Racionamento, a P-36 do setor elétrico. Pode parecer um exagero, e num certo sentido, é mesmo. Mas, estamos precisando de algumas imagens "exageradas" para alertar a sociedade brasileira sobre o que poderá oc …

Racionamento, a P-36 do setor elétrico.

Pode parecer um exagero, e num certo sentido, é mesmo. Mas, estamos precisando de algumas imagens "exageradas" para alertar a sociedade brasileira sobre o que poderá ocorrer caso a meteorologia não nos forneça quase um dilúvio.


Como é bem conhecido, o pensamento dominante da escola neo-liberal é a competitividade, a agressividade por mercados, a busca pela máxima produtividade, o enxugamento de custos e a busca pelo máximo lucro. Os índices que funcionam como olhos do "Grande Irmão" Orwelliano, os Dow-Jones, Nasdaq, IBOVESPA e outros traduzem diariamente os humores de uma super entidade mercado, que muitas vezes coloca em polvorosa os analistas mais confiantes. Nada mais interessa. Os índices das Bolsas fazem sombra a qualquer outra realidade por mais grave que seja.


Com essa concepção, a busca máxima produtividade passa a ser uma obsessão. Quanto mais produto se obtém com uma mesma capacidade do produção, melhor. A filosofia da segurança, por outro lado, reza exatamente pela cartilha oposta. Quanto mais capacidade ociosa, mais segurança. Quanto mais redundâncias, menor os riscos. É fácil entender em um exemplo doméstico: Quem tem um computador e compra um "No-Break" está investindo em segurança através da adoção de uma capacidade ociosa (o no-break está ocioso quando não há falta de energia). A "produtividade" cai, entretanto a segurança aumenta.


Nos últimos 10 anos, a "produtividade" das usinas elétricas brasileiras apresentou um crescimento fantástico. Em 1990, cada MW instalado produzia aproximadamente 4200 MWh. Em 2000 esse valor sobe para aproximadamente 5500 MWh. Não é uma ótima performance? Não fosse o limite de 8760 horas do ano, iríamos ao infinito! Como explicado antes, essa "produtividade" crescente é sinal de perda de segurança. Ainda mais quando se sabe que são usinas hidráulicas, e que maior produtividade significa maior deplecionamento dos reservatórios. Assim, a segurança irá realmente diminuir e a analogia com as denúncias dos operários da P-36 é bastante forte.


A evolução da energia armazenada nos reservatórios brasileiros tem mostrado um comportamento declinante nos últimos 4 anos. Mesmo com ocorrências de regimes hidrológicos médios, estamos, a cada ano, utilizando a reserva energética de anos futuros. Essa situação ocorre pela ausência de investimentos em novas unidades de geração, pois afinal de contas, os últimos anos não foram tão secos quanto o governo propala.


Essa retração da oferta é fruto do inexplicável desinteresse do setor privado em construir novas usinas e da absurda proibição de investimento das empresas estatais , apesar dos lucros obtidos. De 1993 até 2000 o consumo de eletricidade cresceu 50% enquanto a capacidade instalada apenas 30%. Isso obrigou uma utilização das usinas existentes em padrões acima do recomendado, deteriorando-se o grau de segurança compatível com um sistema hídrico. O resultado é o esvaziamento dos reservatórios.


Apesar da evidência dos números que mostram a capacidade instalada perdendo a corrida em relação ao consumo, é espantoso como autoridades do setor elétrico teimam em dizer que não houve falta de investimento e o risco de racionamento é o mesmo em toda década. Impossível! Ou a garantia anterior era exagerada ou a atual é perigosa!


A lgumas autoridades se apressam em culpar a não privatização completa do setor pela penúria energética. Expõem conceitos absurdos como se fossem verdades universais. "A privatização é como a gravidez, não existe meio-termo" – vaticinam alguns. Sistemas híbridos, empresas públicas e privadas convivendo, existem no Canadá, Estados Unidos e Noruega, curiosamente países que apresentam percentual significativo usinas hidráulicas em sua fontes de eletricidade.


As afluências dos rios brasileiros, tropicais que são, mostram probabilidades não desprezíveis de um racionamento de grande porte. Caso isso ocorra, a escuridão afetará fortemente a economia. Considerando-se que a energia elétrica é um insumo importante da indústria, e que cada produto exige um tanto da eletricidade para ser produzido, é tenebroso imaginar o que ocorreria em seqüência. Os efeitos na cadeia produtiva da falta de produtos que são insumos de outros geram um efeito dominó que pode se tornar extremamente grave.


Não é a toa que os Estados Unidos, Noruega e Canadá, também dotados de sistemas hidráulicos, por sinal, estatais, associam uma perda de aproximadamente US$ 3000 para cada MWh não fornecido. O Brasil, erradamente, associa apenas US$ 300 para cada MWh de déficit. Esse parâmetro, sub-avaliado, porém super importante na estratégia de operação e na determinação do preço do mercado atacadista, mostra que o sistema está sendo operado dando pouca importância a um possível racionamento futuro. Em Janeiro, o preço praticado no Mercado Atacadista era de apenas R$ 56/MWh, o que denuncia uma surpreendente avaliação otimista do abastecimento. É muito grave que o sistema em funcionamento na operação e na avaliação de preços não seja sensível à inequívoca e desconfortável situação do frágil equilíbrio entre oferta e demanda.


Essa situação é fruto de uma "terceirização" desnecessária feita no planejamento do setor elétrico através da contratação de consultores ingleses (Coopers & Lybrand) que modelaram a atual configuração. Inicialmente propuseram absurdos completos para a modelagem técnica do parque hidráulico (basta consultar o primeiro relatório dos consultores). Alertados por técnicos da Eletrobrás, Furnas, Eletrosul, Eletronorte, Chesf e CEPEL, remendaram a proposta para um "meio absurdo", onde são inúmeras as adaptações necessárias para a adequação ao sistema brasileiro. Diversas inconveniências ainda permaneceram e estão provocando os diversos problemas regulatórios de hoje. Tratar um sistema hidráulico de porte continental e um mercado consumidor invariavelmente crescente e com demandas sociais não atendidas com um modelo de livre concorrência, é, no mínimo, uma aventura perigosa.


Assim como a P-36, "terceirizações", adaptações e deteriorações do nível da segurança, estão levando o setor elétrico a um provável destino trágico e escuro como as profundezas marítimas onde se encontra hoje a plataforma.


Roberto Pereira d’Araujo

Diretor do ILUMINA – Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico

Rua Capistrano de Abreu 12

Rio de Janeiro

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