O PLANEJAMENTO VOLTADO PARA A EFETIVA DEMANDA DE ELETRICIDADE Joaquim Francisco de Carvalho O modelo atualmente empregado no planejamento do setor elétrico brasileiro é essencialmente voltado para a oferta. Por outras pal …

O PLANEJAMENTO VOLTADO PARA A EFETIVA DEMANDA DE ELETRICIDADE

Joaquim Francisco de Carvalho




O modelo atualmente empregado no planejamento do setor elétrico brasileiro é essencialmente voltado para a oferta. Por outras palavras, o planejamento baseia-se na projeção de tendências passadas e de intenções relacionadas à implantação de novos projetos que poderão consumir grandes blocos de energia. A partir do mercado potencial assim projetado, constroem-se obras para expandir a oferta de eletricidade, sem questionar em que medida essas obras contribuirão para melhorar o padrão de vida da sociedade.

Tal metodologia provoca distorções que poderiam ser evitadas mediante a adoção de um modelo baseado na demanda, ou seja, num modelo em que a estimativa do futuro mercado de energia comece pela identificação e avaliação das reais necessidades de bens e serviços, para que a sociedade atinja os níveis de qualidade de vida desejados. Em função disso dimensiona-se a potencial demanda de eletricidade em cada setor envolvido na produção desses bens e serviços para, só então, planejar-se a expansão do sistema elétrico e programarem-se as obras.

Além de sua importância para a produção dos bens e serviços demandados pela sociedade, os novos projetos industriais, comerciais e outros, teriam sua utilidade pública avaliada também por meio de parâmetros especiais, como a criação de empregos permanentes, e o valor da produção, por unidade de eletricidade consumida. Em função dessa utilidade é que seria então atribuída a tais projetos a respectiva a prioridade, para receber energia gerada em unidades que utilizam recursos naturais que pertencem a toda a sociedade, como o potencial hidroelétrico. Para adotar este modelo, é óbvio que o Estado não pode alienar a geração (nem a transmissão) de eletricidade.

Naturalmente, o processo de atribuição de prioridades deve ser objeto de ampla consulta à sociedade, através de mecanismos transparentes, que tornem visíveis os benefícios e os custos de cada projeto, inclusive os custos ambientais. A título ilustrativo, a tabela a seguir indica, para alguns segmentos industriais, os valores (em dólares de 1986), dos mencionados parâmetros (os valores indicados correspondem à média entre Canadá, França, Itália, Grã Bretanha, Alemanha e Japão).



Segmento Industrial



Num de empregos por GWh



US$ por kWh



Texteis e Confecções



117



1,4



Indústria madeireira



112



2,0



Mecânica



111



2,7



Alimentos e bebidas



60



1,9



Celulose, papel e papelão



40



0,9



Min. Não metalicos



30



0,7



Quimica



16



0,6



Metalurgia



12



0,3





Apud Ramos, F. – A Crise do Setor Elétrico e a Política de Exportação de Metais Básicos (Mímeo)


A análise desse quadro indica que uma estratégia eficiente para se diminuir o coeficiente eletricidade/produto (com o objetivo de gerar mais renda, com menos eletricidade) seria, simplesmente, estimular projetos que apresentem altos coeficientes de valor da produção por unidade de eletricidade consumida, e desestimular o oposto; sem prejuízo, evidentemente, dos programas de conservação de energia.

Com vistas à preservação ambiental, que é uma preocupação crescente da sociedade, deve-se procurar reduzir ao mínimo as deseconomias dos impactos ambientais decorrentes da produção e uso da energia, planejando uma oferta racional de bens e serviços, em termos per capita, capaz de satisfazer às necessidades da sociedade, assegurando padrões adequados de qualidade de vida, sem agredir irreversivelmente os ecossistemas atingidos.

É importante assinalar que a produção é uma função direta dos materiais (ou matérias primas), da energia e da informação (ou tecnologia), isto é: p = f (M, E, I). Portanto, para se aumentar a produção, usando menos energia (e, eventualmente, menos materiais), deve-se elevar o nível de informação, ou seja, o conteúdo tecnológico dos bens e serviços produzidos.

Nos países industrializados esta interdependência tem possibilitado aperfeiçoamentos na maioria das instalações industriais que consomem energia, para transformar um input de materiais, num output de produtos. Em indústrias de processo contínuo, como as de metais, celulose e papel, vidro, cimento, produtos químicos, etc., a instalação de sensores e transdutores em determinados pontos de medida, ligados a microprocessadores e atuadores, permite aproximar o fluxo real, de modelos teóricos otimizados, de modo a ter-se o máximo de produção, com o mínimo de energia e de materiais.

O mesmo vale, com as devidas adaptações, para produções em série, que envolvam operações de soldagem, montagem, pintura e acabamento. Depreende-se daí que o progresso tecnológico pode permitir aos países em desenvolvimento seguirem, em seus processos de industrialização, por caminhos menos energy intensive que os percorridos pelos países que hoje são industrializados.

Aqui chegamos à questão da tecnologia. Atualmente o Brasil investe apenas cerca de 0,6% do PIB em tecnologia. É necessário aumentar esse investimento. Mas não de maneira desordenada, o que representaria apenas mais um desperdício. O esforço tecnológico deve concentrar-se em áreas indicadas pela própria demanda, criada pelo desenvolvimento industrial orientado segundo os parâmetros de um desenvolvimento energético e industrial integrado. (Sem descurar da pesquisa básica, que é a fonte de toda a tecnologia. Mas este é outro assunto).

Um programa de desenvolvimento industrial-energético, integrado de acordo com os princípios acima sugeridos, constituiria um bom começo para o processo de modernização da economia brasileira, entendendo-se por modernidade, neste caso, a capacidade de aplicação simultânea de tecnologias tradicionais, ou rotineiras, com tecnologias novas, com o objetivo de atender às demandas da sociedade, e elevar o nível de qualidade de vida.


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Joaquim F. de Carvalho é consultor no campo da energia.

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