O ILUMINA, assim como todos aqueles que de uma forma ou outra acompanham o Setor Elétrico, está se perguntando:
Por que acionar as usinas térmicas para abastecer o Sul, quando nas outras regiões os reservatórios das hidrelétricas estãocheios, alguns até vertendo, como Sobradinho? E pior ainda: se é para ligar as térmicas, por que não priorizar as que estão regularmente faturando sem gerar nada, como aTermopernambuco e a Termofortaleza, que não aumentariam as farifas para o consumidor?
Selecionamos em uma lista de Debatestres depoimentos, que reproduzimos abaixo:
Debate sobre as Térmicas
DE: Delman Ferreira
Esta história de despachar térmicas em tempos de reservatórios cheios está muito mal explicada.
Está cada vez mais evidente, e inegável, que os atuais gestores do setor elétrico brasileiro optaram por térmicas fósseis. Cabe perguntar por que?
Existem estudos recentes que, adotando as mesmas premissas, as mesmas fórmulas, a mesma lógica do ONS, demonstram a absoluta viabilidade de o Brasil evoluir de um sistema hidro-térmico para um sistema baseado nas fontes hidráulica, térmica a biomassa, eólica, e térmica fóssil, nesta ordem de prioridade, economia e segurança. Ou seja, se os atuais gestores do sistema elétrico brasileiro permitissem, o Brasil poderia, num espaço de 10 anos, ampliar seu sistema elétrico de forma segura, para um modelo mais confiável, inteligente e econômico do que a atual opção. Com a vantagem estratégica de ser um sistema soberano, independente de fontes ou combustíveis externos.
Entretanto, o que se percebe é uma relutância fundamentalista em analisar novas alternativas e novos desenhos para o modelo brasileiro.
Já não cabe mais o argumento de que o licenciamento ambiental está atrasando a implantação de novas UHE’s e por isso o acentuado despacho de térmicas fósseis. A responsabilidade ambiental é irreversível, queiram os gestores do setor ou não – e eles sabem muito bem disso, tentam apenas adiar o inevitável. Com responsabilidade ambiental, obviamente, elevam-se as exigências e o grau de dificuldades para o licenciamento.
Por outro lado, o Brasil pretende ser um protagonista global. As maiores riquezas brasileiras são os recursos naturais e as fontes energéticas. Entretanto, como ser protagonistas globais sendo, ao mesmo tempo, irresponsáveis com as próprias riquezas e recursos naturais?
Creio ser urgente provocar um sério debate nacional sobre as bases da matriz elétrica brasileira. Digo matriz elétrica mesmo sabendo da interação com a matriz energética, entretanto, creio ser necessária uma análise das atuais opções do setor elétrico.
Inevitavelmente, vai-se retomar o debate interrompido em 2004, quando da definição do atual modelo institucional. Mas, isto é da Democracia. Se um modelo não está respondendo ao que se propôs, há que debater alternativas.
Delman Ferreira
delmanferreira@gmail.com
DE: Fabiano Mendonça
Bom, meu conhecimento técnico do setor em si é limitado, porém, milito nos aspectos jurídicos dele.
Sinceramente, principalmente depois do esforço da AGU nesse sentido, é difícil acreditar nos famosos “atrasos de licenciamento” e que eles não são meros bodes expiatórios ou desculpa para alguma falta de planejamento.
Quanto muito, eles podem ser, politicamente, um ponto de parada para o que já foi muitíssimo bem colocado, a discussão da matriz “elétrica”.
Acho que é preciso dar mais espaço ao debate franco e democrático sobre o problema, pois sem uma posição realmente consolidada, não há como avançar rapidamente no sentido desejado, seja qual for.
Agora, enquanto cada um puxar para um lado, hoje é a culpa é do licenciamento – cujo processo é indispensável, amanhã será do que?
Fabiano Mendonça
DE: Roberto D´Araujo
Quanto a esse assunto de térmicas, a muito tempo tenho insistido que o nosso critério de garantia virou samba de crioulo doido. É verdade que as térmicas estão entrando porque ficamos 14 anos sem fazer inventários decentes das hidráulicas.
Mas, infelizmente, não é só isso. Hoje há uma enorme confusão de critérios de operação. O modelo comercial usa um critério para definir os “certificados” de energia assegurada, mas a operação usa outros. O modelo comercial é baseado num custo do déficit em patamar único. A operação usa 4 patamares e mais curva de aversão a risco, nível meta, etc,etc,…Além disso ainda tem o Comitê de Monitoramento. Uns dizem que o sistema não é mais plurianual. Se você olhar os custos marginais médios dos últimos planos de operação, verá que eles estão o dobro do de expansão. Ou seja, estamos a muito tempo com carga maior do que a crítica. Mas o modelo comercial acha que não. Assim, o sistema perde mesmo o caráter plurianual.
Tudo isso sem falar no equívoco de tratar hidroelétricas apenas como uma fábrica de kWh. Assim é que elas não saem mesmo.
Eu já tinha sugerido ao CEPEL que se começasse um estudo sério sobre a curva do custo do déficit para poder unificar todos esses critérios de operação. Mas, como me tornei personna non grata, o assunto morreu.
Numa interpretação mais ousada, acho que estamos a cada dia destruindo o que restava da cultura de planejamento do setor. Alguns dizem que é uma conspiração. Apesar do esforço da EPE, o que ela faz não se compara ao que era feito no GCPS. Naquela época, as empresas participavam de um planejamento em rede. Hoje, ironicamente, no suposto modelo de mercado, o planejamento é feito por uma empresa do estado. Não é engraçado?
Roberto Araujo