JB 14/3/2001
Racionalização de energia para evitar racionamentoNovo ministro diz que adequar consumo à oferta de eletricidade é sua prioridade
GABRIELA LEAL
BRASÍLIA – O novo ministro José Jorge admitiu ontem, durante sua posse na pasta de Minas e Energia, a racionalização do uso da energia através da administração da demanda com a redução do consumo nos horários de pico. Mas descartou o racionamento, que, no seu entender, seria o controle do volume involuntário aos usuários de forma ”autoritária e unilateral.”
Presente à solenidade de posse no Palácio do Planalto, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que ”a chuva em Minas é essencial para não termos agruras na questão de produção de energia.” FHC também admitiu a complexidade da questão de hidroeletricidade, cuja oferta precisa crescer no país.
Desabastecimento – José Jorge afirmou ontem que sua prioridade será ”enfrentar a questão da energia elétrica”, adequando o consumo à oferta disponível no momento. Dados do próprio Ministério indicam que o país enfrenta a ameaça de desabastecimento caso não haja a continuidade das chuvas em Minas Gerais, onde estão localizados importantes reservatórios da região Sudeste. O presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, também na posse de Jorge, informou que o aumento do consumo de energia em 2000 deve ficar entre 4,5% e 5%.
Atualmente, estes reservatórios estão com 34% de sua capacidade, enquanto o volume ”confortável” seria de 50% até o final da estação chuvosa em abril, segundo o diretor de Operação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Carlos Ribeiro. No fim do ano passado, o nível dos reservatórios da região Sudeste estava em 28%.
Segundo alguns técnicos de Furnas a situação é ”muito difícil” e ”de alerta.” O diretor do ONS disse que não se recordava de outra situação ”tão marcante” quanto a de agora. Isso levou a instituição a entregar, anteontem, um estudo à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) relatando as dificuldades e as medidas a serem adotadas, que ele não quis detalhar. O diretor explicou que não se pode falar ainda em racionamento porque até o final de abril as chuvas podem contribuir para que os reservatórios atinjam o nível de segurança.
Campanha – O ministro José Jorge adiantou ainda que para racionalizar o uso da energia poderiam ser oferecidos prêmios e realizados sorteios aos consumidores residenciais, como forma de estimular a redução do consumo. Contudo, ressaltou o ministro, isso é apenas uma possibilidade, ”pois estamos confiantes de que vai continuar chovendo. ”Hoje (ontem) mesmo eu andei na chuva de bermuda e camiseta para dar sorte”, comentou.
Em seu discurso, José Jorge alegou ser preciso ”estruturar a demanda, reduzir as perdas e, no limite, até criar instrumentos de incentivo.” Outras possibilidades levantadas pelo ministro foram a utilização de gás natural em shoppings centers e a negociação com os grandes consumidores. Atualmente, cerca de 15% da energia gerada é perdida, com 8% de dispercídio no consumo e 7% de perda na transmissão da energia.
O ministro destacou cinco compromissos a serem cumpridos até 2002. Entre eles a aprovação de um projeto de lei que trata do setor de geração de energia elétrica, fundamental para o desenvolvimento do modelo setorial. Além disso está prevista a ampliação da capacidade de geração de energia térmica em 11 mil MW com a conclusão ou ampliação de 15 usinas hidrelétricas. Ele citou também a construção de 20 pequenas centrais hidrelétricas e 20 usinas termelétricas; a construção de sete mil quilômetros de linha de transmissão em alta tensão; investimentos da Petrobras de R$ 13 bilhões ao ano e a ampliação de infra-estrutura de transporte de gás natural por meio de dois gasodutos.