Entrevista de João Paulo Aguiar


ENTREVISTA » JOÃO PAULO AGUIAR


Publicada no Jornal do Commercio, Recife em 28.03.2010



“Não há clareza, não há transparência”




João Paulo Aguiar, 72 anos, foi responsável pela construção de hidrelétricas e durante o governo FHC lutou ativamente contra a privatização da companhia. Na entrevista abaixo, ele opina sobre a falta de mobilização daqueles que, no passado, reagiram à privatização da empresa. “Eles têm medo de bater em Lula”



JC – Quais as consequências que a reformulação da Eletrobras está trazendo para a Chesf?



JOÃO PAULO AGUIAR – Todos desconhecemos como ficará a Chesf. Ela vai ser um escritório que não vai ter nem diretoria? A nossa dedução é que a Eletrobras já fez isso com algumas subsidiárias, empresas como a Cepisa (Piauí), Ceal (Alagoas), que não têm mais diretores, mas apenas superintendentes. No ano passado, a Chesf deu um lucro de R$ 1,4 bilhão. Só que agora, por uma determinação autoritária da Eletrobras, todo saldo da Chesf vai para a Eletrobras. A Chesf tem uma ligação atávica com os Rios São Francisco e Parnaíba, com expertise nessa área que vai passar para a Eletrobras. Isso esvazia a Chesf e o Nordeste. Interessa muito ao Nordeste que as compras, as contratações e os serviços de engenharia sejam contratados na região, porque isso dá dinâmica à economia. Há perigo de tudo isso passar a ser feito pelo Rio de Janeiro. A Eletrobras, na sua megalomania, está construindo um prédio de 44 andares para encher de gente e fazer tudo lá. Daqui a pouco, para alugar um carro para a Usina de Boa Esperança (no Piauí) em vez de fazer uma consulta local, tudo será feito pela Eletrobras.



JC – Como está sendo implantado esse processo de reformulação da Eletrobras?



JPA– Não há clareza, não há transparência, não há discussão. Não há participação do Legislativo, através das comissões de Minas e Energia do Senado, da Câmara, dos governos estaduais. O Ilumina (ONG ondeatua) provocou questionamentos a esse projeto quando ele nasceu em 2007. Quando ele ressurgiu em 2008 e 2009, começamos a trabalhar no assunto, mas não tínhamos conhecimento da visão holística da questão e não tivemos sucesso. Por incrível que pareça, foi o presidente da Eletrobras, que num ato falho, investiu contra a identidade e o nome da Chesf, que é um dos poucos símbolos míticos que ainda funcionam como aglutinante. Aí a imprensa, o Executivo e o Legislativo começaram a ter interesse neste processo.



JC – Além da marca, o que já mudou?



JPA – Por um ato administrativo, a Eletrobras subordinou o conselho de administração da Chesf ao seu. O da Chesf passou a ser uma sucursal do conselho deliberativo da Eletrobras. É uma perda relevante. São perdas desse tipo que estamos questionando.



JC – Em 2002, ocorreu um processo de esvaziamento da Chesf, que provocou uma reação que uniu políticos de partidos que iam de Miguel Arraes, do PSB, a Roberto Magalhães, do DEM. Por que os políticos estão tão omissos no processo de esvaziamento da estatal?



JPA – Em 2002, tínhamos um símbolo mítico que era o Rio São Francisco e isso uniu esquerdista, socialista, direita, todos eram contra a privatização das águas do São Francisco, porque o Rio São Francisco é o mais importante bem do Nordeste. Os arautos da atual mudança, com muita inteligência, se escudaram atrás de uma declaração do maior mito vivo do Brasil, que é o presidente Lula. Os políticos não queriam bater em Lula. A oposição não existiu nessa discussão até ser despertada. Hoje, estamos vendo políticos do PSDB, PSB, PDT e PT dizendo que não querem engolir essa nova Eletrobras, que ninguém sabe o que é. O que nós do Ilumina queremos é que isso seja discutido.



JC – Qual a diferença que o senhor vê entre a atual reação política e a de 2002?



JPA– Em 2002, o governo Fernando Henrique não tinha uma figura que fosse um mito para o povo e nem uma figura – com 80% de aprovação – que os políticos tivessem terror de ficar contra ele. Tem alguém do PSDB batendo em Lula? Os políticos estão se pronunciando, mas respeitando o presidente Lula.



JC – O senhor não vê como contradição este esvaziamento estar ocorrendo justamente num governo do PT?



JPA– O presidente Lula está sendo enganado em relação ao processo…Na Justiça se diz que na dúvida, pró-réu (porque ninguém é condenado na dúvida). Então, nós não sabemos. Lula ainda não disse exatamente “não é isso que eu quero.” A partir de uma declaração dele (a de que a Eletrobas deverá ser a Petrobras do setor elétrico) estão destruindo empresas e criando um monstro (nova Eletrobras) que não vai atender aos interesses do Brasil.



JC – Como a Eletrobras se comportou nesse processo?



JPA– A Eletrobras age na linha contrária do interesse nacional, mas é inteligente. Ela cooptou os funcionários oferecendo todas as benesses, como equiparação salarial (com o pessoal que trabalha na sede), plano de saúde mais generoso e desarmou as possíveis resistências. Este processo ressurgiu há três anos, quando a Eletrobras se viu sem função em decorrência das mudanças que ocorreram no setor elétrico. As coisas mais importantes que a Eletrobras fazia saíram das mãos dela para órgãos de competência específica, como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Empresa de Pesquisa Energética (EPE), entre outros.



JC – Mas dizem que esse processo vai internacionalizar a atuação da Chesf, que foi iniciada com a usina da Nicarágua anunciada há duas semanas.



JPA– Essa usina da Nicarágua é um factoide que foi trazido às pressas, porque já tinha começado uma reação da sociedade ao processo de esvaziamento da Chesf. Esse anúncio foi para criar um fato positivo que apagasse o impacto da perda de identidade da Chesf.


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