JB 15.06.97
Privatização traz riscos para Angra I
Diretor da Coppe diz que segurança ficará
comprometida se usina for transferida à
Nuclen para que Furnas seja vendida em 98
FRANCISCO LUIZ NOEL
O primeiro movimento do governo para a privatização de Furnas Centrais Elétricas esbarra
numa controvérsia: o destino da usina nuclear de Angra I, em Angra dos Reis (Sul
Fluminense). O diretor da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia
(Coppe) da UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, adverte que a segurança de Angra I pode ser
comprometida se a usina for transferida à Nuclen (estatal dedicada a projetos de reatores) para
que Furnas seja vendida em 1998. O alerta está em relatório apresentado à 23ª Vara Cível do
Rio, que suspendeu no fim de maio a cisão das áreas nuclear e convencional da estatal
decidida por assembléia geral de Furnas.
No relatório, o diretor da Coppe observa que a Nuclen, para custear a operação de Angra I,
teria que fazer a usina funcionar com 94,3% de sua capacidade (627 megawwats), sem
interrupções além dos dois meses anuais para troca do combustível e manutenção. “Caso haja
problemas técnicos com Angra I, a nova empresa, cuja receita dependerá deste reator, terá
dificuldades para mantê-lo em operação com as condições de segurança ideais”, avisa. A
Nuclen estima vender R$ 190 milhões de eletricidade por ano, mas de onde sairá o dinheiro se
a usina parar?
O relatório foi preparado pelo diretor da Coppe, na condição de perito judicial, para processo
contra a transferência da usina para a Nuclen, que tramitava na 28ª Vara Federal. Como a ação
foi extinta, em 5 de maio, o documento foi juntado pelo advogado Marcelo Cerqueira a novo
processo, aberto por entidades como a Associação dos Empregados de Furnas na 23ª Vara
Cível, onde o juiz Fernando Fucks suspendeu as decisões da assembléia de Furnas,
autorizada por decreto do presidente Fernando Henrique. Cerqueira alega ainda que a
transferência é inconstitucional, pois não foi aprovada no Congresso.
Os planos do governo, ratificados pela assembléia suspensa, incluem a transferência à Nuclen
de toda a Diretoria de Produção Termonuclear de Furnas, com 1.321 funcionários e, além de
Angra I, as obras e contratos de Angra II, que deverá ser concluída em 1999 – no total, um
patrimônio avaliado em R$ 13,3 bilhões. Furnas compromete-se, também, a comprar toda a
eletricidade de Angra I, como forma de garantir a viabilidade financeira da Nuclen. Sem a área
nuclear – monopólio estatal previsto pela Constituição -, Furnas estará pronta para ser
privatizada.
Luiz Pinguelli Rosa aponta duas frentes de imprevisto para o funcionamento da usina a todo o
vapor: problemas que vêm ocorrendo com o combustível nuclear, da alemã Siemens, e o
avanço da corrosão no gerador de vapor, que movimenta as turbinas para a geração de
energia. O estrago no gerador, da americana Westinghouse, vem sendo enfrentado com
reparos à base de raios laser.
Se a nova tecnologia não recuperar o gerador de vapor, adverte o cientista, isso “implicará a
perda de receita por talvez um ano, além de despesa adicional de até US$ 100 milhões”. O
diretor da Coppe manifesta dúvidas quando aos compromissos de Furnas. Depois da
privatização, salienta, dificilmente a empresa iria pagar à Nuclen por energia não fornecida – em
caso de parada da usina – ou financiar a substituição do gerador.
As advertências de Pinguelli Rosa têm coro em Furnas, mas ressonância pequena na Nuclen.
O presidente de Furnas, Luiz Laércio Simões Machado, assegura que a suspensão das
decisões da assembléia cairá na Justiça. “A cisão, que é uma decisão de governo, está
consagrada.” Machado diz que, em caso de Angra I ser paralisada por problemas técnicos, a
Nuclen não deixará de receber de Furnas.
Na Nuclen, o engenheiro nuclear Everton Carvalho contesta os argumentos do relatório do
diretor da Coppe: “É melhor fazer tudo com prudência, agora, e ter mais capacidade de
barganha para negociar com Furnas um bom contrato.”