JB 6/2/99
Furnas agora gera esperança
Privatização mobiliza trabalhadores e
moradores preocupados com novos donos
CLÁUDIA MATTOS
A privatização de Furnas, prevista para acontecer no segundo semestre, envolve muito mais do que a geração e a
transmissão de energia e a discussão sobre a manutenção do emprego dos 4.511 funcionários da estatal. Para
cada uma das oito hidrelétricas, existe uma represa em torno da qual gira a economia de grande parte dos
municípios vizinhos. A construção dessas barragens, que hoje formam imensos lagos artificiais, foi um trauma
na vida dos antigos moradores das cidades por elas alagadas. Hoje, os lagos representam a esperança de
sobrevivência econômica dessas regiões.
O Lago de Furnas, no Sudoeste de Minas, não é a maior das represas da estatal, mas certamente é a mais
importante por ser a mais antiga e a que banha um maior número de municípios. No fim da década de 50, os
centros industriais de Rio, Minas e São Paulo estavam a ponto de sofrer um colapso energético, quando o
presidente Juscelino Kubitschek decretou a construção da represa de Furnas. A obra começou em 1958 e foi
concluída em 1963. Hoje, as 34 cidades da região formaram a Associação dos Municípios do Lago de Furnas
(Alago) para lembrar as futuros compradores da estatal que Furnas significa muito mais do que energia
elétrica.
Desde as primeiras notícias sobre a possibilidade da venda de Furnas para o setor privado, os prefeitos dessas
34 cidades se uniram para, em conjunto, tentar incluir seus interesses nas regras da privatização. As
reivindicações são básicas e dizem respeito ao meio ambiente, fator primordial para que se possa explorar o
enorme potencial turístico da região. "Nenhum município da região tem tratamento de esgoto", explica Ângelo
Leite Pereira (PSDB), ex-presidente e atual secretário da Alago, além de prefeito de Carmo do Rio Claro. "Já
pensou se o Lago de Furnas se transformar numa imensa Baía de Guanabara? Quem vai querer passar as férias
aqui?"
Tucano – O termo imenso utilizado por Ângelo não é uma figura de linguagem. Em termos de volume d’água, o
Lago de Furnas é sete vezes maior que o da Baía de Guanabara e seu perímetro corresponde a um terço de toda a
costa brasileira. Em muitos trechos, quando o reservatório está em seu limite, a profundidade atinge 110 metros.
"Se o projeto da despoluição da Baía de Guanabara custou o que custou e não saiu do papel, imagina o quanto não
custaria despoluir isso aqui?", pergunta Ângelo.
Tucano que é, Ângelo, em princípio, era um defensor da privatização de Furnas. "Já fui muito a favor, agora não
sou mais". A mudança de posição de Ângelo pode ser explicada pelo raciocínio de Ataíde Vilela, presidente do
Sindicato dos Eletricitários de Furnas. "Com Furnas, a gente ainda negocia e consegue alguma coisinha. Mas
com os franceses, espanhóis, ingleses ou japoneses que comprarem Furnas como é que a gente vai negociar? Para
eles pouco importa se a água está limpa ou poluída. Para eles, o que vai interessar é gerar energia. E até com
água de esgoto se pode gerar energia", afirma.
A Alago está propondo a inclusão de dois itens no edital de venda de Furnas, que dariam condições aos
municípios de, sendo quem for o comprador, tocar os projetos turísticos da região. "Queremos que, no ato da
compra, uma porcentagem do preço final seja destinada a programas de saneamento básico da região" afirma
Ângelo. O outro ponto seria tornar responsáveis os futuros controladores acionários da empresa pela proteção
ambiental pela despoluição dos lagos cujas hidrelétricas comprarem.
Royalties – Os prefeitos da Alago também querem a garantia que o direito aos royalties, por eles conquistado,
seja cumprido por quem quer que seja o comprador de Furnas. Atualmente, todos os municípios que tiveram áreas
alagadas na construção da barragem tem direito de repartir o correspondente em reais de 6% da produção da
usina de Furnas, a título de royalties.
As sugestões foram apresentadas ao conselho que está estudando o modelo de privatização de Furnas, mas, até
agora não houve resposta às reivindicações. Vários prefeitos da região contam histórias semelhantes sobre
como a garantia de preservação do Lago de Furnas pode ser decisiva na hora de convencer empresários a
investir em projetos turísticos na região. "Já apresentei vários projetos a empresários que se interessaram em
investir na região e eles sempre me perguntam se eu>
Transfer interrupted!
anos o Lago estará despoluído", conta Ângelo.
