OPINIÃO DO LEITOR Ao ILUMINA Gostaríamos de aproveitar a oportunidade e dar a nossa opinião, e o nosso testemunho, quanto ao que o Instituto ILUMINA se propôs a fazer, por ocasião da sua cria&ccedi …

OPINIÃO DO LEITOR





Ao ILUMINA


Gostaríamos de aproveitar a oportunidade e dar a nossa opinião, e o nosso testemunho, quanto ao que o Instituto ILUMINA se propôs a fazer, por ocasião da sua criação, e o que efetivamente tem feito nestes nove meses de existência, pelo que temos acompanhado. Por volta de outubro de 96, um pouco após o ILUMINA ter sido criado, e atendendo a um convite para apresentar um artigo sobre Furnas, produzimos um texto sob o título "Furnas e o vôo dos pássaros" (transcrito abaixo) que foi colocado na home-page do ILUMINA na seção "Sua Opinião".


Nesse artigo colocamos a nossa visão sobre o que a empresa Furnas representou e representa de bom para o País, e, também, como achamos que ela deveria continuar existindo; não para atender meramente a interesses corporativos de funcionário como nós – argumento, aliás, muito apreciado por aqueles adversários ideológicos da empresa estatal – mas por acreditarmos que seja a melhor forma de atender aos interesses do País e de sua população.


E podemos dizer que acreditamos nisso porque conhecemos profundamente a empresa no que ela fez pelo desenvolvimento industrial e tecnológico do País durante a sua existência, ao trabalhar para produzir mais e melhor a energia elétrica que alavancou todo esse processo, sempre superando os desafios técnicos e empresariais que lhe foram colocados pelos governos, desde JK até os dias de hoje


Como já foi dito em publicações anteriores do ILUMINA, este nasceu da idéia de que "é cada vez mais importante garantir que o serviço de eletricidade seja prestado com qualidade e preço justo, fruto de atividade empresarial que considere o controle e a gestão pública, tendo o consumidor como referência, além de garantir a expansão da oferta de energia elétrica com desenvolvimento tecnológico para o País, preservação ambiental e respeito aos seus recursos humanos.

Para que isso aconteça, sabemos que empresas como Furnas precisam ser preservadas no que elas têm de melhor, conforme ressaltamos no nosso artigo "Furnas e o vôo dos pássaros". E o ILUMINA também sabe disso. Apesar do que alguns insinuam por aí, o ILUMINA não foi criado para defender Furnas – ou para beneficiar uns poucos a partir da privatização de Furnas – mas sim para defender esta empresa que todos construímos, e que queremos manter produzindo mais e melhor para o usufruto de todos os brasileiros. Sabemos que podemos contar com o ILUMINA nesta luta em defesa de Furnas. Podemos afirmar isto, já que os objetivos básicos do trabalho do ILUMINA se identificam totalmente com a empresa que queremos preservar e manter viva.


Assim, temos a certeza que o ILUMINA está pronto para dar continuidade a esta luta contra essa privatização que o atual governo está querendo fazer com Furnas, juntamente conosco e com todos aqueles que acreditaram e acreditam nesta empresa. Há outras formas de obter recursos financeiros para a tão necessária expansão do setor elétrico, sem ser retalhando e destruindo empresas como Furnas. Nós sabemos disso. O ILUMINA sabe disso. E o ILUMINA está se preparando para apresentar alternativas à privatização que estão querendo, ou tentando, fazer com Furnas.


O processo que aconteceu recentemente com a Cemig é prova de que há maneiras e maneiras de se obter recursos para financiamento de novas obras. Só que podemos fazer mais e melhor, de forma a garantir os recursos para a expansão do setor elétrico, preservando a capacitação técnica e empresarial, a sinergia e a capacidade que Furnas tem de superar desafios, para atingirmos àquelas metas que o ILUMINA preconiza, e que nós sabemos serem as que melhor atendem aos interesses do País.


O modelo que estão tentando impor ao Setor Elétrico brasileiro (Modelo competitivo em lugar do modelo cooperativo), é o que considera a energia elétrica como uma simples "commoditie", sujeita meramente às leis de mercado e aos interesses empresariais de buscar o máximo retorno no menor tempo possível em relação ao capital investido, saindo de cena as características do modelo institucional cooperativo (busca do ótimo global, do planejamento centralizado e da operação integrada). As privatizações ocorridas com a Escelsa, Light e Cerj já deram mostras do que o modelo competitivo pode produzir para a população, com aumentos de tarifas muito acima da inflação e degradação da qualidade de suprimento.


