JB13/03/99
Oposição quer convocar Tourinho
Parlamentares exigem explicações sobre blecaute de 5ª feira
SONIA CARNEIRO E JOAQUIM SÃO PEDRO
BRASÍLIA – Deputados e senadores cobraram ontem do governo explicações sobre o blecaute ocorrido na noite de quinta-feira em metade do país. Uma guerra política foi deflagrada pelo PFL contra o PMDB no Senado para evitar que o ministrodas Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, seja convocado para dar explicações. É que o PMDB concordou com o requerimento do bloco oposicionista convocando o ministro, indicado pelo PFL baiano, para prestar esclarecimentos na comissão de Infra-estrutura do Senado. O requerimento já havia sido aprovado na quinta-feira pela manhã antes do blecaute à noite, e incluiu uma lista com uma dezenas de autoridadesligadas ao setor elétrico. "Achamos um exagero Tourinho vir ao Senado.Para prestar esclarecimentos técnicos basta um detalhado requerimento de informações", argumentou o líder em exercício do PFL, senador Edison Lobão (MA). "O blecaute foi culpa da privatização", atacou o senador Pedro Simon (PMDB-RS). "O PMDB não abre mão das explicações do ministro", acrescentou Simon.
Suspeita – Os senadores reclamaram também da falta de explicações do governo sobre o que aconteceu. Para Eduardo Suplicy (PT-SP), um dia depois do problema ter acontecido, nenhuma autoridade brasileira da área de energia sabia explicar suas causas. O senador lançou suspeita de que o governo brasileiro "esteja mais preocupado com os negócios que se realizam no sistema de eletricidade brasileiro do que com sua responsabilidade na prestação dos serviços à população", criticou Suplicy. O senador considerou necessária não só a convocação do ministro como também de uma lista de autoridades da área de energia para prestarem explicações sobre o blecaute. A senadora Emília Fernandes (PDT-RS), presidente da comissão de Infra-estrutura, mandou anexar ao requerimento de convocação de Tourinho, os nomes do presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio Neto, Itaipu, Euclides Scalco, e do diretor da Aneel, José Mário Abdo. Também ospresidentes da Eletronorte, Muniz Lopes, e da Chesf, Mozart de Siqueira Campos Araujo. "Agora dificilmente a Chesf será privatizada", defendeu a senadora.
Na Câmara, será votado na quarta-feira, o requerimento do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) convocando o ministro para falar na comissão de Defesa do Consumidor sobre as causas do blecaute e sobre os prejuízos causados pela interrupção do fornecimento de energia. Para o deputado, o apagão trouxe de volta ao debate político a polêmica sobre a privatização do setor elétrico. O deputado também colocou a culpa do blecaute nas falhas da privatização. "Queremos saber porque caiu a qualidade dos serviços depois que foram vendidas algumas empresas do setor elétrico", cobrou Chinaglia.
Reavaliação – O deputado recebeu informações de que R$ 1 bilhão já foi aplicado pelo BNDES na privatização do setor, e por isso, quer também a convocação do presidente do BNDES, Pio Borges, para informar o quanto já foi gasto na privatização do setor elétrico. "Esperamos que agora o governo inicie uma reavaliação dessas privatizações", pediu Chinaglia. Ele cobrou do presidente Fernando Henrique Cardoso promessa feita anteontem, aos deputados que foram pedir a suspensão do leilão para a venda do sistema CHESF de criar uma comissão para discutir o assunto.
Já os senadores criticaram a forma como vem sendo realizada a privatização do setor elétrico pelo governo. O senador Pedro Simon (PMDB-RS) lembrou que o falecido ministro Sérgio Motta chegou a criticar a Light e dizer que os apagões acabariam por descredenciar as privatizações do governo. "Desde que ele morreu ninguém mais falou nisso e a situação continuou na mesma", destacou Simon.
Ideologia – Mas o senador José Fogaça (PMDB-RS) defendeu o governo alegando que a única parte que não havia sido privatizada era o sistema de transmissão. "Desta vez ninguém poderá colocar a culpa na privatização. O apagão ocorreu fora das áreas exploradas pela iniciativa privada", destacou Fogaça. Também o líder do governo na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP), informou que o ministro Tourinho garantiu que os apagões de anteontem não ocorreram em áreas privatizadas. "Estão querendo transformar o problema técnico numa discussão ideológica", disse Madeira. Ele atribuiu o acidente a um problema técnico que não soube explicar qual era.