Sobre o mito da reciclagem do alumínio


A P R O P Ó S I T O D E M I T O S


Da Reciclagem de Alumínio às Hidrelétricas




Eng. José Antonio Feijó de Melo


ILUMINA-NE Recife, Março/2008




Recentemente, o ILUMINA divulgou em seu site, na seção de Estudos Especiais, interessante artigo de autoria do ambientalista Henrique Cortez, sob o título Questionando o mito da reciclagem do alumínio,(*) no qual o autor, com muita propriedade, chama atenção para o fato de que “o Brasil é recordista mundial de reciclagem de alumínio, com a marca de 96,2%”, mas apesar disso continua a registrar “crescentes recordes anuais de extração de bauxita, de demanda de energia na produção de alumínio e na geração de resíduos no processo de produção”.


Em outras palavras, o Dr. Henrique Cortez procura evidenciar que o Brasil não se tem beneficiado como devia do grande esforço de reciclar a quase totalidade do alumínio de que precisa, o que lhe possibilitaria obter significativas vantagens econômicas e de preservação do meio ambiente, através da redução do consumo de energia elétrica que destina à produção do alumínio primário e da diminuição da quantidade de resíduos resultantes da extração da bauxita, tal como fizeram alguns paises do primeiro mundo, fechando suas unidades de produção.


O Brasil, ao contrário, mesmo não precisando para consumo próprio, continuou com a política de produção em grande escala do alumínio primário, para efeito de exportação, não obstante os preços internacionais do produto não se apresentem tão favoráveis, especialmente considerando-se o alto conteúdo de energia elétrica nele embutido.


Convém recordar que esta política foi uma opção adotada nas décadas de 70 e 80 do século passado, quando o governo federal resolveu estimular a implantação de grandes produtoras de alumínio primário, para fins de exportação, com vistas a dois objetivos: de um lado, aproveitar a suposta oportunidade que se abria no mercado internacional, pelo fato de que alguns paises desenvolvidos estavam fechando suas indústrias de alumínio primário; e, de outro lado, aumentar suas exportações para aliviar o grande desequilíbrio da balança comercial, que resultou dos elevados aumentos dos preços do petróleo, provocados pelos choques da OPEP de 1973 e 1978.


Obviamente, para os paises desenvolvidos era mais conveniente empurrar para o terceiro mundo os problemas criados pela produção de alumínio primário e o Brasil se enquadrava muito bem no figurino, pois dispunha de grandes jazidas de bauxita e de abundante potencial hidrelétrico com energia barata. Então, foi fácil fazer tudo caminhar neste sentido, inclusive estabelecendo-se generosos descontos nas tarifas de energia elétrica para produção de alumínio. A usina hidrelétrica de Tucuruí, construída na época (entrou em operação em 1984), além de se destinar a garantir o suprimento para Belém do Pará, cuja antiga termelétrica local já se encontrava em situação crítica, teve também a finalidade específica de possibilitar a implantação da ALUMAR e da ALBRÁS.


Porém, se naquele momento havia alguma vantagem para o País, não parece haver dúvida de que hoje já não mais existe justificativa para expansão da produção de alumínio primário. Portanto, tem razão o Dr. Henrique Cortez quando propõe que se discuta o atual “modelo econômico escorado na exportação de produtos primários” pois, pelo menos quanto ao alumínio, há fortes indícios de que não mais interessa ao Brasil.


Entretanto, admitindo-se que o alto grau de reciclagem de alumínio alcançado no Brasil tenha se tornado um “mito” a ser questionado, pelas próprias razões expostas no artigo citado, do mesmo modo se pode questionar outros mitos que têm sido assumidos em relação a supostos efeitos negativos que seriam provocados por usinas hidrelétricas a serem construídas na Amazônia, os quais não correspondem à realidade.


Por exemplo, a idéia de que tais hidrelétricas criarão “imensas áreas de floresta alagadas”, com “milhares de pessoas removidas”, incluída no artigo mencionado, constitui um desses “mitos”, conforme abaixo se pode observar.


Em primeiro lugar, nem todas as hidrelétricas, mesmo as de grande potência, precisam de reservatórios com grandes áreas de inundação. As usinas a-fio-d’água, por exemplo, como as do Rio Madeira, Santo Antonio e Jirau, não precisam. Por isso, as suas barragens não provocarão inundações maiores do que aquelas que o rio normalmente já atinge nas épocas das enchentes e, também, não haverá remoção de grandes contingentes populacionais.


