Comentário do ILUMINA
Dr. Mario Santos nos desculpe, mas o problema não é apenas climático. É falta de investimentos mesmo! Essa famosa frase " se os índices pluviométricos atingirem 80% da média histórica" é uma aposta muito arriscada, pois, olhando o histórico das afluências dos rios do sudeste, onde estão os maiores reservatórios do país, a probabilidade de ocorrência de uma vazão abaixo de 80% da média é muito alta. Quase 30%! O ILUMINA não quer o racionamento apenas para evidenciar seu ponto de vista. Entretanto, também não queremos que a sociedade brasileira seja enganada a respeito do real nível de garantias do setor, agora liberalizado. É preciso abrir o jogo!!
Valor Econômico 2/3/2001
Falta de chuvas baixa reservatórios e deixa o setor elétrico em alerta
Cláudia Schüffner, Do Rio
A falta de chuvas em partes da região Sudeste e no Nordeste está preocupando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e os empresários. O nível dos reservatórios está em situação crítica e alguns já falam em medidas de racionamento, apesar de ninguém no setor admitir essa palavra oficialmente.
Os conselheiros da ONS ouviram um relato dessa situação numa reunião ocorrida dia 12 de fevereiro. No prognóstico apresentado durante esse encontro, os reservatórios precisavam chegar no mês de maio com capacidade de gerar 50% da potência das principais usinas do país.
Para isso, seria suficiente que os índices pluviométricos atingissem 80% da média histórica brasileira. Mas isso não vem acontecendo.
À meia-noite do dia 28 de fevereiro, a energia armazenada nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste era de apenas 38,69%, e nas regiões Norte e Nordeste, a média estava em 44,20%. E para chegar aos 50% desejáveis em maio será preciso que chova intensamente nos próximos dois meses. O presidente da ONS, Mário Santos, admite que as chuvas estão abaixo das expectativas, mas afirma que é preciso aguardar os próximos 60 dias para ter definição melhor da situação.
"Estamos alertas e preocupados porque a situação climática é muito crítica. Mas ainda é cedo para dizer que o sistema tem problemas", explica.
No Sudeste, a média de chuvas ficou em 70% no mês de janeiro e em 64% no mês de fevereiro, aquém das expectativas. E na região Nordeste, a média foi de 70% em janeiro e 35% em fevereiro e por isso os reservatórios chegaram a março com energia acumulada 10% abaixo do esperado.
Segundo Mário Santos, o baixo volume de águas até agora pode ser compensado nos meses de março e abril se as frentes frias atravessarem o bloqueio e provocarem chuva nas bacias do Rio Grande e Paranaíba.
A chuva foi escassa nesses locais durante o carnaval: na bacia do Paranaíba choveu apenas 39% da média histórica, e no Rio Grande o índice ficou em 32%.
Se a energia acumulada nos reservatórios chegar ao mês de maio abaixo de 50%, será necessário implantar programas de redução do consumo em cerca de 5% por mês até o final do ano.
Em outras palavras, será preciso racionar energia.
Até lá, a ONS espera o início da operação de usinas térmicas, que vão acrescentar 3.000 megawatts médios ao sistema integrado brasileiro. Segundo um executivo do setor, a data crítica para "acender o farol vermelho" é 19 de março.
"Está todo mundo acompanhando o quadro diariamente e todos cruzando os dedos para que esse quadro (de racionamento) não se configure", afirma um executivo que comanda uma grande empresa no Brasil.
Historicamente, se os níveis de chuva forem suficientes até 19 de março é possível prever a oferta de energia nos meses seguintes. "Só então será possível ter segurança sobre o que vai ou não acontecer. Até lá, o sinal está amarelo", afirma o executivo.
A falta de chuvas está sendo um problema desde o início do ano. Com um mês de janeiro mais seco do que o usual, os reservatórios da região Sudeste, que respondem por 70% do abastecimento do país, fecharam o mês passado ao nível de 31,4%. O que significa que o sistema energético brasileiro passou a depender mais de chuvas nos próximos meses do que dependia em dezembro do ano passado. (fonte Valor Economico 2/3/2001)
Jornal do Commércio 2/3/2001
Cézar Faccioli
MaréO governo de Santa Catarina, à frente Esperidião Amin,, mesmo pressionado pelos vencimentos das parcelas da renegociação da dívida com a União, encontrou espaço para evitar a privatização definitiva da Celesc. A empresa terá a distribuição mantida sob controle estatal, vendendo os ativos de geração e telecomunicações. O acordo abre precedente para recuo na venda da Cemig.
A decisão catarinense provavelmente ainda é ignorada pela maior parte do mercado financeiro, tanto que as ações da Celesc chegaram a subir 8% no pregão de ontem da Bovespa. A revisão do modelo de ajuste, contudo, está longe de configurar um fato isolado. A própria confiança dos gestores do programa nacional de privatização na venda das grandes geradoras do sistema Eletrobrás, como Furnas, Chesf e Eletronorte, passa por um momento de abalo.
COQUETEL. A vitória de opositores declarados ao atual modelo de venda do setor elétrico, casos de Aécio Neves e Jáder Barbalho, é um ingrediente forte de um coquetel mais amplo, que inclui a insatisfação detectada por pesquisas de opinião pública com grande parte dos serviços privatizados. O mesmo pragmatismo que motivou a virada liberalizante da maior parte do tucanato e fez com que homens formados à esquerda do espectro político assumissem o comando da desestatização começa a contribuir para a constatação da necessidade de um ritmo mais lento e cuidadoso de transferência para o controle privado das atividades remanescentes.
O risco de colapso no fornecimento de energia no Sudeste, antes restrito a papers acadêmicos de think tanks do estatismo, como a Coppe e o IEI/UFRJ, freqüenta agora relatórios de bancos de investimento estrangeiros, como o Salomon Smith Barney. O paper adverte para as conseqüências de um regime de chuvas no Sudeste de não mais de 75% da média histórica sobre os reservatórios e o potencial gerador das hidrelétricas, e para a dificuldade de suprir esse gap com os excedentes do Sul, por falta de investimentos em transmissão. em outros tempos, esse diagnóstico estimularia uma venda mais rápida, para liberar o investimento privado e desafogar as empresas.
O quadro, aos poucos, parece estar mudando. Só será possível um juízo definitivo quando vier à luz a decisão sobre o substituto de Rodolfo Tourinho nas Minas e Energia, se é que a pasta será mantida em sua inteireza, sem incorporação a um superministério de Infraestrutura. A maior parte dos nomes cogitados, contudo, é de críticos da venda de Furnas, como Paulino Cícero e Eliseu Resende. O raciocínio que prevalece é que os investidores disponíveis para viabilizar a ampliação de capacidade, pela construção de termelétricas ou linhas de transmissão, são os mesmos que se interessariam pela absorção de ativos já instalados e amortizados. Não haveria apetite suficiente para dar conta das duas frentes, somente pelo aporte de recursos externos.
Se é para depender de investimentos de fundos de pensão de funcionários de estatais e parcerias de Petrobras e Eletrobrás regadas com financiamentos do BNDES, melhor deixar como está, segundo a lógica que ganha peso no Governo.