O que é a CAR e seu significado para o SIN


O ILUMINAesclarece o significado prático da notícia abaixo:


A NOTÍCIA


O Operador Nacional do Sistema Elétrico divulgou as notas técnicas que tratam da revisão das CAR-Curvas Bianuais de Aversão ao Risco 2009/2010. Os novos níveis de armazenamento de segurança foram aprovados no mês passado pela Agência Nacional de Energia Elétrica, através da resolução 364/2009.



O ESCLARECIMENTO DO ILUMINA


A CAR-Curva de Aversão ao Riscoé produzida e utilizada pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Interligado Eletro-energético Brasileiro) para conduzir a “administração” no dia-a-dia da oferta de energia elétrica, visando atender à demanda do SIN (Sistema Interligado Nacional), objetivando evitar que, em algum momento da operação do SIN ocorram riscos de déficit.


A CAR foi criada após se constatar em 2001 que era inevitável entrar em racionamento de energia elétrica no Brasil, por falta de energia armazenada nos reservatórios da hidrelétricas então existentes, em quantidade suficiente para atender à demanda do SIN à época.


Quando se utilizaa expressão “sem que ocorram riscos”, o mais correto seria falar em “sem que os riscos de déficit excedam um valor considerado aceitável, dentro do modelo institucional do Setor Elétrico Brasileiro”.


O nome da CAR já dá uma boa pista do que ela significa: “aversão ao risco” significa evitar o risco. Ou seja, é um parâmetro utilizado pelo ONS na operação diária do SIN de modo a evitar-se riscos maiores do que os aceitáveis.


Assim, com base na CAR, o ONS “administra” a energia de origem hídrica na produção do “mix” energia hídrica + térmica, mantendo ao longo do tempo uma margem de segurança em relação aos níveis de armazenamento de energia mínimos que devem ser guardados nos reservatórios. Estes níveis mínimos são definidos pela CAR.


Tanto a CAR quanto as margens de segurança operativa adotados são estabelecidos com base nas previsões meteorológicas de curto e médio prazos feitas para os 4 sub-sistemas em que o SIN é dividido (Sul, Sudeste/Centro Oeste, Nordeste e Norte).


Com base neste procedimento, o ONS propõe esta estratégia operativa para o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), que referenda tal procedimento, autorizando o ONS a adotá-lo na prática. Este procedimento operativo e a própria CAR podem sofrer revisões periódicas.


Cabe esclarecer que ao longo do tempo, com a evolução da demanda e da oferta de energia elétrica no SIN, na atualidade a capacidade de armazenamento de energia dos nossos reservatórios equivale a aproximadamente 6 meses de carga do sistema interligado. Ou seja, se, por absurdo, os rios brasileiros secassem, os reservatórios, cheios, seriam capazes de fornecer energia por mais ou menos 180 dias.


Esse armazenamento de energia no SIN já foi muito maior. No início da década de 80, chegava a 24 meses. Evidentemente, de lá para cá, a carga aumentou enormemente e a capacidade de reserva estagnou em função da dificuldade de se construir desde então novas usinas com grandes reservatórios.


O fato de termos um clima tropical no Brasil também implica variações da chamada “energia natural afluente”, que tem relação direta com a vazão verificada nos rios onde há reservatórios de hidrelétricas. Estas variações na energia natural afluente são muito maiores do que nos rios dos países do hemisfério norte.


Grosso modo, no sistema sudeste e centro-oeste, a relação entre a maior e menor energia natural afluente é de 3:1. No sul, é muito maior, de 6:1. No norte, ainda mais, de 7:1. Qual o significado disso? Em primeiro lugar, é ótimo que tenhamos reservatórios grandes, construídos no passado, pois seria um desperdício se não tivéssemos lugar para guardar toda essa água que chega, sem ter como utilizá-la na produção de energia elétrica no momento em que ela está entrando nos reservatórios.


Por conta disso, apesar da clara opçãodo Ilumina pelahidroeletricidade, concordamos que não é prudente prescindir da energia de origem termelétrica em situações específicas. Podemos discutir o custo; o mérito da “energia primária” para esta geração termelétrica (biomassa, GN, nuclear, óleo combustível, diesel, etc); aproporção de seu uso, além da contribuição para o aumentodo efeito estufa, mas quanto à sua necessidade, não há como responsavelmente defender o contrário.


Isso nos trouxe vantagens, mas também um enorme dilema: devido à enorme variação de capacidade de oferta, devemos guardar ou usar a água?


Se a decisão é guardar, arrisca-se a jogá-la fora se chover mais do que o esperado. Se usar muita energia armazenada nos reservatórios, pode-se passar por dificuldades futuras, se chover menos do que o que se previu.


Para resolver esse problema criou-se toda uma complicada metodologia de tratamento probabilístico de avaliação no presente das “conseqüências futuras” desta decisão. Adotou-se no modelo do setor elétrico brasileiro um operador nacional do sistema (ONS), que centraliza as decisões para otimizar o sistema, tal qual fosse ele o dono único de todas as usinas da rede.


