Ora, ora! Vejam a preocupação com o faturamento das distribuidoras! Esse é um exemplo da regulamentação falha do setor, Com certeza essas empresas reinvidicarão indenização do …


Ora, ora! Vejam a preocupação com o faturamento das distribuidoras! Esse é um exemplo da regulamentação falha do setor, Com certeza essas empresas reinvidicarão indenização do govêrno caso haja racionamento!.


Racionar custa caro

Gazeta Mercantil, São Paulo, 21 de março de 2001 – As concessionárias de energia elétrica já se preparam para um eventual racionamento de eletricidade. Não sabem, porém, como serão cobertos os custos da escassez, que, na pior das hipóteses, poderá provocar uma redução de R$ 1,5 bilhão a R$ 3 bilhões no faturamento global do setor. Esta será a primeira vez que as empresas privadas, com relações comerciais bem definidas entre si, podem ser obrigadas a operar em um cenário de redução brusca da oferta. ‘Queremos saber como um eventual racionamento afetará as questões operacionais, financeiras e contratuais’, diz Sheily Contenti, diretora do grupo Garaniana, controlador da Coelba, da Celpe e da Cosern, no Nordeste. As dúvidas básicas no setor são três. Primeiro, se as condições dos contratos de compra e venda de energia a longo prazo serão mantidas. Depois, se as empresas continuarão tendo que recorrer a compras no Mercado Atacadista de Energia (MAE). (ver editoria Nacional) (Gazeta Mercantil/Página A1) (Maria Angela Jabur)




Jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte, Quarta-Feira 21/03

Corte pode começar por consumidores residenciais

Rafael Sânzio Repórter


Caso a crise energética do Brasil se agrave nos próximos meses, devido ao pouco volume de chuvas, os consumidores residenciais de eletricidade podem se preparar para passar algumas horas à luz de velas ou para ficar sem a novela preferida por algum tempo. De acordo com o diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina), Roberto Araújo, em um cenário de escassez de eletricidade e racionamento, as residências devem sofrer os primeiros cortes, devido ao fato de não estarem ligadas ao processo produtivo. De fato, dentro da lógica econômica seria impensável o desligamento de indústrias para a população assistir novela. O ministro de Minas e Energia, José Jorge, entretanto, afirmou ontem à ‘Agência Estado’ que os primeiros cortes deverão acontecer na área industrial. No ano que vem haverá eleições estaduais e federais. Apesar de prever cortes no fornecimento de energia para residências, Araújo acrescentou que outras medidas de prevenção deveriam ser adotadas imediatamente. Entre as ações que poderiam minimizar os riscos de apagões, o especialista citou a imediata adoção de um programa de combate ao desperdício. "Estamos atrasados", alertou o diretor do Ilumina, que já há alguns anos vinha avisando para o risco de crise energética decorrente da privatização do setor elétrico e da falta de investimento em geração e transmissão. Além da campanha de combate ao desperdício, Araújo sugeriu que o Governo deveria negociar com as distribuidoras de energia medidas de incentivo à economia. A fórmula do especialista prevê descontos de tarifa proporcionais à economia feita. Isso significa que, quem reduza seu consumo em 15%, terá um desconto de 15% na tarifa a pagar. Outra sugestão de Araújo é de se incentivar a troca de lâmpadas incandescentes por lâmpadas compactas, que consomem até um quarto a menos de energia. Caso nada disso funcione, ressalta Araújo, a saída seria o racionamento, a ser negociado com indústrias, consumidores e empresas. Essa hipótese significaria o desligamento da energia em horas e regiões previamente combinadas, para o atendimento de atividades prioritárias. De acordo com o diretor do Ilumina, a crise energética atual remonta à falta de investimentos no setor elétrico desde 1993. Araújo destacou que desde aquele ano a demanda por energia tem crescido a uma taxa de 5% ao ano, enquanto a capacidade instalada evoluiu a uma taxa de 3%. Para ele, a seca não pode ser apontada como culpada, já que o planejamento elétrico brasileiro até 1993 previa a possibilidade de até 4 anos de seca, a exemplo do que já aconteceu na década de 50.