E o ILUMINA vem alertando a todos quanto a essas consequências, produzindo estudos e trabalhos sobre, por exemplo:

– a questão da cisão da área nuclear de Furnas;

– o que é uma empresa-cidadã;

– o tamanho que uma empresa de geração regional do setor elétrico deve ter para tornar viável o processo de financiamento da expansão do setor em uma conjuntura diferente das que existiram no passado

– as consequências da privatização das distribuidoras do Espírito Santo e Rio de Janeiro


Todos esses trabalhos e estudos estão à disposição do público na "home-page" do ILUMlNA.


Este é o depoimento que gostaríamos de dar antes de apresentar uma transcrição revisada do artigo "Furnas e o vôo dos pássaros", escrito em Outubro de 96 e então enviado ao Ilumina, mas ainda atual nas preocupações que procura levantar.


23.06.97


Paulo Cesar Fernandez e Cesar Ribeiro Zani (engenheiros com formação em sistemas elétricos de potência pela EE/UFRJ e trabalhando em Furnas desde 1981 e 1978 respectivamente)




FURNAS E O VÔO DOS PÁSSAROS


Cesar Ribeiro Zani e Paulo Cesar Fernandez


A maioria das pessoas já deve ter notado que muitos pássaros que migram por longas distâncias voam em uma formação em " V ", ou em cunha, como se costuma dizer. Você sabe por que estes pássaros voam nesta formação?


É que a formação em " V " ajuda os pássaros a economizar energia para voar. O líder da formação reduz a resistência do ar para os demais e, além disso, cria uma turbulência que facilita a sustentação do vôo dos outros. Quando o líder se cansa, ele é substituído por outro mais descansado.


Assim, voando nesta formação cada um dos pássaros gasta menos energia do que se voassem sozinhos, tornando o seu empreendimento (vôo de migração nesta formação) muito mais eficiente.


E o que FURNAS tem a ver com o vôo destes pássaros?


Bem, acontece que estes pássaros usam intuitivamente o conceito de um fenômeno existente na natureza chamado de "sinergia".


No dicionário do Aurélio podemos encontrar a seguinte definição para sinergia: 1 – ato ou esforço coordenado de vários órgãos na realização de uma função; 2 – associação simultânea de vários fatores que contribuem para uma ação coordenada; 3 – ação simultânea em comum.


Assim, o conjunto ou sistema em questão gasta, em termos globais, menos energia do que as partes ou indivíduos isoladamente para realizar o mesmo empreendimento.


O que estes pássaros sabem instintivamente, os donos de um grande banco privado brasileiro sabem conscientemente, tanto que apresentaram a seus clientes a notícia da incorporação de um outro ex-grande banco da seguinte forma: "Trata-se da união de dois dos mais tradicionais bancos do País. Com ela o cliente ganha uma rede mais ampla de agências e muito mais comodidade, além das vantagens resultantes da notável sinergia do negocio".


O informe contendo este texto divulgado pela direção do conglomerado bancário, formado a partir desta incorporação, encontra-se exposto em suas agências.


É que os donos deste conglomerado bancário sabem muito bem que, ao contrário do que muitas vezes se propala aos quatro ventos pela mídia, só sobrevivem em ambientes altamente competitivos ou concorrenciais as empresas ou os empreendimentos que apresentam uma alta sinergia.


No caso de FURNAS, não é necessário repetir aqui o papel fundamental que esta empresa desempenhou ao longo da sua existência, tanto para o setor elétrico brasileiro em particular, quanto para o País e o povo brasileiro em geral.


E por que foi tão bem sucedida nesta missão empresarial e de agente de fomento para o setor elétrico, que lhe foi colocada como desafio?


Em primeiro lugar, graças à excelência técnica e à dedicação do seu corpo de funcionários. Em segundo lugar, pode-se dizer que todo este trabalho que FURNAS realizou ao longo de sua história se deu em um contexto político-institucional que permitiu uma grande alavancagem para o setor elétrico brasileiro.


O aumento do parque gerador de eletricidade, que permitiu nos últimos 30 anos atender a um mercado que cresceu a altas taxas no Brasil, se deu sob um arranjo político-institucional fortemente hierarquizado e centralizado, refletindo a conjuntura política do País àquela época, conforme já se disse em publicações anteriores do INFOILUMINA.


Repetindo os números, conforme também já se disse nestas publicações anteriores do INFOILUMINA, o crescimento do parque gerador brasileiro saltou de cerca de 6 mil MW em 1960 para cerca de 57 mil MW hoje em dia, sendo um crescimento em termos de setor elétrico que tem muito poucos paralelos no mundo.