Outra preocupação dos prefeitos é com a continuidade dos projetos sociais mantidos por Furnas, como a Estação
de Hidrobiologia e Piscicultura. O projeto, criado em 1971, ajuda a repovoar a fauna aquática, fornece peixes
para a merenda escolar da região e utilização do couro de peixes para a fabricação de peças de artesanato.
‘Nunca mais na vida comi peixe’
As gerações mais antigas, quando olham para a imensidão de água do Lago de Furnas, não escondem a dor de
lembrar da água subindo por onde estavam localizadas as plantações de café e de arroz, engolindo casas,
fazendas, igrejas, pastos, chiqueiros e até cidades inteiras, como São José da Barra, hoje totalmente debaixo da
água da represa.
"Quando eu era criança, meu pai me proibia de nadar no lago, tamanha era a mágoa que ele tinha da construção
da represa", conta Ângelo Leite Pereira, prefeito de São José do Rio Carmo, que era criança na época da
inundação. Já Donana Lemos, hoje com 92 anos de idade, que estava já estava longe da infância na época da
inundação, completa em 1963, até hoje mantém sua forma expressar o desgosto que a inundação lhe causou.
"Nunca mais na vida comi peixe", conta.
A vida de Donana hoje é um dos muitos casos de reviravolta causada pela construção da represa. Ela é filha de
um dos mais poderosos fazendeiros que a região já teve, um verdadeiro coronel na visão de alguns que
conviveram com José Andrade Lemos, também conhecido como Juca Lemos. Ele era o líder do PSD, partido de
Juscelino Kubitschek, presidente que decretou a construção de Furnas. "O Juscelino e o Tancredo viviam
almoçando lá na fazenda", relembra Donana, como uma lucidez de fazer inveja a qualquer pessoa de 30 anos.
Correligionário de Juscelino, Juca apoiou nas primeiras horas a construção da barragem, mesmo sabendo que esta
lhe tomaria quase todos os 500 alqueires da Fazenda da Várzea, a primeira na região a ter telefone e banheiro
dentro de casa. "Era o progresso que estava chegando. Meu pai queria o progresso do Brasil".
Sinhazinha – O progresso, que Juca Lemos tanto queria ver, chegou às regiões industriais de Rio, São Paulo e
Minas. Junto com ele, o desmantelamento de sua fortuna e de seu poder político. O dinheiro recebido como
indenização pelas terras inundadas foi pouco e logo desapareceu. Hoje Donana, que, pode-se dizer, cresceu como
sinhazinha, vive com o salário de R$ 130 em uma casa na cidade de Carmo. Dos 500 alqueires iniciais da
fazenda, sobraram-lhe 29, abandonados na beira do lago.
"A inundação acabou com a aristocracia rural da região", atesta Jorge Moysés, assessor judiciário do Tribunal de
Alçada de Minas Gerais e, nos anos 50 e 60, advogado de cerca de 50 proprietários rurais que se recusaram a
receber a quantia que Furnas lhes ofereceu como indenização. "Os grandes proprietários até conseguiram
negociar melhor o valor de suas terras, mas os pé-rapados ficaram sem nada".
Entre os clientes de Moysés estava Luzia Assis Mendonça, analfabeta, agricultora, proprietária de 25 alqueires
de terra, onde havia sede, paiol, chiqueiro, dois currais e lavouras de arroz e café. Luzia contestou
judicialmente a quantia que Furnas lhe ofereceu. Furnas fez o depósito em juízo e o caso se arrastou durante anos
na justiça mineira. "Hoje, o que a Luzia tem a receber não vale o custo que teria com a publicação dos editais".
Afastada de suas terras, Luzia vive de pequenos trabalhos como lavagem de roupas, torragem de café, abate de
frango e cata de esterco.
A inundação povoou a memória da região de histórias trágicas. "Muita gente se matou para não ver as terras
inundadas", conta Moysés. Os mais antigos moradores de Carmo se lembram muito bem do susto que foi ver uma
multidão de leprosos vagando sem rumo pelas ruas da cidade depois que o leprosário onde moravam, na Serra
do Pinheiro, foi inundado. "É claro que ninguém do governo se preocupou em indenizar os leprosos, que ficaram
sem ter onde morar".