Esclarecimento do ILUMINA: O que foi dito ao Jornalista foi que o racionamento, afetando a indústria, provoca prejuízos na cadeia produtiva. O uso da energia nas residências não tem esse efeito. Não foi dito que o racionamento pode começar pelas reidências, apenas que esse fator deve ser considerado ao definir uma política. Foi enfatizado que é melhor fazer pequenos racionamentos por mais tempo do arriscar a ter um grande racionamento no futuro. Esse trecho da entrevista não foi publicado.


Governo recebe plano em 15 dias

BRASÍLIA – O Governo federal deve receber, dentro de 15 dias, um plano de contigenciamento que será usado num eventual racionamento de energia elétrica nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. A informação é do ministro de Minas e Energia, José Jorge, ao explicar que caberá à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estabelecer este plano. Caso os níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas atinjam 40% da capacidade, haverá necessidade de reduzir a demanda de eletricidade em 10%. Se os depósitos de água ficarem com 44% da capacidade de água, a economia deve ser de 5%. O plano prevê cortes de energia, numa primeira etapa, para a indústria. Ontem, o ministro recebeu os estudos do presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Mário Santos, que apontam um cenário bastante crítico para os reservatórios das usinas instaladas nos Rios Grande, Tocantins e São Francisco. A única forma de descartar o racionamento é que os depósitos das usinas cheguem ao fim de abril com 49% da capacidade de água nas regiões Sudeste e Centro-Oeste e aos 50% no Nordeste. ‘A hipótese de ficar na situação atual, ou seja, com os níveis dos reservatórios em 34,7% não existe’, disse José Jorge. Para ele, os prognósticos da meteorologia indicam que haverá uma melhora na bacia hidrológica nacional. Santos informou ontem que enquanto as represas das usinas hidrelétricas localizadas nas regiões Norte e Sul estão com quantidade de água acima da média, as usinas do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste passam por dificuldade para produzir eletricidade. Com isso, os técnicos do Governo foram mobilizados para apresentarem sugestões que devem ser implementadas a partir de maio deste ano. O ministro José Jorge explicou que trabalha em duas frentes. A primeira delas tem por objetivo aumentar a oferta de energia elétrica no país. Nesta linha de ação, o ONS vem fazendo gestão para que as usinas nucleares Angra 1 e 2 passem a operar com toda capacidade de geração de energia. Ao mesmo tempo, as termelétricas existentes no país estão funcionando a toda carga. O objetivo específico é diminuir a geração hidrelétrica para permitir o enchimento dos reservatórios. Nesta seqüência de providências, o Governo retomou a importação de energia da Argentina. O contrato prevê a compra de 1.000 Megawatts (MW). A outra frente diz respeito ao plano de contigenciamento para administrar a demanda.