Neste arranjo político-institucional do País ao longo destes últimos 30 anos, houve uma definição clara quanto ao aproveitamento dos potenciais hidroenergéticos existentes nas bacias hidrográficas do País, vis-a-vis a instalação de um parque de geração termoelétrico. Se instituíram também fontes de financiamento adequadas para se empreender esta tarefa gigantesca, estabeleceu-se um procedimento de remuneração dos investimentos adequado às características dos empreendimentos realizados no setor elétrico, criou-se e implantou-se um planejamento centralizado da geração e da transmissão,e estabeleceu-se a operação integrada deste sistema elétrico, cada vez maior em dimensões e complexidade.


E FURNAS teve um papel muitíssimo relevante ao longo de toda esta história, como bem se sabe nos meios de alguma forma ligados ao setor elétrico brasileiro.


Porém, além dos aspectos acima mencionados quanto ao cumprimento das missões confiadas a FURNAS, colaborou também para este sucesso, como empresa e como agente de fomento de desenvolvimento social e econômico, uma característica que foi se desenvolvendo junto com FURNAS, que é justamente o crescente potencial de sinergia da mesma.


Assim, o aproveitamento de diversos potenciais hidroenergéticos, situados tanto em cascata numa mesma bacia hidrográfica, quanto em bacias diferentes, aliado ao fato de terem sido construídos com recursos financeiros captados em diferentes épocas, proporcionando diferentes depreciações e custos de geração, deu a FURNAS uma incrível capacidade de otimização global e de rentabilidade do seu "negócio".


Tudo isto não será possível daqui para a frente se FURNAS vir a ser fracionada ou pulverizada, perdendo o seu potencial de sinergia. Considerando que a evolução do ambiente econômico e institucional do setor elétrico brasileiro se dará no sentido do aumento da concorrência/competitividade, maior deve ser a sinergia do empreendimento para se lograr êxito, como bem sabem os donos do mencionado conglomerado bancário privado.


Como exemplo da característica de sinergia de FURNAS, podemos dizer que, se, por hipótese, o reator da usina nuclear de Angra I apresentar agora algum problema com os seus elementos combustíveis que obrigue a parada da usina para reparos, que seriam muito custosos e demorados, uma empresa com alto potencial de sinergia como FURNAS consegue absorver o ônus deste impacto sem muita gravidade. O mesmo certamente não se daria com uma empresa que possuísse apenas a usina nuclear de Angra I, e que não teria como suportar o impacto deste "ônus inesperado".


Agora, se FURNAS vier a ser privatizada por usina ou bacia, portanto com pouquíssimo potencial de sinergia, quem garantiria a sobrevivência destes novos "produtores independentes de energia" em períodos hidráulicos desfavoráveis, considerando-se que a regra do jogo seja a concorrência em um ambiente competitivo?


Uma das respostas já podemos adiantar: – no "mercado livre regulamentado" de compra/venda de energia elétrica que se imagina implantar, estes produtores terão que embutir no preço de venda da sua energia um risco para não quebrar em períodos de baixa hidraulicidade. Isto provocará aumento na tarifa, que já estará embutindo o custo marginal de expansão e o pedágio pelo acesso à rede de transmissão, de acordo com o novo modelo institucional que o MME está querendo ver implantado. Isto significa um aumento brutal em relação aos níveis tarifários hoje praticados.


Pelo lado dos compradores da energia destes novos produtores, terão que recorrer a um mercado "spot", para substituir a energia que estes últimos não estarão podendo fornecer. O preço da energia elétrica neste mercado "spot" em condições de baixa hidraulicidade terá valores exorbitantes. Para não quebrarem, os compradores de energia terão que repassar aos consumidores finais este preço exorbitante. Novamente, isto significa um aumento brutal em relação aos níveis tarifários hoje praticados.


Quem conseguir demonstrar que este novo modelo institucional não provocará aumentos nas tarifas de energia elétrica, parabéns. Merece o prêmio Nobel de Economia. Ou talvez o prêmio Nobel de Física, pois terá conseguido encontrar uma saída que contraria a característica de sinergia dos sistemas.


Com relação, agora, à agregação de novos aproveitamentos dos potenciais hidro-energéticos remanescentes no país, a partir de recursos financeiros oriundos da iniciativa privada no novo arranjo econômico-institucional do setor elétrico brasileiro, podemos afirmar que também só poderão ser viabilizados preservando-se ou mesmo ampliando-se a característica de sinergia de empresas como FURNAS.


