NO LIMITE III
ou… Andando na Beirada do Precipício
Parece que o governo resolveu fazer concorrência ao famoso programa, e "inscrever" todos os consumidores nessa aventura. Senão vejamos;

A figura ao lado mostra a evolução recente da energia armazenada nos reservatórios do Nordeste. O último dado disponível no site do ONS, do dia 23 de novembro informava que apenas 7,5% da reserva máxima dos reservatórios estava guardada para o futuro.
O que quer dizer essa percentagem? A armazenagem máxima nos reservatórios do nordeste é de aproximadamente 50.000 MWmes. Aproximadamente 36.000 GWh. No atual nível de consumo, essa reserva seria equivalente a 1 ano de consumo. Apesar de toda essa potencialidade, atualmente o Nordeste só conta com 7,5% desse valor, ou 3.750 MWmes.
O consumo total da região nordeste antes do racionamento era de aproximadamente 6000 MWmes. Ou seja, caso não houvesse o plano, a atual reserva energética do Nordeste corresponderia apenas a 18 dias de consumo. Atualmente, com a colaboração do sofrido povo do nordeste, o consumo total situa-se no entorno de 4.500 MWmes. A reserva agora é equivalente à 25 dias.
Considerando a diferença dos 7,8% para a "curva guia", que, segundo o ONS é uma "curva de segurança", a diferença de apenas 2,7% é equivalente a apenas 8 dias de consumo.

Essa mesma análise para a região sudeste e centro-oeste mostra que a reserva se encontra em 22,2%. A reserva máxima desses reservatórios é de aproximadamente 176.000 MWmes e portanto ainda temos guardados 37.740 MWmes.
Em relação ao consumo da região antes do racionamento (27.000MWmes) essa reserva equivalia a 42 dias de consumo. No atual nível da carga da região (22.000MWmes) essa reserva eqivale a 51 diasde consumo.
Já em relação à curva guia, a margem de segurança é de apenas 9,5%, ou seja, energia eqivalente a 22 dias de consumo.
Vários pontos podem ser destacados nessa simples análise. É interessante examinar o significado dessa "curva guia" ou curva de segurança: Se essa curva significa um limite, uma fronteira que se quer evitar, é bom pensar um pouco sobre o que significa estar um pouco acima dela. Se o risco é preocupante ao se atingir a curva, é óbvio que esse risco aumenta gradativamente na direção da curva. Não pode ser algo repentino e descontinuo. Esse pensamento lembraria a piada do otimista que ao cair de um prédio de 30 andares, ao passar pelo 15 andar pensa consigo: "até aqui, tudo bem!".
Nós do ILUMINA já denunciamos o alto risco embutido nos critérios vigentes no setor elétrico pós privatização. Não é demais repetir:
Energia elétrica é coisa sérria! Não se pode brincar! É um insumo essencial de toda a economia e é a base da modernidade. Não há possibilidade de progresso sem ela. Não há como construir uma usina da noite para o dia! Portanto, quando pagamos a tarifa, estamos pagando também pela segurança. Com energia elétrica não queremos estar no "programa No Limite"!
E a tarifa que se cobra no Brasil de FHC, uma das mais altas do mundo (*), é mais do que suficiente. Em 1993, sob orientação do Banco Mundial as tarifas foram realinhadas de tal modo a garantir que investimentos fossem viáveis. E eram! Sob a espectativa de retorno de capital em empresas estatais bem geridas! Quando o capital é privado, internacional e suscetível à riscos de países subdesenvolvidos, a conversa é outra. As expectativas de retorno são bem mais vorazes! Portanto, a "reserva", a "poupança energética", que supunhamos mantida, nos foi surrupiada. E o pior! Ficou tudo por isso mesmo! Ainda nos ameaçam de cortes e sobretaxas.
Portanto, as atuais alterações das metas de racionamento devem ser analisadas sob esse ponto de vista. Energéticamente, ainda estamos todos "No Limite". O Nordeste, é a vítima que mais corre riscos!
É bom não esquecer que ano passado as afluências de novembro e dezembro foram boas e depois o início de 2001 secou! Esse "drible" da natureza levou ao governo FHC, viciado apostador, a colocar o país sob racionamento e depois afirmar que fora pego de surpresa. Se a mesma situação se repetir, que fique claro que desta vez não dá para contar com mais economia por parte da população.
Imaginem o risco!
Atenção: Não estamos dizendo que a diferença da reserva para a curva guia significam que nos restam apenas poucos dias de consumo, como noticiou o JB! Estamos dando uma informação indireta do nível de risco que corremos vis a vis o alto nível tarifário que se paga.
(*) Com o último reajuste de tarifas ( que apenas inaugura uma série que ainda virá ), estamos com um nível tarifário equivalente às cidades mais carras do mundo. A tarifa residencial beira os US$ 100/MWh, impostos excluídos!