Chuva é insuficiente, diz Ladeia Marlene Machado Repórter A chuva prevista para a Região Sudeste até o dia 15 de abril, quando termina o período chuvoso, não será suficiente para recompor os níveis dos reservatórios, livrando o país da ameaça de racionamento de energia, como espera o Governo federal. Nos próximos dias, a tendência é de redução gradual das chuvas, até o fim do ciclo, segundo disse ontem o chefe do 5º Distrito de Meteorologia, Luiz Ladeia. O argumento usado pelo Governo federal de que a crise no sistema energético é resultado de uma forte estiagem, também não se sustenta para Luiz Ladeia, especialmente porque somente entre janeiro e meados de março verificou-se uma distribuição irregular das chuvas no Sudeste. ‘A última grande seca no Estado foi há 20 anos.’ Na semana passada, o vice-diretor da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luiz Pingueli Rosa, também refutou o argumento usado pelo do Governo federal para justificar a crise no setor energético. ‘Não é possível conceber um investimento do porte de uma hidrelétrica sem se considerar a variável estiagem. A crise é resultado de falta de investimento’, disse Rosa. Segundo o chefe do 5º Distrito, durante os primeiros meses do ano choveu, sim, no Estado, mas ela foi mal distribuída, além ter caracterizada por pancadas fortes, de curta duração, acompanhada de seqüências de dias de estiagem, provocando uma perda de água para a atmosfera superior àquela que incidiu com a chuva. ‘Ao que tudo indica, o regime pluviométrico que marcaria o ciclo de janeiro, fevereiro e março não deve ter sido considerado.’ Além da inexistência de uma forte estiagem, ele lembra que nos meses de outubro, novembro e dezembro, o nível de chuvas na Região Sudeste foi regular. As variações climáticas são apresentadas com um ano de antecedência, através de prognósticos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inem). De janeiro a 15 de março, nas regiões do Triângulo, Sul, Sudeste e Centro do Estado choveu em torno de 55% da média; na faixa Leste, Norte e Nordeste, os níveis não chegaram a 40% da média. Nos próximos 26 dias, nas regiões Leste, Norte e Central de Minas Gerais deve chover entre 50 a 70 milímetros até o dia 15; no Triângulo, Sudeste e Sul de Minas, a expectativa é de 80 a 160 milímetros. Nos estados do Rio de São Paulo, a previsão de de 150 a 230 milímetros, no litoral.

Cemig lança campanha dia 27

A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) deverá lançar, no próximo dia 27, uma campanha educativa de combate ao desperdício de eletricidade, como medida preventiva para a crise energética que ronda o Brasil. A informação é do diretor de operações da Cemig, Aloísio Vasconcelos, que destacou ainda que Minas Gerais se preparou para enfrentar a situação com a construção de novas usinas. "Quem não se preparou foi o Governo federal, que não investiu e não construiu usinas", atacou. Porém, como o sistema elétrico brasileiro é interligado, nenhum estado da federação está imune à escassez de energia nacional. De acordo com Vasconcelos, a Cemig já começou a fazer a modulação do consumo de energia de seus grandes consumidores, tirando-os da hora de ponta do sistema. "É como ter uma garrafa e quatro copos. Você não pode encher só dois copos", explicou. O diretor da Cemig acrescentou que a Cemig também tem reativado pequenas centrais hidrelétricas que estavam paradas. "Reativamos 2,5 mil Kilowatts em Jeceaba", afirmou. "É pouquinho, mas dá para alimentar duas cidades." Vasconcelos informou ainda que a Cemig deverá reativar as pequenas centrais de Poquim, em Teófilo Otoni, e de Santa Luzia, em Centralina. No rol de ações de contingência da Cemig, Vasconcelos citou ainda o aproveitamento da energia solar. "O programa solar está sendo acelerado, para atendermos 500 escolas com energia solar, principalmente no Norte do Estado", revelou. De acordo com Vasconcelos, a hipótese de racionamento existe por causa do pouco volume de chuvas, que tem deixado os reservatórios da região Sudeste com nível baixo de águas. São as águas que giram as turbinas, que produzem eletricidade. Quanto menos água no reservatório, menor é a pressão para girar as máquinas geradoras. Ganhos O gerente de análise de empresas da Lloyds Asset Management, Luiz Codorniz, considera que as companhias geradoras de eletricidade terão ganhos com o encarecimento da energia vendida no mercado atacadista. Esta energia, em tempos de excedente, é ofertada para grandes consumidores, que fazem compras de acordo com suas necessidades. Com a escassez, o insumo deverá ficar cada vez mais caro. Seu preço tem oscilado entre US$ 50 a US$ 75 por MWh.

