N O R D E S T E
HIDRELÉTRICAS
FIO D’ÁGUA OU RESERVATÓRIOS
Eng. Felício Limeira de França
Eng. José Antonio Feijó de Melo
Como parte das discussões que se vêm travando no Brasil sobre as usinas hidrelétricas e, em particular, sobre as equivocadas restrições impostas à inclusão de reservatórios de regularização nessas usinas, o Jornalista Alexandre Canázio, da Agência CanalEnergia, publicou no dia 28 de janeiro passado interessante Reportagem Especial sobre o tema, destacando que o “Setor volta a debater a necessidade de nova capacidade de armazenamento de água, no momento em que as novas usinas hidrelétricas são projetadas a fio d’água”.
Na reportagem foram incluídos depoimentos de dirigentes do setor, de alguns consultores especializados e de um representante de entidade de defesa do meio ambiente. No dia 31 de janeiro próximo passado o ILUMINA reproduziu a matéria no seu site, na seção de Estudos Especiais, com a seguinte chamada: “Reservatórios: discussão esquenta”.
Sem dúvida, a referida reportagem é bem escrita, de leitura fácil, mas surpreende pela fragilidade de alguns argumentos baseados apenas em aspectos subjetivos, não condizentes com a relevância do assunto nem com as posições ocupadas por quem os expõem. Em poucas palavras, não parece coisa de engenheiro. Não obstante, está certo aquele que afirma já ser tempo de se quantificar o custo ambiental criado por um dado reservatório, para então se poder cotejá-lo com o correspondente benefício que ele traria para a sociedade como um todo, de modo que a decisão sobre sua construção possa ser tomada a partir de critérios objetivos.
Assim, entendemos que as discussões em torno do assunto dentro do setor elétrico deveriam ser conduzidas sob bases técnicas, através de estudos comparativos de simulações da configuração do sistema eletro-energético considerando-se hipóteses alternativas com e sem novos reservatórios de regularização para um horizonte definido, digamos, quinze ou vinte anos.
Esses estudos seriam divididos em duas fases. Na primeira, seriam examinados o conteúdo energético e a operacionalidade de cada hipótese, simulando-se cada caso com graus variados de participação das fontes ditas alternativas (eólica, solar, biomassa, etc.). Para definição da participação das fontes eólica e solar, a simples simulação energética (balanço) não seria suficiente. Seria preciso também estabelecer para cada configuração do sistema o grau de penetração dessas fontes alternativas em função da resposta dinâmica das demais fontes. Em outras palavras, se determinaria, por exemplo, até onde os reservatórios existentes comportam o aumento da participação das fontes alternativas.
Lembremo-nos que por suas características dinâmicas diferentes (ramping), hidráulicas e térmicas não são energeticamente equivalentes na substituição de fontes de alta variabilidade, como a eólica e a solar. Já a sazonalidade da biomassa pode ser coberta por qualquer uma das duas fontes, hidráulica ou térmica.
Além disso, também deveriam ser determinadas para o horizonte de estudo uma ou mais alternativas de mercado de energia elétrica para possibilitar a simulação mês a mês das hipóteses de configuração do sistema estudadas.
Nessa primeira fase dos estudos seriam obtidos as energias firmes e o desempenho operacional (incluindo comportamento dinâmico) de cada uma das hipóteses analisadas.
Na segunda fase seriam estudados os custos e os preços da energia. Em particular, seriam determinados os custos de implantação e de operação e o preço da energia produzida para cada uma das hipóteses. Os custos de implantação deveriam incluir as compensações definitivas por impactos sócio-ambientais, enquanto os custos operacionais seriam gravados pelas compensações de caráter permanente decorrentes dos mesmos impactos, tais como royalties ou outros. Na determinação do preço final da energia produzida, a existência de eventuais subsídios deveria ser explicitada.
De posse dos resultados dessas simulações seria então possível iniciar um debate conseqüente sobre o tema. Sem dados concretos como esses, o lado mais desinformado (embora talvez não o saiba), mais ideologicamente motivado e mais “na moda” irá prevalecer, por certo. Isto não significaria dizer que Deus não possa escrever certo por linhas tortas, como pensam os crentes. No entanto, entendemos que a engenharia nacional não pode e não deve abrir mão das ferramentas de análise de que dispõe para abordar em profundidade uma questão de tamanha relevância. E reafirmamos que o debate feito apenas com base em palpites e opiniões pré-concebidas, ideológicas ou não, sem a devida consideração dos elementos técnicos, econômicos, sociais e ambientais, não chegará a bom termo.
Recife, 20 de fevereiro de 2011