abastecimento da carga total do mercado consumidor da forma mais econômica possível, mantendo-se paralisado grande número de usinas térmicas já contratadas, que embora faturem pela “disponibilidade”, causariam males muito maiores (ao preço da energia e ao meio ambiente) se tivessem de ser despachadas para gerar de fato com maior frequência. A propósito, neste momento as disponibilidades hídricas do nosso sistema não estão muito favoráveis e diversas térmicas estão gerando para garantir o abastecimento sem maiores riscos. A conta logo chegará nas tarifas.

Em última análise, a pretensão de se raciocinar apenas com as vazões no local do empreendimento, de forma estática, para tirar conclusões que somente podem ser alcançadas por cálculos complexos, certamente conduz a sérios equívocos, conforme se observa no presente caso.

7 – Por último, o artigo apresenta, à guiza de “conclusão final”, aquilo que se poderia considerar de “equívoco final”. Afirmar, sem qualquer base ou conhecimento técnico específico, que Belo Monte será capaz de gerar “apenas um quarto da produção anual de Itaipu” (sic). Esta afirmação está completamente errada e não deveria ter sido feita de forma tão inconseqüente. Somente isto já seria suficiente para desqualificar todo o artigo, se já não fosse ele pleno de incongruências.

Com efeito, conforme já mencionado, a energia firme de Belo Monte foi determinada e aceita como sendo de 4.571 MW médios. Se fosse “apenas um quarto da produção anual de Itaipu”, significa dizer que a energia firme de Itaipu seria de 4×4.571 MW médios, isto é, 18.284 MW médios. Ora, o autor do artigo sabe qual é a energia firme de Itaipu? Sabe qual é a capacidade instalada em Itaipu? Certamente que não, pois se soubesse não teria afirmado o que afirmou.

Pois bem, a capacidade instalada em Itaipu é de 14.000 MW, composta por 20 geradores de 700 MW cada um, dos quais a metade pertence ao Brasil e a metade ao Paraguay. Mas esta ainda não é a sua energia firme, que de fato corresponde ao total de 8.612 MW médios. Isto significa dizer que a geração anual de Belo Monte será de 53% da de Itaipu, ou seja, mais da metade desta e não apenas um quarto, como foi indevidamente afirmado no artigo.

Conclusão

Para terminar, gostaria de acrescentar que, se o articulista conclui afirmando que as questões por ele apresentadas são graves e precisam de resposta, aí estão elas, acima, tecnicamente explicitadas com razoável nível de detalhes.

Todavia, a mim cumpre informar que evidentemente não falo em nome de qualquer autoridade, porque não sou do governo nem de nenhum órgão integrante do setor elétrico, privado ou público. Ao contrário, como membro do Instituto ILUMINA, tenho sido um crítico feroz da atual política do setor elétrico, especialmente quanto ao seu modelo mercantil, responsável direto pela absurda elevação das tarifas aos consumidores finais, os chamados cativos, que constituem a quase totalidade da população, enquanto proporciona aos ditos “agentes investidores” ganhos elevadíssimos e inadmissíveis em qualquer país do mundo para um serviço público essencial, prestado mediante concessão, como é o caso do serviço de energia elétrica.

E finalmente, como aliás já mencionei de início, mais uma vez faço questão de ressaltar que o atual projeto de Belo Monte de fato não é o ideal. Ele poderia ser bem melhorado se a equivocada oposição às hidrelétricas reinante no Brasil não tivesse obrigado a se eliminar qualquer possibilidade de inclusão de um reservatório de regularização, impondo assim a solução “a fio d’água”.

Este foi e é um grande erro daqueles que se opõem gratuitamente às hidrelétricas, dando um tiro no pé ao possibilitarem a profusão de usinas térmicas a óleo combustível, diesel, gás e até o hoje inaceitável carvão mineral (importado), todos combustíveis poluentes, causadores de aquecimento global, de chuva ácida e não renováveis, em detrimento da fonte energética hidráulica, limpa e renovável, cuja disponibilidade constitui uma enorme vantagem comparativa para o nosso Brasil.

Em resumo, falo em termos pessoais, mas estou certo de que conto com o apoio dos meus companheiros do ILUMINA.     


[1] O Incidente de Altamira e as Hidrelétricas Brasileiras (www.ilumina.org.br)

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