Para lembrar

Editoria de Pesquisa Em reportagem publicada no último dia 11, o HOJE EM DIA apontava para a possibilidade de racionamento de energia em razão da seca e seus reflexos no nível dos reservatórios. E a Região Sudeste do país, na qual Minas não se isola, é uma das mais visadas. Os números diários do Operador Nacional do Sistema (ONS), órgão que gerencia o sistema interligado de energia do país, não são confortáveis. No dia 5 deste mês, por exemplo, a energia armazenada nas regiões apresentavam a seguinte situação: Sul 97,9%, Norte 72,9%, Nordeste 37,3% e, na lanterna, o Sudeste com 33,1%. Os percentuais deixam claro as benesses atuais da interligação e a dependência do sistema Sudeste/Centro-Oeste, que responde por cerca de 60% do consumo e 68% da capacidade de armazenamento. A expectativa mais otimista é de chegar até o final do ano com um nível de segurança para os reservatórios da região de 50%, para não afetar o suprimento de energia na estação seca. Ou seja, o Sudeste terá que sair dos 33% e alcançar pelo menos 37% no atual período. No entanto, o superintendente de Geração da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), José Pinto de Barros Neto, argumenta que os 33% apresentados atualmente não são suficientes para previsões efetivamente obscuras. Na chamada ponta de carga (horário de maior consumo – 18 às 19 horas), a Região Sudeste responde por 42 mil MW. A capacidade total de produção do sistema interligado é de 66 mil MW. Numa tentativa de minimizar o problema, cinco usinas estão em construção em parceria com a iniciativa privada. Uma delas é a de Porto Estrela, no Vale do Aço, com capacidade de 112 MW, cuja conclusão está prevista para setembro. A Cemig no ranking do mercado de consumo nacional responde por 17%. Já na geração, fica com 8,5% num mercado composto por 11 geradoras.

Risco de apagão

Seca ameaça fornecimento de energia 1 – Medidas já adotadas pela Cemig para otimizar o sistema – Grandes clientes reduziram o consumo nos horários de pico do sistema – Pequenas centrais hidrelétricas desativadas voltarão à operação – Lançamento de programa de economia energética em 27 de março – Incremento da geração solar em 500 escolas do Norte de Minas 2 – O que o Governo federal poderá fazer, caso as chuvas dos próximos 40 dias não encham os reservatórios – Campanha de combate ao desperdício – Acordo com distribuidoras de energia para que concedam descontos nas tarifas em percentual igual à eletricidade economizada – Negociação com importadores de lâmpadas compactas que consomem até um quarto do consumo de uma lâmpada incandescente, no sentido de barater tais produtos 3 – Se as medidas preventivas não derem certo – Racionamento de energia, a começar por áreas residenciais, com corte do fornecimento em determinados períodos do dia – As indústrias poderiam ser poupadas de cortes, já que isso afetaria a produção e o crescimento econômico Entenda o sistema elétrico brasileiro:


A – Composto por quatro regiões interligadas – Sul – Sudeste – Centro Oeste – Nordeste – Norte (em parte)


B – Fontes de geração de energia no Brasil – Hídrica – 51.738 MW – Térmica – 3.381 MW – Nuclear – 657 MW – Itaipu – 6.300 MW – Total – 62.076 MW


C – Porque há risco de faltar energia – O mercado cresceu 5% ao ano, desde 1993 –


A capacidade instalada total cresceu 2% ao ano, desde 1993

O caminho da energia

1 – As usinas de cada região produzem eletricidade e enviam a energia para o Sistema Interligado


2 – O Operador Nacional do Sistema (ONS) gerencia o sistema de acordo com a demanda, o consumo e os níveis dos reservatórios. Regiões com reservatórios cheios geram mais eletricidade, e enviam para regiões com reservatórios baixos. Isso permite "poupar" o potencial de geração hidrelétrica e manter o nível dos reservatórios de onde chove menos


3 – O Sistema Interligado brasileiro enfrenta um gargalo na área de transmissão e geração. Durante anos não se investiu em novas usinas geradoras. Também não se investiu em transmissão


4 – O resultado da falta de investimento em geração foi o uso da capacidade máxima de geração das hidrelétricas


