PARTE I: Antes do Relatório Técnico oficial sobre o blecaute de 10/11 de novembro de 2009
Em 2001 e 2002 ocorreram inéditos fatos nos registros de consumo de energia no nosso sistema elétrico já intensamente interligado. Simultaneamente e como conseqüência dos preparativos que mostraram a privataria em cena aberta desde 1996, interromperam-se os investimentos em geração hidrelétrica e na expansão dos sistemas de transmissão. Imaginaram um extenso parque de geração a gás natural, superestimando as disponibilidades desse insumo. Completou-se a tragédia quando os insumos hídricos que caem do céu foram menos fartos nos verões do sudeste nos anos 2000 e 2001. O governo de então escolheu esse fato como o grande vilão. Não foi!
Os consumidores foram forçados, num período de nove meses (jun/2001 a fev/2002) a uma redução de 20% no consumo. Somente a partir do fim do primeiro trimestre de 2002 o consumo voltou a crescer. “Durante a vigência do racionamento o mercado sofreu um decrécimo de aproximadamente 7500 MW –médios em relação à tendência anterior” (*). O gráfico de consumo mostrando aquela profunda queda foi e continua a ser mostrado em livros e artigos técnicos. Foi o maior racionamento que se tem noticia em tempos de paz em um sistema interligado de razoável porte. De repente a palavra racionamento começou a ser substituída pela palavra apagão que nos vinte anos anteriores tinha sido adotada no jargão do setor como sinônimo perfeito de “black-out” ou blecaute.
Quando os cidadãos de boa fé pensaram que aquela crise faria baixar as cristas neoliberais, no tempo que restou ao governo da República de abril a dezembro de 2002, o discurso passou a ser o seguinte: o racionamento (resultado da redução nos investimentos em geração) aconteceu, mas, justamente por essa razão, havia necessidade de uma radicalização na desregulamentação, privatização e no novo conceito de planejamento indicativo. Que significa ausência de planejamento estratégico plurianual.
Vamos retornar ao assunto blecaute, contando um antigo evento que ficou na memória de um engenheiro eletricista brasileiro que frequentou um curso de Sistemas de Potência em Schenectady- estado de Nova York em 1965-1966. Em um dia já frio de novembro ( sempre novembro?) de 1965 pelas nove da noite iniciou-se o grande blecaute no sistema interligado dos estados do nordeste americano e da província canadense de Quebec. Na cidade de Nova York o sistema só foi restabelecido às cinco da manhã do dia seguinte. Para aquele engenheiro que continuou a estudar a luz de velas, enquanto os vizinhos americanos imaginavam o inicio de uma guerra nuclear, o evento completou pedagogicamente seu curso. Centenas de artigos técnicos foram produzidos sobre as causas e as recomendadas soluções para reduzir o risco de repetição no futuro de desligamentos em cascata em sistemas elétricos interligados de grande porte. Aquele hiper badalado apagão teve sua causa inicial na abertura, pelo sistema de proteção, de uma das quatro ou cinco linhas de transmissão de 230 kV de interligação com o Canadá. As linhas paralelas sobrecarregadas foram corretamente desligadas uma a uma gerando perda de estabilidade e a cascata de perda de geração predominantemente térmica, inclusive com danos mecânicos sérios em unidades geradoras. É bom lembrar aos sofisticados, mas insuficientes engenheiros eletricistas, que militam no setor elétrico brasileiro desde os anos noventa do século XX, que em < />
No grande apagão de 1999, além da versão oficial de um raio que teria atingido a subestação da CESP de Baurú, foi ventilada a possibilidade de um erro durante uma manutenção na mesma subestação. Mas uma causa foi muito mais importante: o sistema vinha sendo fragilizado pelas providências que degradaram as empresas públicas destinadas à privatização. A devastação dos seus recursos humanos de alto nível, a mediocrização da gestão, a tercerização das equipes de manutenção.
