Comentário: Felizmente, o artigo do Dr. Paulo Ludmer contabiliza corretamente o quanto vai custar a redução tarifária carnavalesca. Artifícios contábeis, metamorfose de tarifas em impostos e, principalmente, uma enorme seqüela na Eletrobrás. A nosso ver, o que falta nessa análise que trata do futuro da oferta de energia, seria uma pequena palavra sobre o tipo de demanda que estamos planejando para o futuro.Basta consultar o PDE 2020 para perceber que a característica “energívora” da economia será aprofundada. Até lá, setores eletrointensivos mais do que dobram sua produção. Alguns exemplos: Alumínio (166%), Siderurgia (203%), Ferro Ligas (202%), Cobre (351%), Celulose (192%) e Soda Cloro (165%). Um país que se dispõe a ser o fornecedor de produtos básicos para o mundo deve entender que, ao fazê-lo, está assumindo os riscos e custos do desenvolvimento das novas fontes de energia. Entre os problemas, a ilusão de que seria possível recuperar uma relação mais confortável na relação reserva/carga. Com esse tipo de expansão da demanda? Acho que o Dr. Ludmer não fez as contas.
A rigor, a meu ver, caminhamos para maior insegurança e devemos o fato ao ambientalismo equivocado. Se não no risco de déficit, certamente na elevação de custo
Paulo Ludmer, consultor, para a Agência CanalEnergia, Artigos e Entrevistas
07/03/2013
O cenário degradado dos fundamentos econômicos brasileiros, em março de 2013 são: inflação indômita; baixo crescimento do PIB; déficit nas contas correntes; balança comercial no negativo; taxa de juros em viés de alta; câmbio sob mistério; balanço fiscal sob camuflagem; salários acima do indicado pela competitividade da economia; infraestrutura inválida; investimentos insuficientes; formação bruta de capital anêmica; insegurança jurídica e regulatória.
Em meio a isso, as Medidas Provisórias 577 e 579, já convertidas em Lei, botaram lenha adicional à fogueira. A Eletrobrás (Furnas, CHESF, Eletronorte e Eletrosul) saiu despedaçada. Somente Furnas demitirá um terço de seus quadros, parte dos quais permitem supor que a concessionária era inchada e gordurosa e que, doravante, será esquelética com tocos de ossos. A capacidade de investir das estatais segue em frangalhos.
No 36º Fórum de Debates Brasilianas, em São Paulo, dia 26 de fevereiro último, assisti apreensivo a fala de Altino Ventura , emérito brasileiro, secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME). Destaco que ele – sem despertar inveja – procura responder “como viabilizar a energia do amanhã”.
Naturalmente, os bons fotogramas vêm na vitrine: “O Brasil passará de importador a exportador de energia”, referindo-se ao Pré-Sal. Mas, no meu histórico, lembro-me de haver visitado a Plataforma P-50 da Petrobrás e de escrever em seguida, para aborrecimento de meu anfitrião, G. Estrela, então diretor de exploração da estatal, que era puro fogo de artifício a tal da autosuficiência brasileira em petróleo. Minha expressão: “a escuridão piora depois”.
Ventura me surpreendeu com o prognóstico de que a autoprodução de energia elétrica terá papel relevante na expansão da oferta de energia elétrica: 13 GW nos próximos 80 GW por ele contabilizados (8 GW/ano).
E pessoalmente me disse que na sua conta não estavam as usinas hidrelétricas da ABIAPE (2 GW de autoprodutores), que há dez anos lutam contra a cobrança de outorga onerosa (pelo Ministério da Fazenda) de obras que o meio ambiente não deixa começarem. Entre elas a UHE de Santa Izabel.
A sociedade tende a mudar bastante. A inclusão de milhões de brasileiros em extratos de renda mais altos implica em grande aumento na demanda de energia elétrica. Em suma, evolui a imprevisibilidade. Ainda assim, o MME banca que 46% da expansão decenal ainda serão hidráulicos, 18% eólicos e 13% de bagaço de cana.
A introdução de progressos tecnológicos em carvão mineral e na nucleoeletricidade não se implantam neste período? Nem a fotovoltaica, nem a geotérmica, maremotricidade, algas, gás de lixo e outras excentricidades de ocasião: “ A biodigestão é pequena na matriz”, argumenta.
Na mesma mesa da Brasilianas, Hermes Chipp, titular do Operador Nacional do Sistema, contracenou com Ventura, preocupado com o fomento de energias renováveis na matriz elétrica. Estamos aprendendo a manejar as flutuações (produção, tensão, freqüência) das eólicas, por exemplo.
Da fatalidade no back up do emprego das usinas térmicas, registrou que, de 2013 a 2017, a capacidade de armazenagem hidráulica se manterá. Em 2020, o armazenamento corresponderá ao abastecimento de apenas 3,5 meses de um ano, em cada calendário, “O que será pior, térmica na base?, inseriu. A rigor, a meu ver, caminhamos para maior insegurança e devemos o fato ao ambientalismo equivocado. Se não no risco de déficit, certamente na elevação de custo.
E assim voltamos à obstinação (MP 579) de Dilma Rousseff em abaixar o preço final de energia, às expensas do Tesouro, quando os ventos empurram ao contrário. O Brasil carece é de uma reforma tributária completa, diante de um estado enxuto, poderoso e investidor. Basta de tantas despesas correntes.
Também nos detalhes, circulam os capetas. Por exemplo: o Operador não utiliza o mesmo modelo de simulação que o MME. A aversão ao risco, os cálculos do Custo Marginal de Operação e do Preço de Liquidação das Diferenças deveriam convergir para o mundo real.
Mas já se faz festa de fabricantes e consultorias em torno da geração distribuída, eólicas domiciliares, casas geradoras, smart grid, num interminável carnaval de oportunidades e espertezas. As sociedades alemãs e espanholas, entre outras, já brecaram as pressões sobre as contas públicas promovidas pelas poesias renováveis.
E nós aqui preparando o desfile de carros elétricos…
Paulo Ludmer é jornalista, engenheiro, professor (Mack e FEI-PUC), conselheiro da Fecomércio, e autor de Sertão Elétrico (Art Liber, 2010) e Derriça Elétrica (Art Liber, 2007), entre outros.
