Países firmam acordo para reator de fusão nuclear
Desafio aos pesquisadores é reproduzir em laboratório o que ocorre no centro do sol.
O Iter, que será feito pela UE e por mais seis países, visa energia limpa e abundante
Reator tentará realizar o sonho de domar o mesmo tipo de energia que move as estrelas; seu núcleo será mais quente que o do Sol
STEVE CONNOR, do “INDEPENDENT”, FSPaulo
O sonho da energia limpa e ilimitada ficou um passo mais próximo ontem, com a assinatura de um acordo internacional para construir o maior reator de fusão nuclear do mundo, que quer domar a mesma energia que movimenta o Sol.
A União Européia e mais seis países concordaram em gastar cerca de 10 bilhões (R$ 28 bilhões) nos próximos 20 anos para construir o Iter (Reator Termonuclear Experimental Internacional, na sigla em inglês), em Cardarache, França.
O acordo entre UE, China, EUA, Índia, Japão, Coréia do Sul e Rússia para tirar do papel o megarreator de fusão nuclear (cujo acrônimo também significa “o caminho”, em latim) foi assinado ontem no Palácio do Eliseu, em Paris.
“A carência cada vez maior de recursos e a luta contra o aquecimento global exigem uma revolução no nosso modo de produção e consumo”, disse o presidente francês, Jacques Chirac. “Temos o dever de começar a pesquisa que preparará soluções energéticas para nossos descendentes.”
O Iter levará oito anos para ser concluído e é o primeiro experimento com fusão nuclear feito para produzir mais energia do que consome. Seus proponentes esperam que ele dê origem a reatores comerciais que possam entrar no mercado em 30 ou 40 anos.
A fusão nuclear é um sonho antigo dos cientistas, pois promete produzir energia virtualmente sem resíduos nocivos. A reação só precisa de pequenas quantidades de água do mar e lítio -um mineral abundante- como matérias-primas, e não produz gás carbônico ou outros gases de efeito estufa.
A fusão produz energia quando átomos de hidrogênio colidem sob pressão e temperatura extremas (o núcleo do reator é várias vezes mais quente que o centro do Sol).
Diferentemente de reatores de fissão nuclear, que produzem lixo radioativo pelo combustível gasto, a fusão nuclear geraria apenas pequenas quantidades de material moderadamente radioativo, que decairia para níveis seguros de radiação em um século.
No entanto, até mesmo a previsão mais otimista sugere que a fusão não deverá ser uma fonte rotineira de energia nos próximos 50 anos.
Diplomacia
A idéia do Iter surgiu em 1985, mas as negociações sobre onde construir o reator experimental (se no Japão ou na França) ficaram muito tempo travadas. No ano passado, foi decidido que a cidade de Cardarache, na Provença, seria o local da construção -mas um japonês, Kaname Ikeda, será seu primeiro diretor-geral, e a maior parte dos componentes do reator virá do Japão.
O Brasil foi convidado a integrar o projeto, como sócio com direito a participação em patentes eventualmente geradas pelo experimento. Recusou devido à cota de entrada, alta demais, mas montou no começo do mês uma rede de pesquisas em fusão que deve permitir alguma participação nos experimentos, no futuro. Cientistas brasileiros poderão integrar o Iter em parceria com Portugal, que é sócio do projeto.
Martin O’Brien, gerente do programa de fusão do Reino Unido, disse que o Iter será oito vezes maior que o JET, hoje o maior reator de fusão do mundo, montado na Inglaterra.
Os experimentos no JET conseguiram produzir fusão por alguns segundos, mas ainda assim eles usaram mais energia para esquentar o gás dentro do reator do que o que foi produzido no processo. “O ganho de escala significa que, quanto maior a máquina, mais energia sai dela do que entra”, disse O’Brien.
FUSÃO NUCLEARNO SOL- é o processo no qual o SOL produz luz e calor. No centro do sol na temperatura de 10 a 15 milhões de Graus Celsius, ocorre a fusão dos íons de hidrogênio, que libera energia e cria o gás hélio.
FUSÃO NUCLEAREM LABORATÓRIO – ocorre quando a temperatura ultrapassaos 100 milhões de graus Celsius. Nesse ambiente a corrente gasosa se transforma em plasma ionizado, alimentando o processo. As turbinas que geram eletricidade são movidas pela transferência de calor da água.
COMBUSTÍVEIS LIMPOS E ABUNDANTES – Lítio, deutério, trítio e resíduos (hélio e outros).