TERMELÉTRICAS A GÁS NATURAL A SOCIEDADE PRECISA SER INFORMADA COM TOTAL CLAREZA E DETALHE
Anúncio de página inteira do Correio Braziliense, em 31 de agosto, com as siglas da Petrobrás, Eletrobrás, Ministério de Minas e Energia e Governo Federal, informava ao povo brasileiro, com ênfase extraordinária, sobre as maravilhas futuras da geração elétrica utilizando fartíssimas reservas de gás natural no Brasil e na vizinha Bolívia.
Mapa do país anunciava uma coleção de 24 usinas, com capacidade instalada variando de 70 a 2000 Mw, espalhadas por 13 estados, somando um total de 13501 Mw. O anúncio, gentilmente informava, com marcas específicas no mapa, que 16 usinas ( 8386 Mw) estariam " viabilizadas" e 8 usinas (5115Mw) "em viabilização".
Não é informado o horizonte do programa de instalação. É dado importante que os anunciantes devem a sociedade. Outras versões recentes nos levam a acreditar face também a alegre ênfase do anuncio que os 13,5 Gw são programados para entrarem em operação em menos de uma década.
Usos e costumes cultivados no país também deixam dúvidas sobre a existência de outros patrocinadores do anuncio. Isto é, os grandes fabricantes internacionais de sistemas de geração termelétrica a gás natural. Afinal, tal quantidade de megawatts térmicos fazem brilhar os olhos daqueles fornecedores. Em outros tempos apostaríamos (hoje seria um pequeno consolo) que as firmas de consultoria e engenharia brasileiras estariam também envolvidas. Essas, contudo, faleceram.
Como qualquer programa de geração de energia térmica depende da disponibilidade a longo prazo do combustível escolhido, acreditamos que o público, mesmo leigo, deveria ser o primeiro a ser informado sobre todos os detalhes do programa e, principalmente, sobre as perspectivas das reservas atuais confirmadas e daquelas em prospeção num horizonte, digamos, de no mínimo 30 anos.
É nessa linha que, em falta de dados cuja confirmação detalhada seria de total responsabilidade dos anunciantes estatais, passamos a fazer alguns exercícios bem pertinentes. Tomemos duas usinas térmicas a gás natural, uma de 400 Mw que consumiria 2 milhões de m3 de gás por dia, outra de 520 Mw (como veremos, 15,4 % mais eficiente) que consumiria 2,2 milhões de m3 por dia. Teríamos dois razoáveis pontos de uma curva de consumo específico. Uma usina consumiria 5000 m3/Mw/dia e a outra 4230 m3/Mw/dia. Vamos tomar a média de 4615 m3/Mw/dia. Continuando o exercício com essa média, concluiríamos que os 13501 Mw térmicos anunciados na página inteira do Correio Braziliense necessitaria 62,3 milhões de m3 de gás natural por dia. Informações disponíveis nas quais devemos acreditar, dão que a capacidade atual de transporte do gasoduto Brasil-Bolivia é de 16 milhões de m3 por dia, podendo alcançar 22 milhões de m3. Para chegar aos 32 milhões será necessário bombeamento adicional. Esse último valor está perto daquele informado em matéria assinada por Maurício Palhares no Jornal do Brasil de 2 de setembro e reproduzida nessa " home page" : 30 milhões de m3 por dia. Na matéria não é ressalvado que essa capacidade de transporte necessitaria investimento adicional. Na mesma matéria encontramos a informação que o governo prevê um consumo total de gás natural de 60 milhões de m3 por dia em 2004.
O público especializado ou leigo, face ao elementar exercício acima elaborado, pode começar a ficar preocupado. O ano 2004 está 5 anos no futuro. Quanto dos 13,5 Gw estariam em operação até aquela data ? O gasoduto Brasil-Bolivia será duplicado nesse prazo ? Quais as metas de geração a gás natural em prazo mais dilatado ? Como evoluirão as reservas bolivianas? ? E as brasileiras ? Como é a tal hipótese de interligação de gasoduto com o Peru ? E/OU outros vizinhos ?
Os patrocinadores estatais , se existir boa fé, são convidados a voltarem, não em páginas inteiras de jornais diários, a informar o público. Dessa vez, entretanto, de modo completo, detalhado e cristalino sobre mais essa faceta do modelo predatório e desnacionalizante adotado para o setor elétrico brasileiro.