O GLOBO 18.01.98 Uma nova candidata a Telerj Berenice SearaN ão foram só 126 transformadores que estouraram na véspera do Natal, deixando centenas de pessoas sem energia elétrica: a paciência dos cario …

O GLOBO 18.01.98



Uma nova candidata a Telerj

Berenice Seara

N ão foram só 126 transformadores que estouraram na véspera do Natal, deixando centenas de pessoas sem energia elétrica: a paciência dos cariocas com a Light também. A concessionária vai ser alvo da home page “Eu odeio a Light ” (semelhante à já existente “Eu odeio a Telerj”), se prepara para atravessar 1998 com uma organização não governamental (ONG) e uma CPI da Assembléia Legislativa em seus calcanhares, e já tem uma fila de reclamantes na porta. Uma insatisfação crescente levou 102 queixosos à Procuradoria de Defesa do Consumidor (Procon) em 1995; esse número pulou para 323 em 1996 (ano da privatização da concessionária) e praticamente quintuplicou em 1997, quando 506 pessoas levaram seus problemas aos procuradores. A Light já ocupa o sexto lugar em reclamações na Procon.

– É verdade que o consumidor, de modo geral, está mais exigente. Mas esse número ainda poderia ser maior porque pouquíssimas pessoas sabem que todos os transtornos provocados pela interrupção do fornecimento de energia podem ser avaliados como perdas e danos morais e materiais – diz a coordenadora da Procon, Sônia Carvalho.

O presidente da Light, Michel Gaillard, tem outra explicação. Em 1996, antes mesmo da privatização, foi mudado o sistema de leitura dos relógios que registram o consumo de cada residência. A leitura passou a ser bimensal, e a cobrança, a cada dois meses, feita pela média das contas anteriores. Muitas vezes, porém, na hora da leitura do relógio, era encontrado um valor superior ao que fora estimado. E, na conta seguinte, a Light cobrava a diferença, pegando o consumidor desprevenido. Daí tanta revolta.

– Isso gerou muitos problemas. Por isso, mudamos de novo o sistema. A leitura voltou a ser mensal – diz ele.

Nos primeiros dias do ano, o gabinete do deputado estadual Paulo de Aquino (PMDB) foi tomado por intermináveis queixas contra a concessionária que deixou parte da cidade às escuras na véspera do Natal. Paulo de Aquino está recolhendo assinaturas para instalar uma CPI e apurar como se deu a privatização dos serviços de distribuição de energia elétrica:

– Quero saber por que o Governo fez essa concessão sem regulamentar uma forma de fiscalizar o fornecimento de energia. E saber se o poder público pode retomar a empresa, caso a população continue sendo prejudicada.

A maioria das reclamações na Procon mostra cobranças indevidas ou abusivas e medições erradas. Mas há quem proteste contra os estragos provocados pelas interrupções no fornecimento de energia, ultimamente muito freqüentes. Nem sempre com sucesso. Marcos Dessaune – por ironia, consultor de atendimento ao consumidor -, morador da Barra da Tijuca, teve seu telefone sem fio queimado num pico de energia, em abril do ano passado.

– Moro no Jardim Oceânico e lá é muito comum faltar luz. A Light tem um sistema de religamento automático, então a luz volta e apaga, volta e apaga, com picos. Foi isso que queimou meu telefone – aposta Dessaune.

A partir daí, começou sua via-crúcis. Primeiro escreveu uma carta à concessionária, mas não obteve resposta. Procurou a Procon, que promoveu sua reunião com advogados e técnicos da Light. Não houve consenso. Outra carta ao presidente e à ouvidora da empresa, Michel Gaillard e Eliane Galotti, acompanhada de um abaixo-assinado subscrito por seus vizinhos.Também não conseguiu resposta.

– Por fim, recebi em novembro a carta de um gerente técnico da Light, dizendo que considerava o caso encerrado. Ou seja, nada resolvido – reclama.

Tanta burocracia desestimula Emerson Bernard, morador da Freguesia, em Jacarepaguá, que perdeu dois freezers em menos de uma semana, durante um período de muitas interrupções no fornecimento de energia.

– Eu ainda penso em recorrer, mas sei que será complicado – diz.

A própria Light divulgou que todos os prejuízos com os blecautes seriam ressarcidos, desde que os consumidores levassem à sede da empresa as notas fiscais dos produtos danificados. Segundo a concessionária, ninguém apareceu para reclamar.

– Eu não tenho mais a nota fiscal do freezer. Já o comprei há dois anos – lamenta Emerson.

A revolta criativa do professor de informática Rômulo Fritscher vai ganhar forma na rede mundial de computadores. Rômulo, morador do Recreio dos Bandeirantes e autor da home page “Eu odeio a Telerj” – uma página de queixas contra a concessionária campeã de reclamações -, vive tendo problemas de falta de luz no meio das aulas.