5 – O resultado da falta de investimento em transmissão resulta na incapacidade de aproveitamento de potenciais de geração de reservatórios cheios. É o caso da região Sul, que está com reservatórios 97% cheios e tem enviado 3 mil MW para a região Sudeste. Poderia enviar mais, caso existissem linhas de transmissão para tal


6 – Como não há linhas de transmissão suficientes para aproveitar toda a capacidade de geração da região Sul, os reservatórios das usinas sulistas têm liberado água em seus vertedouros sem girar as turbinas


7 – Para piorar, a falta de chuvas gera baixos níveis nos reservatórios que ficam com pouca pressão para girar as turbinas Fontes: Cemig e Ilumina



Valor Econômico 21/3

Para Cemig, racionamento é inevitável

Miriam Karam, De Curitiba


Só rezando. Evitar o racionamento de energia já não depende de chuvas, disse ontem o presidente das Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Djalma Bastos de Morais. " Agora só nos resta rezar " , afirmou ao criticar a falta de investimentos na geração de energia por parte do governo federal.


De acordo com Morais, o sistema de Furnas obteve lucro recorde no ano passado ao custo de operar, durante todo o ano, em sua capacidade máxima. Com isso, o lago da usina baixou 12 metros durante o ano, chegando a um estágio crítico, de possuir apenas 20% de reserva de água. " Se o lago baixar mais cinco metros, Furnas pára " , afirmou, lembrando que as chuvas esperadas nesta época não estão ocorrendo.


Morais foi mais longe. Disse que Furnas trabalhou com capacidade máxima para " dar mais visibilidade à empresa e facilitar a venda da estatal " . Furnas responde hoje por 43% do suprimento de energia do país. O presidente da Cemig esteve ontem em Curitiba acompanhando o governador de Minas, Itamar Franco, para falar contra a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel). O governo do Paraná pretende vender seu controle acionário até o final deste ano.


" A culpa (pelo iminente racionamento que ameaça o país) não é da chuva. É do uso excessivo do sistema " , afirmou Morais, dizendo que os recursos do BNDES usados no financiamento das privatizações deveriam ter sido aplicado em novas geradoras de energia e " não para comprar usinas já prontas " .


Ao criticar a venda da Copel, Itamar disse ser uma " balela " a afirmação de que os Estados não têm capacidade para investir. Segundo ele, ao final de seu governo, a capacidade de geração da Cemig estará ampliada entre 25% e 30%. Os investimentos, segundo o presidente da Cemig, foram possíveis através de parcerias com a iniciativa privada. Nos projetos, a Cemig é sempre minoritária, para fugir às amarras impostas às estatais.


O ex-presidente de Furnas durante a presidência de Itamar, Marcelo Siqueira, disse ter arrepios quando ouve falar na privatização de Furnas. " Isso não é vender. É roubar o povo brasileiro " , afirmou.


Plano do governo para entrar em vigor em maio, se não chover, ficará pronto em 15 dias

Corte de energia para grande consumidor Fábia Prates, De Brasília

Deve ficar pronto em 15 dias o plano de racionamento de energia que o governo terá que adotar a partir de maio, caso os níveis dos reservatórios do sudeste, responsáveis por 68% da geração de energia do país, não voltem ao normal até 30 de abril. Na pior das hipóteses, se as chuvas continuarem escassas nas nascentes dos rios Grande, São Francisco e Tocantins, os reservatórios ficarão apenas com 40% de sua capacidade, o que resultará em racionamento de 10%.


Grandes consumidores de energia – de 100 a 200 empresas que respondem por 25% do consumo- serão os primeiros alvos de medidas restritivas de consumo. Depois de ouvir relato pouco animador do Operador nacional do Sistema (ONS) em reunião ontem em que o presidente do órgão, Mário Santos, afirmou ser esse o pior mês da história, o ministro de Minas e Energia, José Jorge, admitiu a necessidade de adoção de medidas para administrar a demanda. Ele rejeita a expressão racionamento. Afirma que o plano, sob responsabilidade da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), será de contingenciamento, que traria alternativas negociadas entre fornecedores e usuários.


