País rico é assim: O govêrno se desfaz de empresas que geram além de energia, muito lucro. Rapida e atabalhoadamente, antes que a população veja.
Folha de S. Paulo 14/12/98
Geradoras de energia devem responder por maior parte dos R$ 20 bi que governo prevê arrecadar no ano
Privatização chega às energéticas em 99
CLÁUDIA TREVISAN
da Reportagem Local
Telecomunicações em 98 e geração de energia em 99. O programa de privatização brasileiro entra no próximo ano na etapa de venda das gigantes estatais responsáveis por cerca de 60% da energia elétrica consumida no país. A expectativa do governo federal é arrecadar aproximadamente R$ 20 bilhões com privatizações em 1999. A maior parte desse valor virá das produtoras de energia, o principal ativo que será oferecido.
As geradoras que deverão ser leiloadas são Cesp (Companhia Energética de São Paulo), Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco), Furnas Centrais Elétricas e Eletronorte (Centrais Elétricas do Norte do Brasil). A única que não é federal é a Cesp, que pertence ao Estado de São Paulo. O valor de sua venda -ainda indefinido- não está incluído nos R$ 20 bilhões que devem ser arrecadados pela União. Juntas, as quatro geradoras que serão leiloadas têm patrimônio líquido de R$ 49,28 bilhões. O valor é superior ao patrimônio de R$ 39,6 bilhões do Sistema Telebrás, privatizado em julho por R$ 22,6 bilhões na maior venda de estatais em bloco já realizada no mundo.
Apesar do alto valor de seus ativos, as geradoras não devem despertar nos investidores o mesmo apetite que a Telebrás.
"O potencial de valorização das empresas de telecomunicações é maior porque elas atuam em um setor dinâmico, muito aberto a novas tecnologias e a novos negócios", afirma o consultor David Moreira, da Consemp. Ou seja, as geradoras possuem patrimônio maior que o da Telebrás, mas devem ser vendidas por preço proporcionalmente menor porque têm
possibilidade mais estreita de expansão de lucros. Isso não significa que haverá pouca disputa pelas empresas. Os consultores apostam na presença de grande número de interessados, tanto nacionais quanto estrangeiros. Mas condicionam a previsão ao comportamento da economia brasileira nos próximos meses. "O mercado brasileiro é bastante atrativo. A carência de energia é grande, e a tendência é de crescimento do consumo", diz Arthur Ramos,
diretor da área de energia da A.T. Kearney, empresa especializada em consultoria de gestão. Segundo Ramos, a disponibilidade de recursos
internacionais para financiar a compra das estatais será determinada pela evolução da crise pela qual passa o país.
A possibilidade de expansão do consumo é o principal fator de atração de investidores, observa Fernando Oliveira, analista do Banco Fator.
"Nos últimos anos, a demanda por energia no Brasil tem crescido acimada evolução do PIB (Produto Interno Bruto)", diz.
Devido a seu grande porte, as empresas de geração deverão ser divididas antes da privatização. A Cesp, por exemplo, possui 27 usinas hidrelétricas. A companhia dará origem a quatro empresas, organizadas de acordo com os rios onde estão localizadas as usinas. Como essa reestruturação é complexa, os consultores acreditam quepoderá haver atraso no cronograma de privatizações. "O processo deve se arrastar até o ano 2000", acredita Oliveira. Por enquanto, o governo federal só privatizou uma empresa de geração de energia, a Gerasul, que integrava a Eletrobrás, como Chesf, Furnas e
Eletronorte.
A empresa foi vendida em setembro por R$ 945,7 milhões ao grupo belga Tractebel, que pagou o preço mínimo fixado pelo governo.
Apesar de não ter havido ágio, Oliveira considera a privatização da Gerasul um sucesso, por ela ter ocorrido em meio à crise provocada pela
moratória Russa.
da Reportagem Local
Sete empresas estaduais de energia elétrica deverão ser privatizadas em 1999, de acordo com o cronograma previsto pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).O BNDES é o gestor do PND (Programa Nacional de Desestatização), que engloba empresas federais, mas também acompanha as privatizações de empresas pertencentes aos governos estaduais. Pelo cronograma do BNDES, 1999 será ainda o ano de privatização do Banespa (Banco do Estado de São Paulo), que pertencia a São Paulo e foi transferido para a União no acordo de renegociação da dívida do Estado.Outra instituição financeira que deve ser privatizada é o Banco do Estado do Mato Grosso. As empresas de eletricidade que serão vendidas estão nos seguintes Estados: Paraíba, Amazonas, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Rondônia eAcre.
2 Arrecadação Até agora, o governo federal arrecadou R$ 46,087 bilhões com o programa de privatização. Desse total, R$ 26,557 bilhões vieram do setor de telecomunicações. Os Estados conseguiram R$ 22,367 bilhões com a venda de empresas estatais. (CT)
Estrangeiros dominam maioria das empresas
da Reportagem Local
Os investidores estrangeiros têm participação acionária na maioria das empresas de energia elétrica privatizadas no país até agora. O maior investidor individual no setor é a norte-americana AES Corporation, que controla a distribuidora de energia gaúcha Centro-Oeste e participa da Light e da Eletropaulo Metropolitana. Das 13 empresas de eletricidade privatizadas até setembro, 7 ficaram sob o controle de companhias estrangeiras. Em outras 2, o capital externo tem posição minoritária.
A Elektro, distribuidora de energia que pertencia à Cesp, foi comprada em julho pela norte-americana Enron, que pagou por ela R$ 1,5 bilhão
-ágio de 98,91%, um recorde para o setor. Entre as empresas nacionais, os maiores investimentos foram feitos pelo consórcio VBC, que reúne os grupos Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa.
O VBC é dono da CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), pela qual pagou R$ 3,5 bilhões em 1997. Também tem um terço do capital da distribuidora gaúcha Norte-Nordeste, privatizada em 1997 por R$ 1,6 bilhão.
2 Sucesso A forte presença internacional é um dos fatores apontados por Arthur Ramos, da A.T. Kearney, para apostar no sucesso da privatização
do setor de geração de energia. Ramos lembra que empresas como AES e Enron atuam em seus países de origem mais na área de geração do que na de distribuição.
O modelo adotado pelo Brasil para privatizar seu setor elétrico prevê a divisão das atividades de geração, transmissão e distribuição de energia. Por enquanto, a transmissão não será privatizada. A geração engloba as usinas produtoras de energia. As empresas de distribuição se encarregam de levar a energia até o consumidor final, que pode ser residencial, comercial, industrial ou rural. A transmissão faz a ponte entre as duas atividades. (CT)