Entrevista com Joaquim Carvalho

Monitor Mercantil

Publicado em 02 de abril de 201

ENTREVISTA

Joaquim Francisco de Carvalho/Consultor de energia (*)

 

Brasil deveria priorizar matriz hidro-eólica, para fugir do nuclear

 

A tecnologia nuclear é essencial para o desenvolvimento do país, mas não para a geração de energia, afirma o mestre em engenharia nuclear e doutor em energia Joaquim Francisco de Carvalho. Ao comentar o impacto do acidente de Fukushima, no Japão, Carvalho lembrou as conseqüências dos acidentes em usinas nucleares:

“Um país que tem mais de 8 mil quilômetros de costa atlântica precisa dispor de navios e submarinos movidos à propulsão nuclear. E não esqueçamos as aplicações de radioisótopos na medicina, na agricultura, na indústria e na pesquisa científica. Essas aplicações são indispensáveis à vida moderna e têm amplo e crescente espaço no Brasil, desde 1956, mas isso nada tem a ver com geração de eletricidade, como procuram insinuar alguns lobistas do setor”, criticou, em entrevista exclusiva ao MM. O consultor, que foi diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear) e presidiu a comissão provisória criada pela presidência da República, para avaliar o acidente com Césio-137, em Goiânia, defende uma matriz hidro-eólica para geração de energia no Brasil, que seria completada com termelétricas à biomassa.

 

O acidente de Fukushima terá alguma influência sobre os programas nucleares dos EUA e dos países da União Européia ?

Sim. Na Alemanha, por exemplo, o movimento verde, que já era forte, ganhou novo impulso, vencendo as recentes eleições regionais em diversas províncias. Na França, os partidos ligados aos verdes também alcançaram bons resultados. Muitos políticos que apoiavam a expansão dos parques nucleares deram meia volta e aliaram-se aos verdes. E no congresso norte-americano, até alguns deputados do Partido Republicano, que apoiavam a retomada do programa nuclear, já estão se manifestando a favor dos programas de energias renováveis.

 

Como vê a reação do governo brasileiro?

Lamentavelmente, por aqui nem todos os políticos têm sensibilidade para rever posições equivocadas, haja vista a declaração, no dia seguinte ao acidente de Fukushima, do ministro Edson Lobão, de Minas e Energia, de que “as usinas de Angra são 100% seguras e o plano de construir outras quatro no Nordeste seguirá sem nenhuma revisão”. Agiu melhor o ministro Aloísio Mercadante, de Ciência e Tecnologia, que demonstrou ter percebido a precariedade da situação em Angra do Reis e fez o que dele espera a sociedade: ao tomar conhecimento de que Angra II operava sem licença ambiental, demitiu toda a diretoria da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O Ministro de Energia também deve explicações à sociedade, mas até agora não deu nenhuma.

 

Há risco de acidente nas usinas de Angra dos Reis?

Em operação rotineira, as usinas nucleares praticamente não agridem o meio-ambiente e a probabilidade de acidente é muito pequena. Num relatório para a comissão regulamentadora da energia nuclear do governo dos EUA (relatório Wash-12400), há cerca de 40 anos, o professor Norman Rasmussen, do MIT, estimou que essa probabilidade estaria na faixa do milionésimo. Só que probabilidade não é certeza. Não existe máquina infalível nem obra de engenharia 100% segura.

Basta ver os inúmeros acidentes de avião, automóvel e trem pelo mundo. Embora a probabilidade de um acidente nuclear seja muito baixa, os danos provocados seriam muito altos. O risco representado pelo produto da probabilidade pela extensão dos danos é insuportável pelas companhias de seguros.

 

Angra dos Reis é o local adequado para uma usina nuclear?

Não. A cidade está entre as duas regiões mais densamente habitadas e industrializadas do Brasil. Se houver um acidente em Angra, as autoridades não teriam como justificá-lo, mas procurariam se explicar alegando falha humana, ou da instalação, ou da natureza. Ora, todo acidente tem uma causa – e os acidentes nucleares não constituem exceção. O grave é que os “responsáveis” pelo setor nuclear nunca assumem nada. A “culpa” é sempre da tsunami, ou do operador que cochilou, ou do concorrente, que fabricou e instalou a usina acidentada, e por aí vai.