– Tenho 12 computadores e morro de medo de que eles acabem pifando por causa disso. Já está na hora de fazer a home page “Eu odeio a Light” – diz.

Da ameaça ao passo concreto: o Sindicato dos Urbanitários está se unindo à federação da categoria e criará uma organização não governamental para ajudar a população a fiscalizar serviços prestados pela Light. Com apoio da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da UFRJ, do Clube de Engenharia e do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), a ONG vai apurar quantas interrupções de energia o carioca sofre por ano – e quanto tempo duram.

– São os dois índices que medem a qualidade do serviço prestado. E quem é responsável por essa medição? A própria Light. Acreditamos que a concessionária está manipulando os resultados – diz Luiz Carlos de Oliveira, presidente do sindicato.

Gaillard garante que os dados são repassados à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), órgão fiscalizador ligado ao Governo federal. E que os técnicos da Aneel podem fazer auditorias nas medições feitas pela companhia:

– Os índices atuais são os melhores dos últimos cinco anos, mas eu compreendo que o consumidor ainda esteja insatisfeito, porque a privatização da companhia tinha como objetivo melhorar os serviços prestados e ainda não chegamos ao patamar esperado.

Na semana passada, o presidente da concessionária teve que ir a Brasília explicar à Aneel por que houve tantos transtornos no fornecimento no fim do ano. Luciano Pacheco, diretor da agência, disse que está sendo concluído um estudo com a avaliação dos serviços que a concessionária vem prestando.




Mais escuridão do outro lado da baía


As luzes do vizinho se apagam mais e por mais tempo. Do outro lado da Baía de Guanabara, a fila de reclamações contra aCompanhia de Eletricidade do Rio de Janeiro (Cerj) é daquelas de dar muitas voltas no Estádio Caio Martins. A freqüência e a duração das interrupções no fornecimento de energia nos municípios atendidos pela Cerj vão levar a companhia ao banco dos réus.

Computadores inutilizados, motores de geladeiras queimados, aparelhos de ar condicionado prontos para a lata de lixo já fazem parte da rotina dos moradores da Região Oceânica de Niterói. No ano passado, o presidente da Associação de Moradores do Condomínio Jardim Ubá, Paulo Ricardo Pimentel, começou a anotar quantas vezes e por quanto tempo a região ficava sem luz. Os resultados são impressionantes: em novembro, foram 34 interrupções; só no dia 5, o fornecimento de energia caiu oito vezes. E os números deste começo de ano são menos animadores ainda: até o dia 15, Pimentel já contabilizava 22 interrupções; no dia 8 a luz foi embora às 17h30m e só voltou quando o relógio bateu 1h30m do dia 9. O Conselho Comunitário da Região Oceânica, irritado, decidiu, na quinta-feira passada, entrar na Justiça contra a companhia.

– Há exatamente um ano tivemos uma reunião com o gerente de Relações Corporativas da Cerj, José Luís Echenique. Ele nos pediu um prazo de 18 meses para a nova diretoria da companhia começar a apresentar resultados. Ele ainda está no prazo, mas, ao contrário do que era esperado, tudo piorou muito a partir de agosto. Convidamos Echenique a vir conversar com os moradores. Ele não só não veio, como também não indicou um representante da Cerj. Enfim, demos a eles uma última chance. Eles deixaram o caminho livre para procurarmos a Justiça – diz Paulo Ricardo Pimentel.

Em Piratininga, por exemplo, quando a escuridão não é total, a queda de tensão apaga a iluminação pública no início da noite e a energia não tem carga suficiente sequer para movimentar as hélices de um ventilador. Ar condicionado, nem pensar. Em São Gonçalo, moradores do bairro Porto Novo reclamam da perda de aparelhos eletrodomésticos por causa da baixa tensão e cortes no fornecimento de energia. Também no bairro de Venda da Cruz há reclamações. Na Rua Arthur Tibau, os moradores ficaram quase 72 horas sem luz na semana passada. Eles se queixam de sobrecarga no equipamento e afirmam que pelo menos duas vezes por mês falta luz.

A Cerj reconhece que ainda há muitos problemas com o fornecimento de energia em seus municípios. De acordo com a Gerência de Relações Corporativas, quando a companhia foi privatizada, há 14 meses, as redes de distribuição estavam completamente obsoletas, os equipamentos de rua defeituosos ou em sobrecarga, as subestações operando acima de seu limite. A Cerj investiu R$ 150 milhões no sistema em 1997 e promete gastar mais R$ 120 milhões neste ano. O programa de investimentos da companhia prevê a aplicação de R$ 900 milhões até o ano 2001. Segundo um assessor do Ministério das Minas e Energia, a Cerj deve ocupar hoje a 25ª posição no ranking de qualidade das 31 distribuidoras de energia no Brasil.


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