Modelo Mercantil no Setor Elétrico Brasileiro: Risco para Investidores e Consumidores.
Talvez a experiência do racionamento não tenha sido suficiente para derrubar os mitos que tomam conta das cabeças neo-liberais que comandam nosso setor. Por isso é interessante examinar o assunto retomando a questão das bases. Será que o capital que vem investir no Brasil gosta de risco? Pelas "certezas" do governo, pode-se até pensar que esses recursos venham de Marte, tal a insistência em criar um ambiente de risco para o setor elétrico. Para nós, gostam do risco do negócio, apesar do governo, muitas vezes, não deixar que eles corram ao menos esse. Mas, será que gostam de risco que eles não podem controlar?
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Os que acreditam ser possível aplicar o modelo de mercado inglês ao sistema brasileiro argumentam que o risco é aceitável, pois na maioria do tempo, o sistema tem energia em abundância, portanto preço "spot" baixo. Essa maior ocorrência de preços baixos possibilitariam, por exemplo, que usinas mercantis comprassem energia no mercado spot, complementando a geração hidráulica e tornando viável um suprimento contínuo. O gráfico que mostra a distribuição típica de probabilidades do preço spot no Brasil foi mostrada no Relatório de progresso nº 2 do próprio governo pode e ser visto clicando aqui.
O gráfico foi contruido colocando-se em ordem crescente o número de ocorrências dos preços do eixo vertical em um conjunto de 64 cenários hidrológicos que cobrem uma grande diversidade de situações. No gráfico, fica evidente que na maioria do tempo o preço se situou abaixo da média. Esse tipo de gráfico é conhecido como a distribuição acumulada dos preços spot. O ponto importante é que essa forma de distribuição é uma medida do risco que, na situação plotada, realmente é baixo.
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É interessante examinar um outro caso envolvendo probabilidades: O caso da loteria de números. Se o mesmo tipo de gráfico fosse feito para a mega-sena, o gráfico teria a seguinte aparência .
Esse tipo de distribuição é o exemplo extremo do evento arriscado. Imagine se você colocaria seu dinheiro em um negócio que dependa do sorteio da loteria. Observe que a média, nesse caso não quer dizer muita coisa pois a probabilidade do número sorteado estar abaixo da média é igual a estar acima.
O problema do sistema brasileiro é que essa distribuição de preços do mercado pode facilmente "tender" para a distribuição da loteria. Tudo depende do futuro. Para entender continue lendo o ponto 3.
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É preciso entender como o ONS calcula o preço da energia. O ONS é uma espécie de "guardião do futuro". Como o sistema brasileiro é composto de reservatórios de grande porte que acumulam água de vários anos, o problema de quem gere esse sistema é o de controle de estoque ao longo do tempo. Diga-se de passagem que o sistema brasileiro terá essa característica por muito tempo ainda. A figura ilustra a função do ONS. A todo o tempo ele olha para o futuro e compara a evolução do consumo e dos investimentos. Quando a oferta está equilibrada com a demanda, as usinas que vão ser inauguradas estão com as obras em dia, o Operador avalia para diversas hidrologias o "risco" de déficit. Nesse caso, a água guardada nos reservatórios pode ser usada preferencialmente para o atendimento da demanda do presente. Apenas uma pequena parte é reservada estratégicamente para o futuro, como ilustrado . Nesse caso, a curva de distribuição é a curva azul com a mesma aparência da curva do relatório do governo.
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O que acontece quando os investimentos dedicados às usinas futuras minguam? Exatamente como aconteceu no final da década de 90, o Operador preocupa-se com o futuro e portanto reserva uma parcela maior da água para atender a demanda futura. Isso pode acontecer quando uma ou mais usinas programadas ficam indefinidas. A distribuição do preço "spot" passa a "engordar" como mostrado na curva azul. No limite, essa curva tenderia à distribuição da loteria , situação de risco máximo. Evidentemente esse quadro limite não chega a acontecer, mas as "atrativas" condições de baixo risco imaginadas no relatório do governo, desaparecem.
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O modelo mercantil do governo tem, em sua arquitetura, pelo menos 2 características que provocam essa situação de risco. Primeiro, não exige que a contratação da demanda futura seja feita em horizonte de longo prazo e nem exige que se contrate 100% do mercado. Antes 15% estavam reservados para a especulação, e agora, reduziram para 5%. Parece pouco, mas 5% é equivalente ao crescimento de um ano do mercado brasileiro e pode significar aproximadamente 3000 MW médios. Segundo, abandonou o planejamento determinativo adotando um conceito que ninguem sabe o que é. O Planejamento indicativo chega a ser um contrasenso, pois se não há uma lógica que valha a pena ser defendida, para que planejamento? Essas características do modelo, por mais que o governo queira esconder dos "deslumbrados", fazem a grande diferença para sistemas térmicos. E tem mais! Não depende da hidrologia pois os cenários hidrológicos considerados cobrem uma grande variedade de situações. Por isso não cansamos de dizer:Modelo Mercantil em sistemas hidrícos de grande porte: Risco para Todos! Bem… pelo menos é democrático no risco…