A versão Tourinho Marcio Moreira Alves Globo 25/04/2000 Rodolpho Tourinho faz parte do núcleo de executivos competentes que Antônio Carlos Magalhães foi selecionando ao longo de seus muitos anos no pode …

A versão Tourinho



Marcio Moreira Alves


Globo 25/04/2000


Rodolpho Tourinho faz parte do núcleo de executivos competentes que Antônio Carlos Magalhães foi selecionando ao longo de seus muitos anos no poder. Em 1991, depois de sair do Banco Econômico, foi convidado para a Secretaria da Fazenda da Bahia, apesar de só conhecer ACM de batizados e saudações de fim de ano. Pediu e recebeu carta branca, inclusive para nomear as diretorias dos dois bancos estaduais.


Diz Tourinho que jamais recebeu de ACM um pedido na Secretaria da Fazenda nem uma sugestão de operação ou nomeação nos bancos. Ficou oito anos na secretaria e agora é ministro das Minas e Energia, tendo sob sua responsabilidade o setor elétrico e a Petrobras. O encargo com o setor elétrico tem dois problemas políticos: a privatização das empresas geradoras e a Eletronuclear. O setor de petróleo só traz alegria, de vez que o presidente Philippe Reichstul conseguiu, de mansinho, assumir a liderança da empresa e tornar as suas ações transparentes e muito rentáveis. Neste campo, o problema maior é a privatização dos cérebros. Com a vinda de tantas empresas de petróleo para o país, há uma rapina sobre os quadros experientes que a Petrobras formou ao longo dos anos, à custa de investimentos em treinamento e pesquisa. Uma refinaria ou uma plataforma de alto-mar compra-se pronta, no mercado. Um engenheiro com 10 ou 15 anos de experiência, é mais difícil. A defasagem entre os salários da estatal e do mercado está gerando uma migração de cérebros perigosa para o futuro da empresa. A este respeito, diz Tourinho que em breve proporá um leque salarial mais próximo do das empresas privadas, ainda que não igual.


Perguntei a Tourinho se teria coragem de privatizar a Chesf e nunca mais poder andar pelo Vale do São Francisco. Respondeu que sim, e que andaria pelo interior sem perigo algum. A razão que alega é que separou a geração de energia com a utilização das águas do rio. Os reservatórios continuarão em mãos da Eletrobrás. A transposição das águas, projeto do coração do ministro Fernando Bezerra, que é rio-grandense-do-norte, afetaria muito pouco ou nada a geração de energia. Portanto, nada tem a opor à transposição. Quanto à geração das usinas de Paulo Afonso e Xingó, acha que, tendo-se já privatizado 80% da distribuição de energia e licitado à iniciativa privada as novas linhas de transmissão, não vê razões para que o Estado continue na geração. Explica:


– No Norte temos situações distintas. Para Rondônia e Acre, teremos de construir a termoelétrica de Porto Velho, que será abastecida pelo gasoduto a partir de Urucu. O gás de Urucu abastecerá ainda a termoelétrica de Manaus, já em construção. No Pará e Maranhão, a duplicação da usina de Tucuruí acrescentará 4,2 megawatts à capacidade já instalada. É energia para muitos anos. Aliás, os grandes consumidores de energia, cujos contratos privilegiados terminam em 2004, são concorrentes na privatização da usina. Roraima será abastecida pela linha de transmissão de Guri. A parte brasileira está pronta. O presidente Chávez, com quem assinamos um convênio este mês, garante que a parte venezuelana é uma prioridade de seus planos de governo.


Sobre a privatização de Furnas, uma empresa muito rentável, que abastece o coração industrial do Brasil, diz que o raciocínio que desenvolve para o Vale do São Francisco se aplica ao Rio Grande e demais zonas de atuação de Furnas. Acredita que o Estado tem de se retirar do setor e que em cinco anos não haverá mais tarifas concedidas pelo poder público. Haverá plena competição entre as empresas de geração, o que, acha, melhorará a qualidade da energia produzida, com reflexo nos preços ao consumidor.


A grande meta do ministro Tourinho é a universalização da energia elétrica a todo o país, inclusive às zonas rurais. A tarefa de levar luz ao campo, inclusive na Amazônia, continuará a cargo da Eletrobrás, que a ela dedicará todos os seus investimentos que, no ano passado, foram de perto de R$ 800 milhões. Diz:


– Para que se tenha uma idéia da importância da eletrificação rural, só em São Paulo há mil escolas sem energia elétrica. Nunca ninguém propôs a universalização da luz porque os investimentos em geração, transmissão e distribuição consumiam todos os recursos disponíveis. O Governo federal, ao sair desses setores, liberará os recursos necessários ao programa.


A Eletronuclear deu um prejuízo de mais de R$ 700 milhões no ano passado. Aconteceu o que algumas vezes escrevi aqui, sempre contestado pela direção da empresa, que não prima pela veracidade de suas informações. O ministro Tourinho partilha das minhas apreensões sobre a segurança do funcionamento de Angra I, mas diz que se ela não existisse, teríamos tido sérios problemas de fornecimento de energia para o Rio e São Paulo este ano. Pretende tratar o assunto mais de perto no futuro.

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