GLOBO 17/09//98
Leilão da Eletropaulo Bandeirante não terá disputa
Patrícia Duarte
SÃO PAULO. Ao que tudo indica, o Governo de São Paulo vai conseguir vender o controle acionário da distribuidora Eletropaulo Bandeirante, hoje, em leilão na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). No entanto, as chances de ágio estão totalmente descartadas, já que apenas um consórcio depositou ontem as garantias financeiras, equivalentes a 10% do preço mínimo, fixado em R$ 1,014 bilhão. O único grupo que vai disputar o leilão é formado pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e pela Eletricidade de Portugal (EDP). A expectativa inicial do mercado era de que as duas fossem entrar separadamente na disputa, como concorrentes.
– Nós trabalhávamos com as chances maiores de não haver ágio amanhã (hoje), mas muito mais pela desistência de uma das empresas – afirmou o analista Alexandre Fernandes, do Banco Bozano,Simonsen.
É a primeira vez que a CPFL – controlada pela VBC Energia (Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa) e pela Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) – se une à portuguesa EDP. De acordo com o secretário de Energia de São Paulo, Mauro Arce, as duas empresas haviam firmado um compromisso com o Governo para participar do leilão, pagando pelo menos o preço mínimo fixado pelo Governo. No entanto, Arce afirmou que conseguir vender a Bandeirante, mesmo sem ágio, é o objetivo primeiro do estado.
– Já existiam os compromissos da EDP e da CPFL de participar do leilão – afirmou o secretário, antes mesmo de sair o nome das empresas como as únicas depositantes das garantias, ontem à noite.
Para o mercado, faz sentido. O analista do Banco Santander Alexandre Braghetta afirma que o Governo paulista não colocaria novamente à venda a Bandeirante se corresse o risco de não encontrar comprador.
No dia 15 de abril, a Eletropaulo Bandeirante foi à leilão pelo mesmo preço mínimo de R$ 1,014 bilhão, mas não apareceu nenhum comprador para pagar o preço fixado. O fato foi considerado um desastre pelos analistas de mercado.
Na avaliação de Braghetta, seria muito desgastante politicamente para o atual Governo estadual tentar de novo vender a empresa sem sucesso. Além disso, acrescentou ele, para a economia brasileira o fato de nenhuma empresa se apresentar para comprar a Bandeirante seria mais um fator que provocaria a desconfiança dos investidores estrangeiros, podendo contribuir para o aprofundamento da crise nos mercados.
A Eletropaulo Bandeirante é a última distribuidora de energia elétrica paulista que resta para ser privatizada e a quarta maior do país. Sua área de atuação cobre Baixada Santista, Vale do Paraíba, Alto Tietê e Oeste Paulista (num total de seis milhões de habitantes). A Bandeirante tem no mercado industrial o seu principal cliente, respondendo por 64,2% das vendas. Por ser a última chance de uma empresa entrar nesse nicho em São Paulo, cresceu o interesse pela distribuidora. A Bandeirante possui dívidas de R$ 650 milhões, que serão transferidas para o novo controlador.
O presidente da CPFL, Ronald Jean Begen, viu seu interesse na Bandeirante crescer depois que sua empresa disputou – e não levou – a distribuidora Elektro, em julho, cujo controle foi adquirido pela americana Enron.
– A nossa preferência nítida era pela Elektro. Como não conseguimos, vamos tentar a Bandeirante, que tem sinergia com a CPFL – afirmou ontem Begen, ressaltando que a CPFL tem engatilhada uma operação de emissão de commercial papers, no valor de R$ 1 bilhão, para usar no pagamento da Bandeirante.
Já a EDP tenta entrar no mercado paulista depois de algumas tentativas, inclusive por meio da Elektro. A empresa portuguesa fatura cerca de US$ 3,8 bilhões por ano e tem participação na Cerj. As chances de ágio no leilão começaram a ser desfeitas quando a americana Enron, que havia se pré-qualificado para o leilão e era apontada como uma das favoritas, desistiu. O diretor para a América do Sul da empresa, Diomedes Christodoulou, explicou que a Enron chegou à conclusão de que a Bandeirante não caberia nos planos de atuação para a região, mais voltados para a distribuição de gás natural. Ele lembrou que a Enron pagou um ágio de quase 100% para adquirir a Elektro há poucos meses.
Em termos jurídicos, até o fim da noite de ontem a realização do leilão estava garantida. O procurador-geral de São Paulo, Márcio Sotelo Felipe, informou que as três ações judiciais e o mandado de segurança impetrados pelo Sindicato dos Eletricitários de São Paulo haviam sido indeferidos pela Justiça. Segundo o procurador, não havia mais nenhuma pendência judicial até aquele momento.
COLABOROU Cristina Canas
Bandeirante é vendida para o grupo CPFL-EDP pelo preço mínimo
Sueli Campo/Fabíola Girardin
SÃO PAULO, 17 (Agência O GLOBO) – O leiloeiro da Bovespa bateu o martelo há pouco oficializando a venda da Empresa Bandeirante deEnergia para o grupo único na disputa, formado pela CPFL e EDP. O consórcio fez o lance mínimo fixado pelo Governo paulista de R$ 1,014 bilhão. Em menos de cinco minutos, o martelo foi batido pelo leiloeiro da Bolsa de Valores de São Paulo.
O governador em exercício Geraldo Alckimin comemorou a venda da empresa e disse que não importa que a Bandeirantes tenha sido vendida sem ágio.
– Ficaríamos decepcionados se não tivesse sido feita a privatização, mas o importante é que a energética tenha sido passada para a iniciativa privada – disse. Desculpe Dr. Geraldo Alkimin, mas a nosso ver o importante é que o Estado, afinal de contas, toda a sociedade, seja ressarcido justamente por um investimento feito ao longo de décadas. Vander na "bacia das almas" é muito bom para interesses privados mas para o interesse público, convenhamos!