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Indústria de SP deixará de criar 13 mil vagas
Crise de oferta de eletricidade é mais grave que a do petróleo, em 1973, segundo a Fiesp
ISABEL DIAS DE AGUIAR
A indústria paulista poderá deixar de criar 13 mil empregos este ano por causa do racionamento de energia, segundo estimativa preliminar feita pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Inicialmente estava prevista a oferta de cerca de 23 mil vagas em 2001, pouco menos do que ocorreu no ano passado, quando foram contratados 27,4 mil trabalhadores.
Tudo depende da forma como forem feitos os cortes de energia, da duração do racionamento e do seu impacto sobre a atividade industrial, afirmou ontem o diretor do Departamento de Infra-estrutura da Fiesp, Pio Gavazzi. De qualquer forma, para ele, o prejuízo para a economia e para a sociedade será enorme. "A crise é mais grave do que a do petróleo, em 1973", afirmou.
O quadro poderá agravar-se caso não sejam tomadas providências de efeito rápido, como a construção de linhões para trazer energia da Argentina e da região Norte. A diretora do Departamento de Pesquisas Econômicas da Fiesp, Clarice Messer, acredita que poderá até levar à dispensa de trabalhadores, caso essa situação se prolongue até o próximo ano.
O risco de os reservatórios permanecerem em níveis baixos até o próximo ano é elevado, acredita Gavazzi. Ele criticou o governo pela demora em tomar providências e pela resistência em admitir o problema, apesar das advertências feitas por entidades do setor privado desde o ano passado. A Fiesp tentou alertar o governo e foi recriminada, disse. "Fomos chamados de terroristas e de estar a serviço das empreiteiras."
Mesmo sem racionamento, a recuperação do mercado de trabalho na indústria tende a arrefecer. Em abril, o nível de emprego permaneceu estável, com crescimento de 0,04%, com a contratação de apenas 648 trabalhadores. Desde janeiro, foram criadas apenas 2.750 vagas pela indústria paulista.
O economista Sérgio Mendonça, pesquisador do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio Econômicos (Dieese) responsável pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), também acredita que o risco de o racionamento de energia afetar o nível de emprego no País está, no curto prazo, muito mais relacionado à freada na criação de novas vagas do que ao corte imediato de pessoal.
Para Mendonça, a crise no setor elétrico é grave, mas só dentro de pelo menos três ou quatro meses será possível ter idéia do que serão os efeitos no mercado de trabalho. "É prematuro afirmar qualquer coisa agora, diante de um cenário desconhecido, sem dados confiáveis para estimativas", disse.
Mendonça acredita que a indústria será especialmente afetada pelo racionamento, justamente o setor que mais vem criando vagas de trabalho formais nos últimos meses. (Colaborou Claudia Bredarioli) Estadão 11/5
Volta da sobretaxa
Governo estuda criação de ‘tarifa de ultrapassagem’
VALDEREZ CAETANO, GUSTAVO KRIEGER E FERNANDO THOMPSON
BRASÍLIA – O governo está estudando a criação de uma nova tabela tarifária para o setor elétrico, que receberia o nome de ”tarifa de ultrapassagem”. O modelo, na verdade, é um mecanismo que obrigará as pessoas a reduzirem o consumo de energia. A idéia foi levada ao Palácio do Planalto por técnicos do Ministério da Fazenda e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Segundo eles, a tarifa de ultrapassagem seria uma alternativa para a multa prevista anteriormente no Plano de Contingenciamento e que foi vetada pelo presidente Fernando Henrique, diante da reação negativa dos consumidores.
Na verdade, os técnicos apenas tomaram o cuidado de dar uma nova roupagem à proposta. A palavra multa foi abolida, porque pode dar margens a ações na Justiça, idéia que apavora o presidente, ainda mais que 2002 é ano eleitoral. Mas os técnicos insistem com a tese de que sem um mecanismo financeiro será difícil forçar a queda no consumo, o que compromete ainda mais o já combalido sistema elétrico nacional.
A tarifa de ultrapassagem consiste no pagamento de uma ”taxa” mais cara para quem desperdiçar eletricidade. Mas, ao contrário do projeto anterior, no qual somente as residências que consumiam até 50 quilowatts/hora (Kw/h) escapavam da multa, a nova tarifa vai ter uma preocupação social. A idéia é cobrar tarifas maiores de quem ganha mais. O controle será feito através da conta de luz. ”Quem consumir mais vai pagar mais”, explicou um técnico.