Paralelamente a isso será definida também uma campanha nacional para sensibilizar os consumidores a economizarem energia. Essas são as duas principais recomendações do relatório do operador do sistema.


Hoje o ministro se reúne com o diretor-geral da Aneel, José Mário Abdo, para discutir o que será feito. "A partir daí teremos que ter um plano de contingenciamento, não chega a ser racionamento, para administrar a demanda a partir de maio. Não podemos ficar esperando até final de abril", disse o ministro.


O Valor apurou que medidas de racionamento constarão sim do chamado plano de contingenciamento para serem adotadas caso não surta efeito a primeira tentativa de reduzir a demanda de forma negociada e sensibilizando o consumidor.


O presidente do ONS afirmou que haverá iniciativas para tentar aumentar a oferta. Segundo ele, todas as térmicas e a usina nuclear de Angra 2 trabalharão a plena carga. E pediu à Eletronuclear que reduza de 64 para 45 dias o tempo de parada da usina Angra 1 para troca de combustível. Serão feitas também mudanças de configuração em linhas de transmissão entre o Sul e o Sudeste para aumentar a capacidade, o que permitiria, por exemplo, que a importação de energia da Argentina seja feita em sua totalidade, 1.000 megawatts . Ele afastou riscos de apagões.


O ministério e o ONS contam com as surpresas da meteorologia para afastar os maus ventos. A previsão é de poucas chuvas, incapazes de encher os reservatórios. "Se tivermos chuvas 10% acima da média, chegaremos a níveis de segurança que permitem tranqüilidade", disse Santos. Sobre as previsões sombrias do Instituto Nacional de Meteorologia, afirmou: "A previsão era de que chovesse muito em dezembro e janeiro, mas não choveu."


Para atingir níveis de segurança – 50% dos reservatórios-, precisaria chover 10% acima da média. Se os reservatórios chegarem a 44% -hoje estão em 34,7%-, o racionamento seria de 5%.

Até companhias que investiram em auto-suficiência seriam prejudicadas

Roberto Rockmann, De São Paulo


Um racionamento de energia afetaria a produção industrial do país, prejudicaria a recuperação do setor rumo à expansão consolidada e traria prejuízos às empresas. Essa é a opinião de empresários e analistas ouvidos pelo Valor, que destacam que até as empresas auto-suficientes em geração seriam afetadas.


"Um racionamento anual de 10% afetaria nossa produção, por exemplo, em US$ 180 milhões", afirma o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), João Bosco Silva. "E isso poderia até trazer impactos negativos na balança comercial do país, já que ano passado o setor teve saldo positivo de US$ 2 bilhões", diz Bosco.


Segundo ele, o setor investirá, ao longo de três anos, US$ 1,5 bilhão para aumentar sua capacidade de geração em 2,1 mil MW. No entanto, um racionamento afetaria toda a cadeia produtiva do setor industrial, já que o cliente da empresa e o fornecedor de matéria-prima dificilmente teriam sistemas capazes de gerar sua própria energia. Bosco alerta que o problema seria maior nas fábricas de alumínio primário, que não poderiam antecipar sua produção em caso de racionamento.


O presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), José Augusto Marques, aponta que um racionamento poderia prejudicar a produção industrial do país em até 0,5 ponto percentual. Para ele, o governo já começa a adotar medidas para racionalizar o uso de energia. "Pelo que ouvimos na entidade, as grandes consumidoras já ouviram considerações para sair do horário de ponta no sistema", afirma Marques.


A assessoria do Ministério de Minas e Energia informa que as possíveis medidas de racionalização de energia ainda estão em discussão.


Os entrevistados apontam que uma das saídas da crise pode ser o aumento de importação de energia dos países vizinhos, principalmente da Argentina. "Ainda mais que os argentinos estão em recessão, acho que esse será um dos caminhos usados", afirma o vice-presidente de energia da Ernst & Young, Paulo Feldmann.


