“Grandes cabeças” que querem enterrar o País (*)
J.Carlos Assis Editor-chefe www.desempregozero.org.br
Mantenho-me atualizado em relação ao pensamento da direita neoliberal lendo de vez em quanto a coluna de Miriam Leitão, no Globo. Não é preciso ler todo o dia, porque o pensamento neoliberal não muda muito. No último domingo, ela matou três coelhos com uma só cajadada: apresentou idéias atualizadas de Pérsio Arida, Affonso Celso Pastore e Edmar Bacha. Pelo seu critério, são “das três melhores cabeças econômicas do Brasil”. Nós nos contentamos, com respeito a dois deles, com a definição de que são professores-banqueiros falando em interesse próprio e, quanto a Pastore, que é um ortodoxo autista.
Bacha acaba de descobrir que os juros brasileiros são “estratosféricos”. Pérsio acha que “para o Brasil dar certo é preciso enfrentar a questão da previdência saindo do modelo de repartição para o de capitalização”. E Pastore acha que não temos suficiente blindagem nos fundamentos econômicos contra os riscos políticos. Entretanto, Pérsio faz o que poderia ser um resumo do pensamento dos três: “O governo Lula foi muito melhor do que o esperado. Imaginava-se que ele honraria suas propostas econômicas históricas e ele não o fez; deu uma guinada de 180 graus e isso levou ao bom ambiente dos últimos dois anos.”
Em relação à crise política, é ainda Pérsio Arida quem nos tranqüiliza: “A vantagem é que não parece haver risco de abandono do tripé superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação”. Com uma paciência de tubérculo, reli a coluna para verificar se alguma vez, uma única, qualquer dos três economistas se referiu ao desemprego ou a crise social brasileira. Não se referiram. É como se estivessem numa mônoda. A economia para esses banqueiros e assessores de banqueiros está inteiramente dissociada da Nação. O risco político que vêem no horizonte é estritamente na órbita financeira.
O que Pérsio Arida considera “o bom ambiente dos últimos dois anos”? Seriam as taxas conjuntas de desemprego e subemprego atingindo 30% da população economicamente ativa? Seria a proliferação das estratégias de sobrevivência na marginalidade e na ilegalidade? Seria o aumento da criminalidade e da insegurança, com ondas recorrentes de assaltos violentos e de seqüestros em nossas metrópoles? Seria o retardamento nos assentamentos agrários, agravando a tensão no campo? Seria a degradação dos serviços públicos diante do bloqueio de recursos orçamentários?
Esses professores-banqueiros não conseguem enxergar uma população por trás dos indicadores econômicos. Bacha pode estar impressionado com a “quantidade” da taxa de juros, mas ele está fundamentalmente de acordo com a política monetária restritiva e com a liberalização financeira. Os três têm uma visão do mundo, essencialmente, de contadores: faça-se superávit primário e o resto se arranjará. Sua preocupação relevante é com o quadro externo, pois os bons ventos dos últimos dois anos no cenário internacional podem não durar muito. Entretanto, se o quadro externo piorar, é só aumentar o aperto interno!
Se o futuro do Brasil dependesse dessas “grandes cabeças” econômicas estaríamos bem arranjados. O lado bom da história é que chegaram ao limite de suas propostas. Imagine, supor nesta altura do campeonato que a salvação do Brasil é a capitalização da Previdência! É porque já não têm nada a dizer, e o que disseram provou ser a base de um desastre que nos levou à pior crise social de nossa história. Diante disso, o único comportamento possível deles é o do avestruz: meter a cabeça na areia, não ver nada, não ouvir nada, e seguir em frente com os preconceitos ortodoxos de sempre, repetidamente.
Não há, na verdade, idéias atualizadas dos professores-banqueiros. Há apenas uma roupagem atualizada de velhas idéias neoliberais. Algumas resultaram no passado em reforço da política econômica que está aí, mas outras jamais pegaram, como essa sandice de dizer que o problema do Brasil é a “incerteza jurisdicional (sic)”. Quando Arida, Lara e Bacha saíram com essa, escrevi que, ao contrário, o problema do Brasil era a “picaretagem locupletacional”, isto é, os golpes ideológicos de professores-banqueiros que ganham dinheiro inventando teorias de moda, de costas para os interesses da maioria da população.
(*) Publicadacom autorização do autor