Confidencialidade ou Obscurantismo?
No modelo mercantil, o Mercado Atacadista de Energia (MAE) registra todos os fluxos comerciais entre empresas. O acordo de mercado, um tipo de estatuto assinado entre os agentes do setor, exige confidencialidade total sobre esses dados. Essa falta de transparência é fatal para a eleboração de um diagnóstico preciso sobre a situação do setor. Contas simples mostram o nível de dúvidas que pairam sobre nossas cabeças. O total de energia assegurada do sistema gira em torno de 35GW médios. Acrescidos da energia de Itaipú, algo como 7,6 GW médios, atinge 42,6 GW médios. Ora, o mercado total em dezembro atingiu 41,5 GW. A "confidencialidade" vira obscurantismo quando contratos bilaterais são segredo. Ora, notícias têm veiculado que por volta de 4 GW médios estariam "sobrando". Entretanto, a comparação do total de energia assegurada com o mercado não mostram essa sobra real. A sobra, na realidade, seria descontrato, ou seja, geração comercializada pelo preço "spot", paga por uma "mixaria" no entorno de R$ 4/MWh. Como a ANEEL exige que 95% do mercado esteja contratado, tem alguem comprando a R$ 4 e vendendo ao preço do contrato, que, evidentemente não é R$ 4. Um belo negócio, só proporcionado pelo modelo vigente. Outra questão é: O mercado caiiu e estamos hoje no nível de consumo do ano 2000. Quer dizer que se não tivesse caido estariamos atendendo a carga com energia sem garantia? Outra vez?
Estado de S. Paulo 27/02
Excesso de energia leva ao desperdício de água de Itaipu
Antes, o objetivo era aproveitar o potencial máximo do reservatório dessa hidrelétrica
ALAOR BARBOSA
RIO – O que parecia impossível há um ano, quando o País se preparava para sair de um período de racionamento de energia elétrica que durou nove meses, está acontecendo: o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) está tendo de permitir o "desperdício" da água do reservatório de Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo. Responsável pelo abastecimento de 20% a 25% do consumo nacional, a situação atual de Itaipu é o sinal mais evidente da grande sobra de energia que o País passou a ter desde o final do ano passado, menos de um ano após o fim da restrição forçada do consumo.
Por ser um usina "fio d’água", ou seja, quase sem reservatório para acumulação e uso posterior, e por estar "no fim da linha" – após todas as hidrelétricas nacionais -, a preocupação do ONS é aproveitar até o último pingo d’água de Itaipu para gerar energia. Ao liberar água sem que esta acione as turbinas , o ONS indica claramente a grande sobra e a situação tranqüila em termos de abastecimento de energia para os próximos anos.
O desperdício de água de Itaipu está sendo facilitado pelo grande volume de chuvas nas bacias do Tietê e do Paranapanema, onde a maioria das hidrelétricas também é do tipo "fio d’água", sem grandes reservatórios. E está ocorrendo após os reservatórios da bacia do Rio Grande (divisa de Minas Gerais com São Paulo) atingirem quase o limite máximo. A represa de Furnas, por exemplo, a maior do País, está com 94,35% de ocupação. Os reservatórios da bacia do Rio Paranaíba estão em torno de 70%, enquanto na Região Sul quase todos estão acima de 90%. Até a Região Nordeste tem folga este ano, segundo o ONS. O reservatório de Sobradinho está com 41,74% da capacidade e o de Três Marias com 52%.
Termoelétricas – A situação tranqüila dos reservatórios ocorre num período normal de chuvas, pelo acompanhamento do ONS. No ranking de 72 anos de acompanhamento sistemático do índice pluviométrico brasileiro, o atual período molhado (de novembro a março) sequer deverá ficar entre os 20 melhores. Ou seja, o País já registrou períodos com chuvas muito mais intensas do que o atual.
