A 3.600 metros no nível do mar, numa remota região dos Andes, o governo da Bolívia tenta dar os primeiros passos para a exploração do mineral que pode se transformar no combustível do futuro e revolucionar a indústria automobilística. O mineral é o lítio e a região, o Salar de Uyuni, em Potosí, no sudoeste do país. O salar é um gigantesco deserto de sais que concentra as maiores reservas de lítio do mundo – 50,5% do total, segundo estimam autoridades americanas. |
Fernando Martinho/valor 
Salar de Uyuni, o gigantesco deserto de sal boliviano: parceria com estrangeiros para exploração de lítio na região |
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Substância estratégica e rara, o lítio alimenta a indústria de telefones celulares, de laptops e de outros eletroeletrônicos servindo como elemento-chave das baterias. Além disso, é empregado na indústria química, metalúrgica, cerâmica em reatores nucleares. |
Mas é a possibilidade de que venha a se tornar a matéria-prima de baterias de alto rendimento dos carros elétricos do futuro, em estudo por diversas montadoras, que faz com que a reserva seja cobiçada por empresas estrangeiras. |
No ano passado, o presidente Evo Morales deu sinal verde para a construção de uma planta-piloto para produção de carbonato de lítio. A obra, orçada entre US$ 6 milhões e US$ 7 milhões, está em andamento. Além de dar início à fábrica, Morales também abriu as portas para negociações de possíveis parcerias com o capital privado para a industrialização do lítio em maior escala. Até agora, companhias de ao menos quatro países já procuraram La Paz para discutir futuras condições de investimento e de acesso à região, disse ao Valor na semana passada o diretor-geral do Ministério de Minería y Metalurgia da Bolívia, Freddy Beltran. |
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“Pelo menos até a escala piloto, o projeto é estatal. Mas é possível que a fase industrial seja fruto de investimento misto. Mais de sete empresas já manifestaram interesse. Já tivemos várias reuniões e as que têm se mostrado mais interessadas são a Sumimoto e Mitsubishi (japonesas) e Bolloré (francesa)”, conta Beltrán, Segundo ele, empresas da Rússia e da Coréia do Sul também procuraram o governo. |
Por enquanto, as companhias dizem estar interessadas em participar da produção de carbonato de lítio (substância empregada nas baterias), mas Beltran tem dito que o governo quer parcerias que possibilitem a produção de derivados que necessitam de investimento e tecnologia, como o cloreto de lítio, o hidróxido de lítio ou o lítio metálico. Morales falou até de um dia o país ter sua própria fábrica de baterias de automóveis – o que seria um salto e tanto para o país mais pobre da América do Sul. |
O presidente boliviano tem motivos para tanta empolgação. “A demanda por lítio não vai dobrar; vai se multiplicar por cinco”, declarou recentemente o gerente-geral da Mitsubishi em La Paz, Eichi Maeyama. A empresa espera lançar em breve seu primeiro carro elétrico e estima que a demanda mundial pelo mineral ultrapasse a oferta em menos de dez anos se novas fontes de fornecimento não forem encontradas. “Vamos precisar de mais fontes de lítio e 50% das reservas de lítio do mundo estão na Bolívia”, lembra Maeyama. |
Assim como a montadora japonesa, a Mercedes tem testado uma versão elétrica do Smart. A BMW faz o mesmo com o Mini. GM e Toyota também trabalham em modelos que rodem com eletricidade. Em todos os casos, as baterias de lítio serão fundamentais. O lítio, mais do que a maioria de outros materiais, tem a faculdade de permitir que uma quantidade maior de energia seja armazenada em baterias mais leves e menores. O mineral é encontrado em rochas ou, no caso da Bolívia, em reservatórios de salmoura que se estendem abaixo do deserto de sal. |
As maiores reservas de lítio do mundo são, depois da Bolívia, o Chile (com 28%) e a China (10,3%), segundo o capítulo sobre lítio do Sumário Mineral de 2008, do Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão do Ministério das Minas e Energia do Brasil. As informações são em parte baseadas no U. S. Geological Survey – Mineral Commodity Summaries de 2008. Estima-se que os EUA (3,8% das reservas) sejam o maior produtor e consumidor mundial. Depois vêm Chile, Austrália e China. Em 2007, o Brasil produziu 1,7% do total mundial, ou 25.160 toneladas. |
A Bolívia tentou entrar nesse mercado nos anos 90. Mas a negociação do governo com uma empresa americana foi bombardeada por movimentos sociais que diziam que o contrato negociado era lesivo ao país e não traria oportunidades à população, conta Beltran. O governo Morales aposta numa receita diferente. “As empresas sabem que não vamos dar o lítio de presente e que vamos procurar a industrialização”, diz ele. |
A Bolívia não tem sido um país atraente para investimentos, mas se a demanda pelo lítio crescer de acordo com o esperado, aumentam as chances de que o capital privado relegue inseguranças jurídicas e políticas para ter acesso à reserva. Em editorial recente, o jornal “El Razón” cita estudo de William Tahil, do Meridian International Research, que diz que apesar dos desafios, “a Bolívia pode virar a nova Arábia Saudita do mundo”. |
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