O estabelecimento da metodologia que criou a CAR acaba afetando também os preços de curto prazo da energia elétrica no SIN. Estes preços são definidos pelo Custo Marginal de Operação (CMO).


O CMO é o “preço” pelo qual o operador (ONS) decide guardar ou usar água. O CMO, que é o preço de curto prazo do mercado de energia elétrica, surge de um modelo computacional, tratando-se de um preço monopolístico por força da natureza do sistema.


A distribuição de probabilidades do preço de curto prazo mostra que há muito mais chances de ocorrência de valores irrisórios do que preços altos, mesmo quando há insuficiência de oferta, Basta chover muito! Assim muitos consumidores do chamado mercado livre utilizam-se desta “aposta” para tentar reduzir o custo da energia elétrica que consomem em seus processos produtivos.


Por conta do acima exposto, nosso sistema geração-transmissão tem fortes características de monopólio natural. Isso explica a existência de um operador nacional, uma só metodologia e um acordo de mercado.


As simulações que determinam o CMO e também a chamada “energia assegurada” são feitas através da utilização de uma programa super-sofisticado, chamado New-Wave (aliás desenvolvimento tecnológico totalmente brasileiro, diga-se de passagem). Pois este programa simula “estocasticamente” (o que quer dizer, mais ou menos, “estatisticamente”, de uma forma mais elaborada) as vazões futuras. São duas mil séries de vazões, ou seja, o equivalente a termos um histórico de vazões de 2.000 anos. Para se ter uma idéia de quão poderosa é esta ferramenta computacional, temos hoje em dia cerca de 75 anos de registro histórico de vazões hidrográficas, e mesmo assim de apenas alguns rios, não de todos.


HISTÓRICO DA CAR


Vale a pena começar do início da história que a originou, e retornar aos acontecimentos da época do racionamento de 2001-2002: No bojo daquela situação adversa, foi criada a Câmara de Gestão da Crise de Energia (CGE), e a partir deste órgão de gerenciamento da crise energética foi implantada a chamada Curva Bianual de Aversão ao Risco (CAR). ( Resolução CGE nº 109, de 24/01/2002).


O objetivo da CAR foi justamente o de criar um “monitoramento” da disponibilidade energética do sistema interligado nacional (SIN), para evitar-se que, dali para frente, ele pudesse entrar novamente numa situação de descompasso entre oferta e demanda tão crítica quanto aquela de abril de 2001, na qual havia apenas uma única medida a ser adotada: o racionamento.


Adicionalmente, naquela ocasião foi também determinado pela CGE que o Ministério de Minas e Energia, a Agência Nacional de Energia Elétrica e a Agência Nacional de Águas, em conjunto com o ONS, deveriam definir também um mecanismo de aversão a risco de racionamento para ser incorporado internamente aos modelos computacionais de otimização eletro energética usados para a operação do sistema. Entretanto, segundo a própria ANEEL, até hoje não se obteve uma metodologia para este fim validada por todos os interessados e homologada pela Agência Reguladora. Em outras palavras, das determinações da CGE, até hoje, restou apenas a CAR.


Então, a partir da Resolução CGE 109, anualmente cabe ao ONS elaborar a CAR para os dois anos seguintes, para cada um dos quatro sub-mercados do SIN. em consonância com o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), e submetê-las à aprovação da ANEEL.


Deve ser ressaltado, porém, que na prática a Curva Bianual de Aversão ao Risco traduz apenas uma visão de curto prazo (dois anos), cuja finalidade básica é “denunciar” e deixar explícita uma eventual situação de iminência de crise para o sistema hidrelétrico, de modo que se possa tempestivamente acionar os recursos termelétricos disponíveis, gerando energia mais cara, com vistas à superação das dificuldades imediatas.


Por isso é uma necessidade permanente que, de tempos em tempos, se promovam estudos aprofundados para apurar as causas reais das possíveis vulnerabilidades que o sistema eletro energético brasileiro possa apresentar, viabilizando a formulação das necessárias propostas de correção do atual modelo.


Observando-se o gráfico da CAR da Região SE/CO, de janeiro de 2008(que infelizmente não temos como reproduzir),vê-se que< />a curva de armazenamento “furou” a CAR indicando uma situação de risco energético para o SIN. Por conta disso, o ONS decidiu produzir muita energia de origem termelétrica (a gás natural, carvão e óleo combustível) para evitar o aprofundamento do risco. Já em Março, por conta das chuvas e da operação das termelétricas, o armazenamento voltou a superar a CAR, saindo gradativamente da condição de risco de déficit futuro maior do que o que é considerado aceitável no modelo do setor elétrico brasileiro.


Como as termelétricas têm um custo de produção de energia elétrica bem maior do que as hidrelétricas, as contas dos consumidores em 2009 sofreram um reajuste significativo para pagar o chamado despacho térmico elevado do início de 2008.






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