Esta situação tranqüila está levando o ONS a reduzir de forma expressiva a geração de energia elétrica por parte das termoelétricas, apesar da inauguração de várias usinas no segundo semestre do ano passado. Em dezembro, por exemplo, enquanto as hidrelétricas produziram 114 mil MW médios de energia, com aumento de 24,8% em relação a dezembro de 2001, as térmicas registraram queda de 46% na produção, com a geração de apenas 4 mil MW médios. Esse volume é pouco superior ao da produção das duas usinas nucleares do País (Angra 1 e Angra 2), que geraram 3,7 mil MW médios em dezembro, com aumento de 12% em relação a dezembro de 2001.
Na avaliação de um experiente técnico do setor elétrico, as térmicas poderiam estar em ritmo até mais lento, não fosse a necessidade do ONS de tentar otimizar as linhas de transmissão. O que indica que as empresas que investiram na construção das termoelétricas, especialmente a Petrobrás, dificilmente conseguirão algum resultado positivo este ano.
Estado de S. Paulo 27/02
BNDES acompanhará empresas que financia
Banco cria gerência de acompanhamento para evitar problemas como os que tem com a AES
NICOLA PAMPLONA e ADRIANA CHIARINI
RIO – O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) criou uma gerência geral de acompanhamento de empresas, para verificar a situação dos grupos com que tem financiamento e evitar problemas como os que vem tendo com a AES, controladora da Eletropaulo. Essa gerência ficará ligada à área de crédito do banco e de olho nos 80 maiores clientes, disse o vice-presidente do banco, Darc Costa.
Segundo o executivo, os oito integrantes da gerência analisarão a atuação das empresas devedoras ao banco em seus mercados, na relação com outros financiadores e até em suas matrizes no exterior, se forem multinacionais.
Darc não citou especificamente o caso Eletropaulo ao falar da nova gerência, mas a distribuidora paulista é um exemplo de cliente que poderia ser alvo das avaliações. Seu controlador, a AES, passa por dificuldades nos Estados Unidos e a distribuidora também enfrenta problemas em virtude da crise do setor elétrico. Como resultado, banco e multinacional negociam como a empresa pagará o financiamento obtido para comprar a distribuidora, em uma dívida de até US$ 2 bilhões.
O vice-presidente do BNDES não quis comentar as negociações com a AES.
"Quando se está negociando algo, a pior coisa que tem é negociar em público", disse. Ele não confirmou a reunião que ocorreria hoje com executivos da multinacional. O prazo para a conclusão das conversas é sexta-feira.
A criação da nova gerência foi um dos resultados da reestruturação do banco, proposta pelo seu presidente, Carlos Lessa. Com as mudanças, o BNDES espera reduzir pela metade o tempo entre receber um pedido de financiamento e sua aprovação. A nova estrutura diminuiu o número de cargos de chefia, o que resultará em economia de 10% a 20% na folha de pagamento. ‘Tranqüilidade’ – A ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, disse ontem que o processo de renegociação da dívida da AES-Eletropaulo com o BNDES deve ser tratado "com tranqüilidade e de forma correta".
Segundo ela, esse não é um assunto político e deve ser tratado como uma questão bancária. A ministra não quis entrar em detalhes sobre quais as opções que estão sendo estudadas pelo BNDES para solucionar o problema. "É um processo bancário, conduzido pelo BNDES, e não vou me manifestar sobre o desenlace", disse a ministra. "O que posso adiantar é que não estamos dispostos a fazer política de resgate de acionistas. Não é nosso objetivo."
Ainda ontem, o Tribunal de Contas da União (TCU) anunciou que inspecionará as operações de crédito concedidas pelo BNDES à AES. O objetivo da operação será avaliar a regularidade de dois empréstimos concedidos à AES. A abertura da inspeção foi aprovada ontem pelo plenário do TCU a partir de requerimento apresentado pelo ministro Augusto Sherman Cavalcante. (Colaborou Nélia Marquez e Gerusa Marques/AE)