No modelo vetado pelo presidente, quem consumisse entre 51 Kw/h e 100 Kw/h pagaria duas vezes mais pela energia que excedesse a cota definida pelas distribuidoras. Os consumidores que gastassem entre 101 Kw/h e 500 Kw/h, iriam pagar cinco vezes pelo que consumissem a mais. Entre 501 Kw/h e 1.000 Kw/h, pagariam dez vezes mais caro pela energia excedente. E os grandes consumidores residenciais, com consumo acima de 1.000 Kw/h, iriam pagar 15 vezes mais. O plano incluía ainda multa para quem insistisse em gastar além do permitido, que dobraria o valor na primeira vez. E para quem gastasse mais pela segunda vez, a conta seria multiplicada por três. (JB 11/05/2001)
Parente comanda racionamento
Presidente convoca ministro-chefe da Casa Civil para organizar situação classificada de ”dramática e confusa”
BRASÍLIA – Depois de uma hora e meia de reunião no Palácio da Alvorada, o presidente Fernando Henrique Cardoso interveio, ontem, no setor elétrico e indicou o ministro-chefe do Gabinete Civil, Pedro Parente, como novo coordenador do plano de racionamento de energia. Ao lado dos ministros Pedro Malan, da Fazenda, Alcides Tápias, do Desenvolvimento, Martus Tavares, do Planejamento, general Alberto Cardoso, da Segurança Institucional, José Jorge, das Minas e Energia e Armínio Fraga, presidente do Banco Central, o presidente chegou à conclusão de que a situação no setor elétrico é dramática e confusa.
”Nunca se soube que o problema era desse tamanho, O quadro era pior do que nos tinha sido informado”, disse o ministro Pedro Parente. Para coordenar o novo plano, Parente deixará temporariamente o Gabinete Civil com seu secretário-executivo, Silvano Gianni. Mesmo nas novas funções, Parente continuará despachando em seu gabinete no Palácio do Planalto e, na prática, assumirá as funções do ministro das Minas e Energia, que passa a ocupar um cargo absolutamente decorativo.
Ineficiente- Durante a reunião, o governo avaliou que nem o ministério de Minas e Energia, nem a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), nem tampouco o Organizador Nacional do Sistema foram capazes de produzir um plano consistente para enfrentar o problema da falta de energia. para o governo, toda a mega-estrutura criada para regulamentar o setor também se mostrou ineficiente. O presidente da Aneel, José Maria Abdo, apresentou um desempenho errático e corporativista.
De nada valeram também os alertas de Mário, da ONS, que desde abril do ano passado, conforme publicou o Jornal do Brasil, vem alertando para os riscos de um colapso no setor elétrico. O governo critica também a gestão do ex-ministro Rodolpho Tourinho apontado com um dos responsáveis pelo desarranjo do setor.
Na verdade, com a indicação de Parente, o governo FH encerra um longo ciclo de domínio do PFL no comando do setor elétrico. Foram ministros das Minas e Energia os pefelistas Raimundo Brito, no primeiro mandato, e Rodolpho Tourinho, que somente foi demitido depois que FH e ACM entraram em rota de colisão. Há três meses, o atual ministro, José Jorge, também do PFL, mostrou-se despreparado para enfrentar a crise mais grave vivida pelo setor. Seu entendimento de energia é quase o mesmo de um cidadão comum. Como prêmio de consolação, coube a ele na reunião de ontem sugerir a criação de uma instância para resolver o caos. Foi o que o presidente precisava para realizar a intervenção no setor com a indicação de Parente.
Ontem pela manhã, ao ler as manchetes dos jornais, FH percebeu que o problema necessitava de um tratamento de emergência. Parente já tinha ganho pontos, ao propor que o presidente reunisse os ministros no dia anterior, para mobilizá-los contra a aprovação da CPI da Corrupção pelo Congresso Nacional. Ontem, ao deixa o encontro já nas novas funções, Parente assegurou que não haverá multa para os consumidores que não reduzirem os gastos com energia elétrica. Mas não quis adiantar se haverá ou não uma mecanismo de repasse de aumento de tarifa para quem consumir mais. ”Ainda não tenho idéia do que que vamos fazer. O que se sabe é que nunca enfrentamos um problema desse tamanho, agravado por um ano hidrológico muito ruim”, disse ao Jornal do Brasil.
Hoje, Parente começa o seu trabalho de coordenador do racionamento de energia. Participa, pela manhã, no Rio, de uma reunião do Conselho de Administração da Petrobrás. Na volta a Brasília, terá um encontro o ministro José Jorge para traçar as diretrizes do novo plano de racionamento.
Estadão 11/5
Consumidores terão duplo prejuízo
Distribuidoras querem reajustar tarifas mesmo com redução do uso da energia
RENÉE PEREIRA e CLÁUDIA BREDARIOLI
Há risco iminente de o consumidor ser prejudicado duas vezes com a contenção do fornecimento de energia: com a redução o uso e, ao mesmo tempo, pagando mais pela eletricidade que não teve. Isso devido ao fato de o custo do racionamento poder ser repassado para as tarifas, mesmo que não imediatamente, como admitiu ontem o diretor-presidente da Empresa Bandeirante de Energia, Júlio de Barros. No entanto, se isso ocorrer, o consumidor irá pagar permanentemente por um gasto temporariamente maior das empresas do setor, conforme alerta do coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe), Heron do Carmo.