Apenas as barragens com as importantes funções de regularização plurianual das vazões e de controle de enchentes (e estas não são funções necessariamente negativas para um rio) precisarão de reservatórios com grandes volumes de acumulação e, consequentemente, com maiores áreas de alagamento. Porém, a noção do que é grande ou pequeno é, essencialmente, relativa. Um reservatório com 1.000 km2 de área no vale do rio Paraíba do Sul, por exemplo, seria grande, enorme, hoje em dia totalmente inviável. Mas seria um nada em relação à imensidão amazônica. É claro que os efeitos sobre o meio ambiente provocados por um tal empreendimento teriam de ser devidamente avaliados e, se admitidos como aceitáveis, mitigados e compensados em acordo com os benefícios que se espera do empreendimento, no caso a produção de energia elétrica.


Além do mais, não se pode esquecer que a floresta amazônica é de fato uma floresta úmida, onde consideráveis áreas já são alagadas regularmente ou pelo menos durante vários meses de cada ano e, em sendo assim, os alagamentos não devem ser vistos, a priori, obrigatoriamente como um grande mal.


Por outro lado, é sabido também que em toda a área da floresta amazônica, salvo em torno dos grandes aglomerados urbanos, a população é bastante rarefeita, sendo muito pouco provável que, nos locais onde deverão ser implantados os grandes reservatórios, existam povoações com muitos milhares de habitantes a serem removidos. Na verdade, isto não passa mesmo de mito, a não ser que venha a se repetir estranhos fenômenos, como aquele que aconteceu na construção de uma certa barragem onde, no início das obras, em meados dos anos setenta do século passado, um recenseamento levantou uma população de exatos 13.670 habitantes na área a ser inundada, sendo 9.400 habitantes nas áreas urbanas (três sedes municipais) e 4.270 habitantes nas zonas rurais. Mas, alguns anos depois ao final dos trabalhos, observou-se que haviam sido indenizadas e reassentadas 52.400 pessoas que supostamente tinham sido atingidas pela barragem.


A verdade é que esses e outros mitos que têm sido criados contra as hidrelétricas, sabe-se lá por quem e com que interesses, têm levado importantes setores da sociedade brasileira a se posicionarem equivocadamente contra a construção dessas usinas, notadamente na Amazônia, quando sem qualquer sombra de dúvida elas constituem a melhor opção para produção de energia elétrica, sob qualquer ponto de vista, inclusive com relação ao meio ambiente.


Por isso, surpreende o fato de que, ao invés de hidrelétricas, já estão sendo projetadas, inclusive para a própria Amazônia, usinas térmicas a carvão mineral importado, as quais, entre outros graves efeitos de poluição ao meio ambiente, irão contribuir fortemente para o aquecimento global e produzir chuva ácida. No entanto, não deixa de ser curioso que até agora não tenha aparecido nenhuma objeção forte quanto à implantação deste tipo de usina em vários pontos do País.


Também não seria demais considerar como outro mito a afirmação contida no artigo inicialmente referido de que “o governo continua investindo no aumento da geração de energia elétrica para atendimento à indústria eletro-intensiva que sozinha consome l/5 de toda geração brasileira”. De fato, faz muito tempo que o governo brasileiro não investe nada nesta área, nem diretamente e nem mesmo através de suas estatais do setor elétrico. No modelo criado por FHC e neste particular mantido por Lula, os investimentos em geração de energia elétrica ficaram por conta da iniciativa privada, embora sempre escorados nos financiamentos do BNDES. No governo Lula as estatais foram autorizadas a investir em geração, mas somente em associação minoritária com grupos privados. Porém, afora a usina de Santo Antonio cuja construção está sendo iniciada com a participação de FURNAS, até o momento ainda não surgiram outros projetos significativos sob esta forma. Aliás, registra-se que agora o Congresso acaba de transformar em lei uma Medida Provisória de fevereiro passado, na qual finalmente o governo autoriza a Eletrobrás a assumir um papel mais ativo na liderança de investimentos para a produção de energia elétrica. No entanto, ainda não se sabe como de fato isto vai ocorrer.


Por último, cabe também observar que por causa do alumínio não se deve discriminar nem condenar indistintamente toda a indústria eletro-intensiva nacional por que sozinha ela consome cerca de 20% de toda a geração brasileira. Se é verdade que aproximadamente um-quarto desta energia (cerca de 5% do total nacional) se destina à indústria do alumínio, também é verdade que os outros três-quartos (cerca de 15% do total) destinam-se a outros setores industriais de fundamental importância para o País, como os de cimento, pastas e papéis, siderúrgico e petroquímico.


Em resumo, desfazendo-se os mitos, há de se reconhecer que o potencial hidrelétrico da região amazônica constitui a melhor opção do Brasil para garantir a energia elétrica de que necessita para o seu desenvolvimento econômico-social e que isto pode ser feito mediante aproveitamento racional, sem devastação e com total respeito ao meio ambiente.



(*) para ler o artigo digite a palavra “reciclagem” em Busca ILUMINA, OK







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