Na opinião dos prefeitos dos 34 municípios da região, não há como negar que Furnas lhes deve muito em termos
de custos sociais. Semanticamente, por certo, lhes deve.
Além das terras inundadas, o nome que a estatal carrega também foi tirado da região, onde havia as
Corredeiras de Furnas, rios em cujas pedras as águas abriram furnas (cavernas). (C.M.)
Turismo ainda é mal explorado
As gerações mais novas, quando olham para a imensidão das águas do Lago de Furnas, não escondem a
esperança de ver empregos, exploração turística planejada, aumento de arrecadação e progresso da região
emergir de suas águas. Mesmo sem o sonhado planejamento, o turismo é a atividade que mais cresce na região.
Neste momento, 11 novos hotéis estão em fase de construção, o que é ainda insignificante em relação ao
potencial turístico da região, que hoje recebe menos de um milhão de visitantes, embora tenha capacidade para
receber até 13 milhões ao ano, segundo estudo da Gerc Inatur Associados, de Barcelona, empresa contratada
para criar um projeto turístico para a região.
Quem conhece o litoral sul do Estado do Rio não pode deixar de compará-lo à região. O Lago de Furnas parece
uma grande Angra dos Reis. Com duas vantagens: suas águas, ora verdes, ora azuis, dependendo da época do ano
e do local, são doces e seu entorno é praticamente selvagem. Além de fazendas e enormes escarpas que avançam
sobre as águas formando cânions, pouco existe nas margens. Um ou outro hotel, um ou outro restaurante, uma ou
outra casa. Mansões para ser mais exata.
No lago, deságuam nada menos que 34 cachoeiras de todos os tamanhos. As grandes quedas d’água, que cortam
os imponentes cânions, e as pequenas, que formam piscinas naturais de hidromassagem onde crianças podem se
divertir sem correr outro risco que um escorregão ou outro no limo das pedras. As próprias escarpas, com pedras
em camadas oferecem um desafio para os amantes da escalada.
As opções de prática de esportes náuticos são variadas. Praticamente todos os esportes aquáticos podem ser
praticados no lago, como o esqui, o mergulho e a pesca. Para quem gosta de uma boa caminhada no meio do mato,
as opções são infinitas. Basta parar o carro na beira da estrada e pegar a primeira trilha aberta no meio do
mato. Depois de uma caminhada que pode variar de 20 minutos a uma hora, invariavelmente, ela terminará ao
lado ou na beira de uma cachoeira.
Se, por um lado, a beleza é exuberante. Por outro, a infra-estrutura deixa muito a desejar. As estradas estreitas,
esburacadas e com grande fluxo de caminhões são mais perigosas que qualquer corredeira. Não há indicação
alguma de como chegar à maioria dos pontos turísticos. O visitante tem que se fiar no conhecimento de pessoas
da região para encontrar esta ou aquela cachoeira. Mesmo a navegação pelo lago é complicada. Pessoas
nascidas e criadas na região muitas vezes se perdem em meio a tantos desfiladeiros e ilhas tentando cruzar
longa distâncias por água.
Uma das cidades que melhor aproveita o potencial turístico do lago é a pequena Capitólio, município de oito
mil habitantes onde está o condomínio fechado Escarpas do Lago. Alguns apelidaram-no "Miami Brasileira",
mas o local mais parece o condomínio Portogalo, em Angra. São mil lotes e pouco mais de 700 casas de luxo,
parque náutico, ancoradouros, complexo hoteleiro, com chalés, suítes e bangalôs, e clube social e esportivo, com
piscinas, restaurantes, quadras esportivas e boate. Somente o luxuoso condomínio é responsável por 60% da
arrecadação de impostos do município.
Em 1996, foi encomendado à empresa Gerc Inatur um ambicioso projeto turístico para a região. O plano, que
custou US$ 186 mil e teve metade do custo pago por Furnas, ressalta a posição privilegiada em relação aos
principais centros urbanos da região Sudeste – está a 580 quilômetros do Rio, 400 de São Paulo e 300 de Belo
Horizonte – como um dos principais fatores para a incrementação do turismo.
Fora do lago, os 34 municípios oferecem para os visitantes alguns dos principais atrativos de Minas: o comércio
de doces, queijos, cachaças, artesanato e a indústria de confecção. Tanto nas cidades quanto na beira do lago uma
coisa permanece idêntica: a mesa farta dos restaurantes, onde os pratos dão sempre para três pessoas.