GLOBO 16/9/98
Gerasul é vendida pelo preço mínimo para empresa belgaRamona Ordoñez
A Gerasul, geradora de energia do Sul do país, foi vendida ontem na Bolsa do Rio pelo preço mínimo de R$ 945,7 milhões à empresa belga Tractebel. O resultado do leilão permitirá a entrada no país de US$ 801 milhões em investimentos estrangeiros. A crise financeira internacional, contudo, afugentou vários investidores. A Tractebel foi a única a apresentar proposta no leilão, que durou apenas quatro minutos.
Os momentos que antecederam o leilão foram tensos. A expectativa era de que três grupos participariam da disputa. Poucos minutos antes do leilão, o vice-presidente do BNDES, José Pio Borges, recebeu telefonemas de investidores pedindo o adiamento. Os dois outros grupos acabaram desistindo. Os integrantes da Rio Grande Energia, que fazia parte do consórcio liderado pela americana AES, desistiram e a AES procurou na última hora se compor com o grupo francês Electricité de France (EDF) e a Total. A falta de acordo entre as partes sobre o controle acabou levando as empresas a desistirem.
José Pio Borges admitiu que a crise internacional afastou vários investidores do leilão da Gerasul. Pio Borges destacou, contudo, a importância de a empresa ter sido vendida para um grupo forte europeu que pagará pela Gerasul com recursos próprios.
– Evidentemente as condições de financiamento externas afastaram alguns grupos, mas o resultado foi muito bom. A gente não sabe quando esse quadro vai melhorar e o custo financeiro de um adiamento seria maior – disse Pio Borges, acrescentando que o Governo deve arrecadar US$ 40 bilhões com as privatizações este ano. Até agora, já foram arrecadados US$ 35 bilhões.
O diretor-superintendente da Tractebel no Brasil, Maurício Bähr, disse que a compra da Gerasul é o maior investimento da empresa fora da Bélgica. Em março, a Tractebel ganhou a concessão para construir a usina hidrelétrica de Cana Brava, em Goiás.
– Apesar da crise internacional demonstramos que acreditamos no Brasil, nas medidas tomadas, e no desenvolvimento do setor elétrico – afirmou.
O vice-presidente Internacional da Tractebel, Christian Biebuyck, disse que a empresa tem confiança no Brasil:
– Olhamos no longo prazo. O país precisa de mais investimentos para seu crescimento e temos a firme intenção de seguir investindo no país. O impacto da crise no Brasil foi desproporcional em relação ao tamanho da economia. Afinal, temos o maior PIB, o maior número de estrangeiros operando no país e os papéis do Brasil são os preferidosnas carteiras dos fundos de investimentos.
– Na estratégia global das grandes empresas, o Brasil tem um enorme status e seria ingênuo achar que o país seria prejudicado na crise – afirma o diretor técnico da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização (Sobeet), Otávio de Barros.
A Sobeet mantém a previsão de que os investimentos estrangeiros diretos no país ficarão em torno de US$ 20 bilhões neste ano, caindo para US$ 15 bilhões em 1999, devido à redução do valor das empresas privatizadas.
COLABOROU Cláudia Schüffner