Chegando no fim da festa

O modelo é híbrido. Uma banda é serviço público e a outra mercado livre.Na primeira, tarifa regulada onde estão, cativos,os pequenos consumidores. Pequenas indústrias, pequenas empresas, o comércio em geral e as residências ricas e pobres.


Na segunda, vende-se por quanto quiser, para quem quiser. Nesse ambiente a la década de 90, só os grandes, que podem ser livres. Exatamente como propunha o modelo do governo anterior!


O racionamento, a recessãoe a permissividade em aceitar contratos cujos valores são o TRIPLO do praticado no mercado provocou uma sobra de energia. Como somos um país de cabeça para baixo, sobrou a energia mais barata. Sem remuneração e obrigados, gerar e vender pelo preço do MAE, que continua a mesma caixa preta do passado, a energia barata, QUE DEVERIA SER PÚBLICA, corre atrás dos grandes consumidores, e SE TORNA PRIVADA.


A vida real mostra que estamos tornando a energia até 40% mais barata para os grandes. Ora,qualquer indústria tem custos que devem ser pagos. Se esses descontos eram “gordura”, deveriam ser apropriados pela sociedade como um todo. Se não forem “gordura”, alguém vai ter que pagar a diferença.


O novomodelo, incompleto,algum dia,vaiperceber e proibir a festa. Só que vai chegar, muito tarde,quando os”brindes” já tiverem acabado.



Grande empresa adere à compra direta de energia (Estado de S. Paulo 14/5/04)
Sem regulação do governo, preços nos contratos chegam a ter descontos de 60%


RENÉE PEREIRA




O excesso de energia elétrica no País, ainda resquício do racionamento de 2001, tem encorajado várias empresas a deixar as distribuidoras e comprar eletricidade direto das geradoras ou comercializadoras. Com a mudança, elas abandonam o regime de tarifas reguladas pelo governo (cujos reajustes estão acima dos índices de inflação), ganham maior poder de negociação no preço da energia e, conseqüentemente, melhoram a competitividade de seus produtos. Os descontos no valor da energia podem chegar a 40%, comparado ao das concessionárias.


Apesar de esse tipo de negociação ter sido regulamentado em 1998, o movimento de migração para o mercado livre se intensificou a partir de 2002 com o fim do racionamento, diz o superintendente da Delta Comercializadora de Energia, Mateus Aranha Andrade. Com os novos hábitos dos consumidores, as geradoras ficaram sem ter para quem vender a energia produzida. Se optassem pelo mercado atacadista, o MAE, o preço não sairia por mais de R$ 18,50. A solução foi fazer contratos bilaterais com as empresas, mas oferecendo um preço bastante atraente.


O cenário coincidiu com a maior disposição das empresas para correr risco.


“E quando uma companhia resolve ir para o mercado livre ela leva consigo outras empresas, que não podem perder competitividade”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Comercializadoras de Energia Elétrica (Abraceel), Paulo Cezar Tavares. Segundo ele, a estimativa é de que hoje os consumidores livres já representem 11% do mercado nacional e somem 156 clientes.


Boa parte deles está na indústria, especialmente no setor químico e petroquímico (20%), siderurgia e metalurgia (14%), cimento (14%) e papel e celulose (10%), conforme dados da comercializadora Comerc. Uma das estreantes no mercado livre este ano foi a empresa de papel Santher. Ela firmou contrato de compra de 25 megawatts (MW) com as estatais Furnas e Copel para o fornecimento de energia durante 8 anos. O volume abastecerá as quatro fábricas instaladas no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais.


Segundo o diretor da Unidade de Papéis Especiais e Exportação, Alexandre Tattini, durante a vigência do contrato, a expectativa é de economizar R$ 17 milhões com o consumo de energia, que representará uma redução de 11% do custo de produção. “Com a sobra das geradoras, o preço ficou muito bom“, argumenta. A opção da empresa significará a não renovação dos contratos com quatro distribuidoras, entre elas a Eletropaulo.


Além da Santher, outras companhias como Copebrás, Paramount Lansul e Elma Chips entraram para o mercado livre neste ano. O maior contrato, no entanto, foi firmado entre a estatal Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e o Sistema Usiminas (Usiminas e Cosipa), no valor de R$ 1 bilhão.


Foram negociados 350 MW médios durante 5 anos, com início previsto para janeiro de 2005 e término em dezembro de 2009. O volume equivale a 1,2% do consumo nacional e 2,4% do industrial – ou 2,5 vezes o consumo da cidade de Belo Horizonte. Segundo a Delta, que intermediou o negócio, a Cosipa era consumidora cativa da CPFL Piratininga e a Usiminas, da distribuidora Cemig.


A Albras – empresa de alumínio e maior consumidora individual do Brasil – também renovou seu contrato, por 20 anos, com a Eletronorte, que fornecerá cerca de 750 MW no período de 2004 a 2006 e 800 MW entre 2007 e 2024.


O diretor da Comerc, Marcelo Parondi, afirma que o processo de migração de cativo para livre tem ocorrido de forma acelerada. Isso porque o aumento das tarifas das distribuidoras tem sido substancial para a indústria – uma forma de eliminar os subsídios cruzados que elevavam o preço da energia cobrada do consumidor residencial. Mas, ao mesmo tempo em que as geradoras conseguem vender parte da energia que estava sobrando, as concessionárias perdem seus contratos.


A venda de energia da Eletropaulo para a indústria, no primeiro trimestre deste ano, caiu 400 gigawatts (GW) comparado a 2003, afirma o analista do BBVA, Sérgio Tamashiro. Mas, na avaliação dele, a tendência é de que a perda de receitas decorrente da migração seja compensada pelas tarifas de uso da rede. Os consumidores livres têm de pagar pela transmissão.


O secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Maurício Tolmasquim, afirma que algumas medidas estão sendo definidas para impedir um descontrole no fornecimento. Assim, os clientes cativos terão até 36 meses para comunicar às distribuidoras que se tornarão livres. Quem quiser retornar ao serviço das distribuidoras, no entanto, terá de avisar com cinco anos de antecedência.

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