De chuvas, reservatórios e térmicas

DE CHUVAS, RESERVATÓRIOS E TÉRMICAS




Sem dúvida, desde a implantação do modelo mercantil no setor elétrico brasileiro, em meados da década de noventa do século passado, tem-se visto e ouvido muita tolice sobre energia elétrica de parte de muita gente que se imagina conhecedora do assunto.


Não é necessário sequer recordar a época do racionamento, quando deu para se sentir saudade do Sérgio Porto e do seu Febeapá, que, aliás, em boa hora está sendo reeditado.


Agora mesmo, estão ocorrendo manifestações pela imprensa de figuras supostamente importantes no quadro atual do setor, em defesa do despacho de térmicas para se poupar água dos reservatórios, cujos níveis encontram-se ligeiramente abaixo dos 50%, em média.


Ora minha gente, estamos entrando no mês de novembro, quando se inicia o período úmido de todos os grandes rios nos quais estão os reservatórios do nosso sistema hidrelétrico. Este período se estende normalmente até o mês de maio do próximo ano. A intensidade das chuvas que virão é incerta, faz parte da imprevisibilidade da natureza, mas não há dúvida que elas acontecerão em maior ou menor volume.


Nestas condições, neste momento, início de novembro, os reservatórios não podem estar cheios, sob pena de sérios riscos a jusante, até mesmo de catástrofes. Assim, agora, há necessidade absoluta da existência do chamado volume de espera em cada reservatório, para poder receber as vazões mais elevadas que deverão chegar, promovendo o amortecimento de eventuais enchentes, que são tão possíveis de ocorrer quanto as grandes secas. Aliás, esta é uma das múltiplas funções dos reservatórios – proteger as cidades e populações situadas a jusante de danos causados por possíveis piques de enchentes excepcionais imprevisíveis.


Até maio, as vazões de todos os rios, em média, com certeza serão maiores do que as suas médias anuais, permitindo a operação normal das usinas das respectivas cascatas e a acumulação das sobras, fazendo os níveis dos reservatórios subirem. A depender da natureza, isto acontecerá com maior ou menor velocidade. O ideal seria que em maio do próximo ano os reservatórios atingissem os 100%, mas aí é que entra a mão de São Pedro. Se neste período vier proporcionalmente pouca água, os reservatórios subirão menos e ficarão abaixo do desejado. Neste caso, ao longo do tempo, a operação poderá ir sendo ajustada com a introdução de térmicas. Se, ao contrário, ocorrerem grandes chuvas e conseqüentes enchentes, os 100% de acumulação serão alcançados mais cedo e haverá vertimento nas barragens. Tudo isto estará sendo acompanhado dia-a-dia, hora-a-hora, pelo ONS.


A verdade é que, neste momento, os reservatórios não poderiam estar cheios. Tem que haver o volume de espera para absorver as eventuais e possíveis enchentes. Os números envolvidos na operação de cada reservatório são calculados pelos complexos modelos computacionais em uso pelo ONS. Portanto, só o ONS pode dizer quando haverá conveniência ou não da operação das térmicas para se poupar água. O resto são meros palpites de curiosos.




Olinda 03 de Novembro de 2006.



Eng. José Antonio Feijó de Melo


Diretor ILUMINA-NE

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