No entanto, a importação pode trazer problemas. Mauro Schneider, economista do ING Barings, aponta para o risco inflacionário. "Como a compra é feita em dólares, isso pode afetar a inflação, além de o governo, para encorajar investimentos na área, poder reajustar as tarifas", diz.


Estado de S. Paulo 21/3

Brasil só escapa de racionamento se chover muito

Segundo ONS, medida só não será tomada se chover o dobro da média histórica


RENÉE PEREIRA


O País somente estará livre de um racionamento de energia este ano se nos próximos 40 dias chover 100% da média histórica do período, o que elevaria o nível dos reservatórios para 49%. Mesmo assim, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a população teria de "torcer" para que no período de estiagem chovesse, pelo menos, 75% da média histórica.


Segundo Ronaldo Fabrício, ex-presidente de Furnas e da Eletronuclear, hoje conselheiro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Áreas Nuclear e Térmica (Abdan), o último racionamento, nos moldes do que está previsto para os próximos meses, ocorreu em 1965 e só não ocorrerá este ano se chover o suficiente para elevar o nível dos reservatórios.


Fabrício explica que o setor energético brasileiro está nesta situação por falta de investimento. Enquanto o consumo cresceu quase 50% nos últimos dez anos a capacidade instalada teve um aumento de 38%. Esta diferença não deve parar por aí. A perspectiva de crescimento econômico de 4% no ano deve elevar para 5,5% o consumo de energia no Brasil, alertam analistas do mercado. "Para atender a demanda, o País terá de aumentar sua potência instalada de 67 mil megawatt para 104 mil megawatt até 2009." Ou seja, aumentar em quase 50% o que construiu até hoje.


Como não houve racionamento nos últimos anos, o sistema vem convivendo com uma situação de esgotamento da capacidade osciosa existente, ocasionada por projetos realizados nos períodos anteriores e que anteciparam as necessidades de crescimento da demanda por vários anos. Segundo o diretor do departamento de infra-estrutura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Pio Gavazzi, hoje o País consome toda água que entra nos reservatórios.


Antigamente, diz, as bacias fechavam o período de seca com uma capacidade bem superior a atual. E, por isso, no período de chuva conseguiam recuperar os níveis máximos. Em 1997, por exemplo, os reservatórios fecharam o período de estiagem com 60% de capacidade, completa. Já, no ano passado, esse índice caiu para 18%.


O consultor da presidência do Grupo Rede – Empresas de Energia Elétrica, e conselheiro administrativo do ONS, Fernando Quartin, explica que a situação do País é muito crítica. Se o volume de chuvas até o fim de abril não for suficiente para elevar para 49% o nível dos reservatórios, a população terá de economizar entre 5% e 15% de energia. Chovendo 88% da média, o racionamento seria de 5%; 76% da média, 10%; e 64% da média, 15%.


As regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste estão sendo as mais afetada pelo regime inconstante de chuva. Até o dia 19, a energia armazenada nos reservatórios não chegava a 35%, no Sudeste e Centro-Oeste, e 40%, no Nordeste. Enquanto isso, os reservatórios da região Sul trabalham com quase 100% de sua capacidade. Embora o sistema seja interligado, a energia acumulada nesta região pouco ajuda as demais áreas do País, pois a capacidade de geração é pequena.


Segundo Fabrício, o primeiro a sentir o efeito da escassez de energia será a periferia. Isso porque, diz, o governo vai procurar beneficiar as áreas mais industrializadas para não prejudicar o crescimento econômico do País. O primeiro passo, no entanto, é a conscientização dos consumidores por meio de anúncio publicitário.


O presidente da Enerconsult, Luigi Giavina-Bianchi, diz que a solução mais viável no curto prazo são as termoelétricas, cujo prazo para construção é bem inferior ao de uma hidrelétrica. "Em um ou dois anos conseguimos levantar uma térmica, enquanto uma hidrelétrica leva mais de cinco anos."


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