Partindo–se da premissa que se quer manter o compromisso público na prestação deste serviço – fornecimento de energia elétrica – cada vez mais indispensável à sociedade, a única forma viável de fazê-lo é garantir ao capital privado a compra, por uma empresa como FURNAS, da energia gerada pelo mesmo, logicamente com uma tarifa que remunere adequadamente o seu investimento (do capital privado).


Pelo lado da empresa compradora (FURNAS, por exemplo), o custo desta energia "nova" seria então jogado no "mix" de custos da energia vendida por esta empresa, tal como é feito hoje por FURNAS.


Quanto maior a sinergia da empresa pública que ficar responsável por este processo, maior será também a capacidade de minimizar o crescimento da tarifa média ao consumidor final, uma vez que os custos de agregação de novas gerações hidroelétricas são sempre crescentes.


A capacidade do "mix" de custos de geração da empresa pública em absorver os novos custos, sempre crescentes, das gerações a serem agregadas daqui para a frente, está diretamente vinculada às características de sinergia que foram acima descritas.


Inclusive, já que se fala tanto na necessidade de redução do "custo-Brasil", cabe dizer que a perda da capacidade de "mixar" os diversos custos de geração, através da quebra da sinergia do negócio geração de energia elétrica, tal como ele se dá hoje, irá implicar pesados aumentos de tarifa e por conseguinte, para o "custo-Brasil" da indústria nacional.


Isto ocorrerá porque a quebra desta capacidade de "mixar" os custos da geração na tarifa, fracionando ou pulverizando empresas como FURNAS, irá forçar a determinação destas tarifas de energia elétrica com base no custo marginal da expansão. Se isto for feito, haverá um brutal aumento de tarifas para o consumidor final.


Tendo em vista os aspectos acima colocados, seja privatizada ou seja controlada pelo Estado, entendemos que FURNAS só conseguirá continuar tendo as condições para atender os compromissos públicos preconizados se permanecer íntegra, tal como ela é hoje, em termos de suas instalações físicas e corpo funcional.


A título de exemplificação, no "mix" do custo de geração de FURNAS entra o custo das suas usinas grandemente depreciadas, o que atualmente corresponde a cerca de 15 US$ / Mwh, enquanto o custo marginal de expansão está por volta de 50 US$ / Mwh. Já a tarifa de FURNAS "mixada" é estabelecida na faixa de 30 US$ /Mwh.


Como na composição do custo da indústria o peso do insumo energia elétrica é considerável, tendendo a ser cada vez maior, haverá acréscimos significativos nos preços dos produtos industriais brasileiros, aumentando portanto o tão em voga "custo-Brasil".


Portanto, devemos ter o cuidado de avaliar muito bem se o que temos é um dinossauro, fadado a desaparecer pela "evolução" do meio em que ele vive, ou se o que está sendo considerado maldosamente como um dinossáuro é, na verdade, um "sistema vivo" com altos níveis de sinergia, que teria totais condições de atender aos compromissos públicos que se espera de uma prestação de serviços de tal relevância como os serviços de eletricidade.


Dessa forma, entendemos que a defesa dos interesses e dos compromissos públicos na prestação dos serviços de eletricidade passa também pela observância e preservação destas características que uma empresa como FURNAS hoje apresenta em níveis elevados, estando ela sob controle estatal ou privado.


Em outras palavras, a preservação de FURNAS, tal como ela é hoje, em termos do tamanho e das características do seu sistema elétrico, é fundamental para se alcançar tais objetivos. Só será possível transformá-la em uma "empresa-cidadã", segundo definição dada pelo Betinho, preservando-se, ou mesmo ampliando-se a excelência do seu corpo funcional, bem como seu potencial de sinergia.


Agora cabe a todos que acreditamos na importância de fazer de FURNAS cada vez mais uma empresa com compromissos públicos, contribuir para tentar evitar que o setor elétrico brasileiro perca um pilar de sustentação com alto nível de sinergia para atender aos compromissos públicos na prestação deste serviço. Ou então a sociedade brasileira pagará o alto preço das consequências advindas da fragmentação de FURNAS, com a inevitável perda da excelência de seus funcionários e da sua sinergia.



Cesar R. Zani e Paulo C. Fernandez são formados em Engenharia Elétrica pela UFRJ respectivamente em 1977 e 1981. São pós-graduados em Sistemas Elétricos de Potência pela Escola Federal de Engenharia de Itajubá respectivamente em 1990 e 1995.




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