O GLOBO 16.01.98
Márcio Moreira Alves
alves@rudah.com.br
Angra I
Fiz uma previsão pessimista na primeira coluna deste ano: corremos o risco de ter um acidente na usina de Angra I porque a transferência das responsabilidades pela sua operação de Furnas para a Nuclen, Eletronuclear agora, não garante os recursos para a sua operação, o funcionamento da usina tem problemas técnicos e a sua direção obedeceu a ordens brasilienses, despedindo aposentados que trabalhavam no setor de segurança.
Rogo a Deus que esteja errado. No entanto, os argumentos que a direção da empresa apresenta para tranqüilizar os meus e os receios dos leitores não me tranqüilizam. Ao contrario: negam evidências e passam informações erradas, ao invés de encararem o problema francamente. Escreveu o sr. Luís Soares, superintendente de Relações Institucionais da Eletronuclear:
“A demissão de funcionários aposentados ocorreu por determinação legal e, para não comprometer a segurança operacional da usina, a empresa de imediato recontratou aqueles essenciais à operação de Angra I.
“A água que circula no reator ( circuito primário) não entra em contato com a água que passa nos tubos do gerador de vapor (circuito secundário) e esta, por sua vez, não tem absolutamente nenhum contato com o meio ambiente; portanto, não há risco de contaminação devido à presença de produtos de fissão na água de refrigeração do reator.
“O atual ciclo, que se iniciou a 4 de dezembro de 97, está previsto encerrar-se a 7 de outubro de 98, com a usina devendo operar a uma potência média de 72%. Portanto, é incorreto afirmar que os elementos combustíveis só poderão ser utilizados por 80 dias.
“Gostaríamos de ressaltar que no ciclo anterior, iniciado a 17 de agosto de 96 e encerrado a 6 de setembro de 97, Angra I apresentou um excelente desempenho operacional, alcançando um fator de disponibilidade de 95,8%, o que significa que a usina operou praticamente com a sua potência máxima durante todo o ciclo.
“Cabe registrar que o dr. Ronaldo Fabrício, presidente da Eletronuclear, trabalha no setor elétrico desde 1958, tendo ocupado inúmeros cargos gerenciais e de direção, entre esses os de diretor e presidente de Furnas.”
Começando pelo fim: fazer contas não parece ser o forte da Eletronuclear. Se contarmos apenas os períodos em que a usina operou normalmente, é claro que o fator de disponibilidade é alto. Mas se considerarmos as paradas por acidentes, cai drasticamente. No ano passado, Angra I foi desligada por dez dias para reparos nos tubos do condensador, nove dias por defeito na válvula de segurança do circuito primário e entre 9 de setembro e 7 de dezembro para solucionar os vazamentos nas varetas de combustível. Logo, como a usina só operou 250 dias em 1997, o seu fator de disponibilidade foi de 68,5% e não de 95,8% como a empresa afirma.
O sr. Luís Soares diz que não é verdade que os elementos combustíveis atualmente em uso só poderão ser utilizados 80 dias. Essa é, no entanto, a determinação da Comissão Nacional de Energia Nuclear, CNEN. Esses elementos são um tapa-buraco de segunda mão, porque já foram utilizados. Só que tem mais: há dias foi detectado um aumento na radioatividade da água do circuito primário da usina, o que indica novos vazamentos. Quando a radioatividade supera certos níveis, a usina tem de ser parada. Nessa hipótese, haverá um grande prejuízo para a empresa, que não tem, como tinha Furnas, recursos para cobri-lo.
Quanto aos funcionários: o que escrevi foi que o presidente de Furnas, um técnico de carreira, teve autoridade para opor-se às demissões indiscriminadas determinadas por Brasília, conservando os funcionários indispensáveis ao funcionamento, por exemplo, da usina de Porto Colômbia, enquanto que o da Eletronuclear, mais político que técnico, tratou de obedecer. Se os funcionários que recontratou custam mais ou menos que antes é irrelevante. Importa saber é como ficou a segurança de Angra I durante o período entre a demissão e a recontratação dos técnicos.
O dr. Ronaldo Fabrício, presidente da empresa, pode ser um cidadão exemplar e um excelente pai de família. Mas a sua carreira nada tem a ver com a gestão ou a operação de uma usina nuclear. Foi prefeito biônico de Niterói nomeado pelo almirante Faria Lima, com o apoio do general Silvio Frota, diretor administrativo de Furnas numa cota partidária, e presidente da companhia num mandato tampão de dez meses. Tudo bem. É a regra do jogo político. Na construção de Angra I foi responsável pelas obras civis da vila habitacional dos funcionários.
Tantas dúvidas justificariam não só uma auditoria técnica independente em Agra I como a inclusão de verbas de contingência no Orçamento para que uma empresa financeiramente frágil como a Eletronuclear pudesse fazer face a despesas de emergência. E, ao mesmo tempo, parar de tapar o sol com peneira.