Como se vê, ao contrário do que diz o govêrno, a questão da confiabilidade da energia nos mercados desregulamentados está longe de ser uma receita pronta para ser exportada. Infelizmente a elite que está no poder anda importando qualquer coisa, mesmo que esteja inacabada.
Transcrito de O Estado de São Paulo de 12/05/2000
Desregulamentação elétrica faz EUA ficar sob risco de blecaute
Por Rebecca Smith, Wall Street Journal
Os Estados Unidos estão prestes a entrar no verão diante de uma ameaça nada refrescante: pode faltar energia para o ar-condicionado.
Em bolsões no país, de Nova York a New Orleans, e de Chicago a São Francisco, devem acontecer blecautes à medida que os dias ficam mais longos e a temperatura sobe. A Costa Leste teve um gostinho do que vem por aí esta semana, quando foi atingida de surpresa por uma onda de calor, em meio ao fechamento de várias geradoras para manutenção. As companhias de geração e distribuição de eletricidade reduziram a produção temporariamente e pediram a colaboração de grandes indústrias e das pessoas para não abrirem a geladeira sem necessidade.
"Teremos blecautes e blecautes parciais este verão", diz o secretário de Energia do país, Bill Richardson. "Os EUA são uma superpotência, mas têm uma infra-estrutura de eletricidade de um país de Terceiro Mundo."
Uma década de boom econômico é uma das causas do problema. Os americanos gastaram muito em eletrodomésticos, aumentando a demanda num ritmo superior ao da criação da capacidade. A outra razão importante é a desregulamentação. O relaxamento das leis que regulavam como a energia é gerada, distribuída e vendida deveria ter aumentado a concorrência e a eficiência. Mas o processo de liberação, que já dura quatro anos, até agora gerou mais confusão que melhorias.
Os números são espantosos. Os EUA têm geradoras com capacidade de 780 mil megawatts num dia de verão. Mas, neste verão serão necessários no mínimo 780 mil megawatts, segundo estimativas do Departamento de Energia. Sobra pouco e, de qualquer forma, a energia nem sempre chega aonde é mais necessária. O superávit de capacidade encolheu 60% na última década.
Nos velhos tempos, uma companhia gerava e distribuía a eletricidade a seus clientes em território exclusivo. Para proteger consumidores, os preços eram regulados. O resultado era uma tremenda confiabilidade, mas também ineficiência e desperdício.
A desregulamentação, que ocorre em 24 dos 50 Estados do país, muda essa estrutura e permite novas empresas – algumas afiliadas às primeiras companhias, outras não – construir novas geradoras e vender eletricidade. Os preços são estabelecidos no esquema de concorrência. O risco fica com os investidores, não com os consumidores. Ao mesmo tempo, as velhas companhias estão abrindo mão do controle de linhas de transmissão para novas operadoras sem fins lucrativos, cujo objetivo é garantir acesso justo à infra-estrutura de eletricidade dentro do sistema multiestadual de linhas de alta voltagem.
O resultado: um sistema nacional de eletricidade vulnerável a interrupções causadas por falha de equipamentos e erro humano, à medida que operadoras regionais recém-estabelecidas assumem responsabilidade por áreas muito maiores do que antes administradas por companhias locais. Para os grandes consumidores de energia, como a indústria pesada, que esperavam que a desregulamentação fosse trazer queda nos preços – e não na confiabilidade – a experiência tem sido preocupante.
A Oracle Corp., de sua parte, não está arriscando. Vacinada por uma falha de energia em agosto de 1996, a gigante do software gastou mais de US$ 6 milhões para construir sua própria central elétrica, capaz de suprir milhares de servidores com eletricidade em sua sede na Califórnia. Grandes empresas do setor industrial fazem isso há décadas, e agora outros consumidores de energia comercial começam a seguir o exemplo.
Para essas empresas, o risco de ficar sem eletricidade não deve acabar logo. a natureza incompleta da desregulamentação produziu uma paralisia de planejamento que pode ter consequências de longo prazo. As companhias de eletricidade da velha guarda resistem em acrescentar capacidade, temendo não recuperar seu investimento num mercado realmente competitivo. as geradoras independentes, que deveriam preencher a demanda, ficaram na espreita até descobrir quais mercados seriam os mais lucrativos. E as autoridades reguladoras, que ficavam na dúvida se deveriam impor a aplicação de velhas regras ou ajudar a derrubá-las, deixaram a situação continuar