De acordo com o economista, é exatamente a definição do porcentual de reajuste da tarifa de energia elétrica o item que praticamente deverá ditar o resultado dos índices de custo de vida neste ano. Segundo Heron, mesmo diante o risco de ultrapassar a meta inflação, é importante considerar que o Banco Central (BC) deve buscar por todos os meios manter o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como base, próximo dos 4% previstos.
"Se o resultado se distanciar da meta apenas por causa das tarifas, a questão estará perfeitamente justificada e não há necessidade de desespero", pondera Heron. "Se o IPCA fechar o ano dentro dos 4%, então será a glória."
Ele ressalta que o próprio BC já considera como meta livre apenas 2% do resultado anual do índice, o restante estaria comprometido com os reajustes das tarifas públicas. "O importante é que a questão seja resolvida neste ano."
Aumento – Por enquanto, mesmo considerando a necessidade de repasse da redução do faturamento, as distribuidoras ainda não têm previsão de como e quando isso poderia ocorrer. O diretor-presidente da Bandeirante, por exemplo, não tem estimativa de qual seria o porcentual a ser repassado para as tarifas. Ele sinalizou, porém, que o reajuste poderia ocorrer somente no próximo ano, após o racionamento.
Segundo ele, no momento certo, a distribuidora deverá pleitear o repasse do impacto do corte de eletricidade sobre a sua receita. "Mas esse pedido não será simultâneo ao racionamento, pois não queremos prejudicar o programa do governo."
De acordo Barros, o efeito do corte sobre o faturamento da empresa será direto, no mesmo porcentual da redução do consumo. Isso significa que se o governo efetuar um corte de 20%, a receita da empresa deverá recuar entre 17% e 20%, o equivalente a R$ 760 milhões, se comparado ao faturamento do ano passado, em torno de R$ 3,8 bilhões.
Estadão 11/5
Até terça, equipe econômica ignorava dimensão da crise energética
Rio, 10 – Foi na reunião do CNPE, terça-feira, que os ministros da área econômica tiveram seu primeiro contato ”com a real extensão da gravidade da crise”, segundo David Zylbersztajn, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. Zylbersztajn também participou dessa reunião de anteontem do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), em Brasília, e foi um dos principais responsáveis pela derrubada da idéia do racionamento por cotas e das multas nas contas de luz. ”Foi a primeira apresentação efetiva da gravidade da situação para os ministros da área econômica, da Fazenda, do Desenvolvimento e do Planejamento. Sem trocadilho, houve um certo choque”, afirmou Zylbersztajn.
”Uma coisa é dizer que a situação está horrível, outra é avaliar os números sobre os níveis dos reservatórios. São as piores condições dos últimos 60 anos.” ”Acabou a fase de energia farta e barata no Brasil”, afirmou ontem o diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo), David Zylbersztajn. O país, na opinião do diretor-geral da ANP, que integra o CNPE, vive um processo de pós-industrialização pelo qual já passaram economias mais modernas, como o Japão no início dos anos 70. Devido ao alto custo da energia, o Japão transferiu para o Brasil a produção de alumínio que fabricava lá, exemplificou. ”O Brasil sempre foi um país de empresas muito consumidoras de energia porque a tinha abundante e barata”, disse.
Produções industriais que se justificavam na ”época de energia farta” poderão ser atingidas, segundo ele. Para ele, o Brasil terá que partir para processos mais eficientes, como fizeram os países mais modernos, onde o crescimento do consumo de energia é sempre menor do que o do PIB (Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas). ”Um consumo menor de energia está associado à modernização da economia”, afirmou. Zylbersztajn reconhece que essa transição não é tão simples, porque o país ainda tem carências de infra-estrutura, e que esse tipo de investimento demanda energia.
O diretor-geral da ANP considera ”chute” as projeções do impacto do racionamento no PIB brasileiro. Ele lembrou, no entanto, que as regiões que serão atingidas -Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste- respondem por 80% do PIB. Zylbersztajn criticou a empresa americana AES, que anunciou a suspensão de investimentos de cerca de US$ 2 bilhões no país, culpando a falta de regras claras para o setor elétrico. ”Achei de uma inabilidade total. Quando eles voltarem, terão tratamento à altura do que estão dando ao país agora. Não será pelos US$ 2 bilhões da AES ou por um punhado de dólares que o Brasil vai cair de joelhos”, disse Zylbersztajn. Ele também criticou a Volkswagen, que ameaçou transferir uma fábrica para a Argentina, chamando de ”arrogância quase imperialista” a posição da empresa. Para a ANP, a crise favorece a vinda de petrolíferas para o país. ”O momento é de partir para uma matriz energética diversificada, voltada para o gás, usando combustíveis fósseis”, disse. Se o gás respondesse por pelo menos 10% da matriz energética do país -está atualmente em 3%-, a situação hoje seria muito mais confortável”, afirmou. Fonte: Folha Online (Isabel Clemente)