Se a avalanche de terra que escorreu sobre Angra no começo do ano, tivesse bloqueado o canal de escoamento da água dos condensadores, provocando na usina de Angra II (que opera sem licença da CNEN) um acidente grave, a culpa seria do prefeito, que nada fez para evitar a enxurrada. Isso dá uma idéia do risco que corremos, com usinas nucleares sem licença.

 

Quais as conseqüências de um acidente nuclear de médio e grande portes?

Os acidentes nucleares têm dimensões que os outros não têm. Eles se propagam pelo espaço – continentes inteiros – e pelo tempo – décadas, talvez até séculos. Um desastre de avião, por exemplo, atinge diretamente os passageiros e, indiretamente, seus próximos, que ficam. Por mais traumático que seja, ele termina no local e no instante em que acontece.

Um acidente em central nuclear apenas começa no instante e no local em que ocorre. Alguns anos depois centenas de pessoas em regiões inteiras sofrerão males induzidos por exposição a radiações ionizantes. E, em algumas décadas, crianças nascerão com aberrações cromossômicas e desenvolverão leucemia e desordens endócrinas e imunológicas, provocadas pela absorção, por seus genitores, de doses de radiação acima do tolerável, como acontece até hoje em conseqüência de Chernobyl.

 

O Brasil pode prescindir na energia nuclear ?

Toda a eletricidade que é ou será consumida no Brasil pode vir de um sistema hidroeólico, com mínima complementação térmica (com bagaço de cana). Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 261.000 MW, dos quais 172 mil ainda não estão em aproveitamento. Se aproveitarmos apenas 80% do potencial, a área inundada seria inferior a 1% da Região Amazônica. A suposta “agressão ambiental” propalada por lobistas da indústria nuclear e ambientalistas desinformados é uma bobagem.

 

E o potencial eólico do país?

Segundo levantamento de Cepel/Elertrobrás, o potencial eólico brasileiro é de 143 mil MW. A interligação dos sistemas hidrelétrico e eólico permitiria que parte da energia gerada pelas centrais eólicas fosse armazenada. Isto é, acumulada na forma de água nos reservatórios hidrelétricos. Esse sistema hidroeólico poderia operar em sinergia com usinas termelétricas à biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção do bagaço de cana (sub-produto do etanol) em escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno porte, totalizando, em conjunto, uma capacidade da ordem de 10 mil MW, por volta de 2012, segundo a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Única). Como, de acordo com o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de habitantes, por volta de 2040, o sistema interligado hidro-eólico-térmico (à bagaço de cana) teria potencial suficiente para oferecer eletricidade à população, em quantidades equivalentes (em termos per capita) à de países de alto nível de qualidade de vida. Ao contrário de alguns países europeus e o Japão, que não têm alternativa, o Brasil não precisa correr o risco de gerar em centrais nucleares a energia elétrica de que precisa ou precisará. Espero que os ambientalistas e as autoridades percebam isso e não cedam ao poderoso lobby da indústria nuclear.

 

Então o Brasil pode abandonar seu programa nuclear?

Um país que tem mais de 8 mil quilômetros de costa atlântica precisa dispor de navios e submarinos movidos a propulsão nuclear. E não esqueçamos as aplicações de radioisótopos na medicina, na agricultura, na indústria e na pesquisa científica. Essas aplicações são indispensáveis à vida moderna e têm amplo e crescente espaço no Brasil, desde 1956, quando foi criado o Instituto de Energia Atômica (IEA), da Universidade de São Paulo (atual Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – Ipen) e, no meu entender, devem receber máxima prioridade nos orçamentos estaduais e federais de ciência e tecnologia. Mas isso nada tem a ver com geração de eletricidade, como procuram insinuar alguns lobistas nucleares.

 

Rogério Lessa

(*) do Conselho Consultivo do Ilumina

Categoria