Sobre “lobbies” e mudanças climáticas


Monitor Mercantil 26 de novembro de 2008



SOBRE “LOBBIES” E MUDANÇAS CLIMÁTICAS



Joaquim Francisco de Carvalho



A imprensa brasileira tem avançado muito no tocante à divulgação de informações sobre temas relacionados à preservação ambiental e aos impactos de atividades industriais e energéticas sobre os ecossistemas naturais, e são numerosos os comentaristas que se dedicam ao assunto. Graças a isso, a problemática das mudanças climáticas está hoje entre as grandes preocupações da sociedade. Daí a responsabilidade que têm os comentaristas de meio ambiente, relativamente à correção e precisão das informações que transmitem.


Alguns colunistas, entretanto – embora movidos de boas intenções – transmitem de vez em quando informações que podem induzir a opinião pública numa direção equivocada. Tal é o caso das emissões de CO2 em usinas geradoras de eletricidade.


Nos meios profissionais é de conhecimento corriqueiro que qualquer país que disponha de capacidade técnica e industrial para construir hidrelétricas, procura explorar ao máximo o seu potencial. Bons exemplos disso são a Noruega, o Canadá, os Estados Unidos, a França e o Japão. Até mesmo países com potenciais relativamente pequenos, como a Alemanha e a Grã Bretanha, instalam hidrelétricas até o limite extremo. É assim porque, em vez de usarem combustíveis, as hidrelétricas operam sob a ação do campo gravitacional, que não custa nada e não provoca emissões de CO2.


O Brasil dispõe de um dos maiores potenciais hidrelétricos do mundo, do qual está aproveitando, até o presente, apenas 27%. Mas, paradoxalmente, alguns colunistas de meio ambiente contestam a implantação de hidrelétricas, com o argumento de que estas “emitem mais gases de estufa do que termelétricas”. Eles não percebem que, involuntariamente, estão apoiando o lobby das termelétricas, pois, se o potencial hidrelétrico não for racionalmente aproveitado, a alternativa para atender à crescente demanda de eletricidade indispensável ao desenvolvimento da sociedade brasileira será apelar para as usinas a carvão e a gás natural, que são muito mais poluidoras.


De fato, dado o balanço de massas da reação de combustão do gás natural (essencialmente metano), uma termelétrica com 1.000 MW de potência elétrica e eficiência termodinâmica de 0,50 (semelhante à TermoRio ou à Piratininga, por exemplo), operando com gás de poder calorífico igual a 38,6 megajoules por metro cúbico, emite 7.392 toneladas de CO2 por dia, se operar com fator de capacidade igual a 0,80. Sete mil e trezentas e noventa e duas toneladas de CO2, por dia! – Ora, são raríssimas as hidrelétrica que emitem tudo isso, mesmo num mês inteiro…


É verdade que hidrelétricas também emitem gases de estufa, mas essas emissões vêm, quase todas, da decomposição de material orgânico remanescente no fundo dos reservatórios, com liberação de metano, que se dissolve na água. Durante o funcionamento da hidrelétrica, boa parte dessa água passa pelas turbinas e sai borrifada em gotículas de gases dissolvidos. Esse aerossol, por assim dizer, é aspergido até a uma distância de 10 a 15 metros da saída dos túneis de descarga.


Há, ainda, as emissões provenientes do uso de combustíveis fósseis na construção da hidrelétrica e na fabricação e transporte de seus componentes eletro-mecânicos, mas estas só ocorrem durante a implantação da obra.


As emissões de gases dissolvidos podem ser muito reduzidas por cascas (lâminas delgadas) de concreto armado, construídas justapostamente, em posição inclinada, sobre a saída dos túneis de descarga, com a finalidade de interceptar e devolver as gotículas ao curso d’água, a jusante. A fração restante não causa grandes impactos porque, embora seja 22 vezes mais opaco às radiações infravermelhas do que o CO2, o metano decompõe-se muito mais rapidamente do que este. De resto, a presença de gases dissolvidos nos reservatórios seria bem menor se os responsáveis pela construção de hidrelétricas desbastassem previamente as áreas a serem inundadas e removessem toda a madeira e resíduos orgânicos para locais não inundáveis. Além disso, nas estações secas, quando cai o nível dos reservatórios, o lodo e resíduos vegetais acumulados nas orlas deveriam ser removidos. Em seguida, para evitar que esse material se decomponha ao ar, emitindo metano, pode-se compostá-lo e, em função de estudos agronômicos a serem feitos caso a caso, aproveitá-lo como fertilizante, em plantações circunvizinhas.


Se essas orientações tão simples fossem adotadas, as emissões dos reservatórios hidrelétricos ficariam reduzidas à escala das emissões de qualquer lago natural.


Cabe, por fim, assinalar que as concessionárias de aproveitamentos hidrelétricos deveriam ser as maiores aliadas das floretas, uma vez que a derrubada destas comprometeria o regime hidrológico, com sérias perdas para a própria geração hidrelétrica.


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Joaquim Francisco de Carvalho foi engenheiro da CESP e atualmente é pesquisador do Programa Interdisciplinar de Energia, da USP.








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