Em seu artigo de 11 de novembro de
No mesmo artigo a jornalista cita as explicações de Cyro Vicente Boccuzzi sobre redes inteligentes, o pulo tecnológico que se seguirá ao dos controles e supervisões digitais aprimorados dramaticamente a partir dos anos oitenta do século XX.
Não é verdade o que registra a jornalista, “os medidores de energia são atualmente os mesmos do tempo dos nossos avós”. Mas as redes inteligentes teriam tudo para vir e ficar. As políticas industriais e tecnológicas do país deveriam ficar atentas à busca da capacitação e autonomia nessa tecnologia. O Ilumina não está informado, mas não se surpreenderia se o CEPEL, recuperando-se desde 2003 da situação de quase extinção que gestores o levaram a partir de 1994, já estivesse se dedicando a ela.
A jornalista conta também que Cyro Boccuzzi afirma que “a rede inteligente exigiria a instalação de painéis de energia solar e pequenas unidades eólicas nas próprias cidades”. Que essa exigência não signifique mais uma ênfase no papel que as pequenas centrais alternativas fotovoltaicas ou eólicas passariam a ter em detrimento da expansão do potencial hidrelétrico de médias e grandes usinas ainda disponíveis ao longo do século XXI.
Transcrevemos trechos de um artigo publicado no jornal interno de Furnas Centrais Elétricas em 1985, motivado pelos dois grandes blecautes ocorridos entre abril de 1984 e agosto de 1985 quando o sistema interligado só cobria as regiões sul e sudeste alcançando Goiás e o Distrito Federal e parte do centro-oeste, com Itaipu iniciando seu fornecimento ao sistema, com suas primeiras máquinas, através do primeiro circuito de extra alta tensão em corrente continua, estando em operação somente o trecho Ivaiporã-Itaberá-Tijuco Preto em 750 kV em corrente alternada, como interligação mais pesada entre o sudeste e sul, inexistindo ainda o primeiro circuito do trecho Itaipu – Ivaiporã que interligaria nos anos seguintes a parte brasileira dos geradores de Itaipu ao sistema.
“ O grande desafio é encontrar os meios de dar o mínimo de conhecimento à sociedade sobre o funcionamento de um sistema elétrico sem pretender entrar em tecnicismos que a grande maioria não está interessada em saber nem precisaria saber para poder influenciar democraticamente no processo como membros da sociedade e como consumidores. Como verbalizar elementarmente este mínimo de conhecimento? É uma angústia que aflige não só os especialistas das disciplinas ditas técnico-científicas, mas também aqueles das disciplinas biomédicas e sociais. A eletricidade, a eletrônica, a teoria do átomo e a energia nuclear, a ciência de computação, certamente mais do que a engenharia civil, por exemplo, tem ares de mistério que dão, sem dúvida, maior oportunidade a seus feiticeiros e sacerdotes de negligenciarem a necessidade e o desejo do homem comum ávido de participação, de um mínimo de conhecimento.”
Mas o apagão de 10/11 de novembro de 2009 foi brindado pelo mais estapafúrdio comportamento da mídia entre todos os extensos apagões ocorridos nos últimos 25 anos. Assistimos um comportamento nada edificante que, lembramos bem, não aconteceu nos dias que se seguiram ao blecaute de 1999.
Junto, assistimos as confusas manifestações de engenheiros especialistas e não especialistas da academia e dos denominados agentes privados do setor elétrico. Surpreenderam ainda mais as manifestações e atitudes dos engenheiros veteranos e competentes, ainda na ativa, no Operador Nacional do Sistema (ONS), esses estranhamente acuados pela imprensa e pelas inacreditáveis manifestações do Ministro de Minas e Energia.
ILUMINA
14/11/2009
(*) – Setor Elétrico Brasileiro – Uma Aventura Mercantil – Roberto Pereira d’ Araújo
O Ilumina publicará neste “site” novas análises e comentários.
Breve:
RACIONAMENTOS E APAGÕES – Parte II – Após o Relatório Técnico Oficial sobre o blecaute de 10/11 de novembro de 2009.