Jornal do Commercio 13/6/99
As ações da Coelba, distribuidora baiana de energia, subiram até 19% na Bovespa ontem, contrariando a tendência de baixa imposta pela crise argentina. Por trás da alta, estavam rumores fortes de que a Iberdrola e a portuguesa EDP queriam o controle da empresa. A EDP está tentando também a Escelsa. Para fechar os negócios, os portugueses precisam em ambos os casos do aval da Previ, maior fundo de pensão do País. No caso da Escelsa, distribuidora capixaba de energia, a Previ controla na prática a GTD, holding que congrega outros 27 fundos, e a GTD tem direito de preferência sobre parcelas à venda da Iven, holding que reúne bancos de investimento como Icatu, Pactual e Opportunity. Na Coelba, a relação é mais direta, pois a Previ e os fundos de investimento administrados pela BB DTVM detêm a maioria do capital votante ao lado do Opportunity, embora tenham preferido ceder a gestão à Iberdrola, por meio de um contrato de assistência técnica com royalties fixos de 1% do faturamento que chegaram a motivar uma investigação da Aneel e outra da CVM. CAXANGÁ. Uma das versões que alimentaram a alta de ontem dava conta de uma troca de ações, pela qual os portugueses dariam parte do capital que detêm da Bandeirantes em troca da entrada na Coelba. Em outra, que circulou com mais força, a Iberdrola seguiria o estilo dos investimentos espanhóis mais recentes e arremataria a Coelba, para explorar o fato de que sai mais barato se financiar no exterior do que no mercado de capitais brasileiro. A oferta se daria na casa dos R$ 60 por lote de mil, cerca de 30% acima dos R$ 44 com que o papel da Coelba abriu o pregão de ontem, daí o rally vivido pela ação.
A chave para a conclusão do negócio, mais uma vez, estaria com a Previ. À época do leilão, a Previ e os fundos da BB DTVM justificaram a aquisição da Coelba, em valores altos, com a sinergia que a empresa apresentava com a Escelsa. Instaladas em Estados limítrofes e ambos ponta de rede, sujeitos a flutuações maiores na oferta de energia nos respetivos sistemas interligados, as duas companhias poderiam lucrar com projetos de geração e investimentos em linhas de transmissão partilhadas em alguns trajetos.
Caso opte por se desfazer do investimento na baiana Coelba, ou mesmo por acompanhar a disposição vendedora dos bancos na Escelsa, a Previ estaria indicando uma mudança de rota mais profunda na gestão de ativos, sugerindo que o próprio Banco do Brasil estaria disposto a promover uma revisão em regra nos negócios firmados por gestões anteriores. Nessa brecha é que a EDP, presente também no capital da Cerj, poderia fazer prevalecer sua estratégia de expansão e diversificação de riscos, por ora pendente da resposta da Iven e do Pactual a uma oferta de US$ 300 milhões pelas respectivas fatias na Escelsa.