JORNAL DA CIÊNCIA # SBPC Edição eletrônica de 10 de agosto de 1.999 BRASIL E VENEZUELA: SIMETRIAS E PARADOXOS DA CORRUPÇÃO Joaquim Francisco de Carvalho e José Leite Lopes A Ve …


JORNAL DA CIÊNCIA # SBPC


Edição eletrônica de 10 de agosto de 1.999


BRASIL E VENEZUELA: SIMETRIAS E PARADOXOS DA CORRUPÇÃO


Joaquim Francisco de Carvalho e José Leite Lopes



A Venezuela é ricamente aquinhoada com recursos naturais e condições climáticas favoráveis para a agricultura , porém 80 % dos venezuelanos são pobres . Esse paradoxo despertou o inconformismo de líderes esclarecidos , levando-os a criar , há uns 10 anos , uma bem concatenada e por isso mesmo fortíssima Frente Patriótica , que conseguiu revolucionar o país pelo voto , derrotando um sistema pseudo-constitucional que , até então , só tinha protegido a corrupção dos governantes e alienado a soberania do país , deixando-o à mercê de elites de intermediários que , em troca de " honorários ", entregavam a grupos estrangeiros as riquezas naturais , mantendo na miséria a maioria do povo .

O Brasil , país dos mais ricos do mundo em recursos naturais , tem todas as razões para seguir caminho simétrico . Temos enormes extensões de terras férteis e clima favorável para a agricultura ; possuimos gigantescas reservas de minérios de grande valor estratégico e econômico e dispomos de uma inigualável vantagem relativa , sobre outros paises de economia comparável à nossa , representada pelas fontes renováveis de energia , particularmente o potencial hidroelétrico . Infelizmente , temos também governantes corruptos , acolitados por elites de intermediários .

Assim , não é surpreendente que o PNUD , com seus indicadores de distribuição de renda e índices de desenvolvimento humano , demonstre que , mesmo figurando entre as dez maiores economias do mundo , o Brasil abriga a maior concentração de pobres e miseráveis do hemisfério ocidental . É que nossos governantes , em vez de administrar honestamente as riquezas do país em benefício da população , preferem fazer a corretagem de sua venda a aproveitadores locais e a grupos estrangeiros .

Em nosso entender , para dar ao povo condições de aproveitar de maneira mais justa e equilibrada as riquezas naturais do país , deve-se começar pela definição de uma estratégia coerente para a estrutura física da economia , deixando de lado as atuais políticas financeiras , monetárias e fiscais , cujos efeitos , no campo social , têm-se revelado devastadores . E a prioridade absoluta deve ser atribuida à educação , começando pelo ensino primário , médio e profissionalizante e indo até as mais avançadas atividades de pesquisa científica e tecnológica , em instituições de ensino superior .

Mas os atuais mandatários não pensam assim . Sua prioridade parece ser o enriquecimento escandaloso de intermediários e banqueiros , pouco lhes incomodando a miséria do povo . A privatização do sistema elétrico ilustra nossa afirmação . Os argumentos do governo , a favor da privatização , são de que o Estado não tem recursos para expandir o sistema , e de que a receita da privatizção serviria para abater o deficit público e liberar recursos para programas sociais , como educação , saúde pública e segurança . Ocorre que a privatização não expande coisa alguma , pois resume-se em entregar a grupos privados (em geral estrangeiros) , aquilo que já existe e funciona muito bem . E os fatos mostram que o Brasil tem perdido muito com as privatizações . Nos últimos cinco anos , a dívida interna saltou de R$ 60 bilhões para R$ 480 bilhões , o endividamento externo passou de US$ 120 bilhões a 250 bilhões , a saúde pública , o ensino básico e a pesquisa científica carecem de recursos , os índices de desemprego são desumanos , o valor aquisitivo dos salários amesquinha-se e a violência é assustadora . Entretanto as remessas de lucros , que eram de US$ 700 milhões , passaram a sangrar o país em US$ 7 bilhões , por ano .

Se apenas uma fração da quantia que o governo dissipou no PROER fosse destinada a um programa de saneamento de estatais do setor elétrico , arruinadas por administradores corruptos e incompetentes (dentre os quais estão vários néo-privatistas) , aquelas recuperariam sua capacidade de expandir o sistema e tudo estaria resolvido .

É inaceitável que as autoridades do Ministério de Energia e do BNDES contrariem a opinião unânime de especialistas dos mais respeitados , retalhando o sistema elétrico , para entregá-lo à exploração estrangeira , desprezando o fato de que eletricidade é um fator vital para tudo e que portanto , como todos pagam tarifas , se privatitizarem o sistema , cometem a grave injustiça de concentrar , nas mãos de grupos privilegiados , parte da renda de toda a economia , arrecadada por meio do sistema elétrico , que foi construido com dinheiro do povo e , para gerar eletricidade , utiliza a água que corre nos rios brasileiros .

Enfim , tudo indica que a perene crise em que vivemos , tristemente refletida na misériado povo , é eminentemente política . Os três poderes da República já não são dignos do respeito da sociedade , porém , inexplicavelmente , os homens públicos honrados que percebem a situação e são muitos não conseguem se articular , para concatenar um movimento semelhante ao venezuelano . Seria por falta de lideranças capazes de motivar o povo , para aglutiná-lo em torno de um projeto coerente ?

Um traço comum nos políticos que , de algum modo , poderiam contrapor-se ao descalabro implantado pelo Sr. Fernando Henrique Cardoso , é um certo temor de apresentar idéias que possam contrariar interesses de banqueiros e grupos econômicos poderosos . A impressão que se tem é a de que , se chegassem o poder , não teriam vontade política nem idéias para agir diversamente do atual governo , mesmo sabendo que este atraiçoou o povo e está levando o Brasil ao naufrágio .

Aquí , a bem da verdade e da justiça , temos que abrir uma exceção para o governador do Rio Grande do Sul , Sr . Olívio Dutra , que teve , por um lado , a dignidade de se opor a um projeto ruinoso para seu estado e , por outro , o descortínio para perceber que investimentos na agricultura , na agro-indústria e nas pequenas e médias empresas , são muito mais eficientes para gerar e distribuir riquezas , do que uma multinacional que , reaproveitando máquinas já depreciadas na matriz , obteria incentivos e financiamentos provenientes de recursos públicos , para montar automóveis que já são produzidos em outras regiões . De resto , no tocante a tansportes , governantes esclarecidos deveriam pensar em transportes coletivos e em malhas rodoviárias e ferroviárias , urbanas e interurbanas . Não em negócios com multinacionais , que preferem a redução do Estado e a livre iniciativa .




Joaquim Francisco de Carvalho foi coordenador o setor industrial do ministério do planejamento , engenheiro da CESP e diretor da NUCLEN (atual ELETRONUCLEAR) . Atualmente é consultor no campo da energia e membro do conselho consultivo do ILUMINA . José Leite Lopes foi, por 15 anos , professor titular de física atômica da Universidade Louis Pasteur , de Estrasburgo (França), da qual é hoje professor emérito. É também pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas .

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